A seis passos da tragédia

A seis passos da tragédia
'Into the abyss', Richard Vergez (Divulgação)

 

Segundo as pesquisas da quinta-feira (4), Bolsonaro está a 5,5 pontos percentuais de votos válidos da vitória na corrida presidencial de 2018, ainda no primeiro turno. Pode ser que quando você estiver lendo esta coluna as pesquisas da sexta e do sábado lhe informem que falta menos ainda. Se você não acredita em pesquisas eleitorais, sorte a sua, pois a angústia não lhe visitará antes do domingo à noite. Mas se acredita nos grandes institutos de sondagem, cruze os dedos, tente virar uns votos, vá à luta ou reze, pois se os bolsonaristas trabalharem direitinho a vitória do Coiso estará mais próxima do que teria sido possível imaginar na semana passada.

Mas como se, no fim de semana passado, estávamos encantados com a reação feminina na campanha do #elenão, que se espalhou por todo o Brasil e em uma proporção impressionante? Nunca saberemos ao certo se o #elenão foi o gatilho da reação bolsonarista, como muitos admitem com ótimos argumentos, ou se foi o fator que atenuou a onda conservadora que já se estava preparando. O fato é que, pelo resultado das várias sondagens de opinião divulgadas nesta semana, apostamos tudo no #elenão, mas quem ganhou mesmo a queda de braço das intenções de voto foi o #elesim.

O #elenão compactou as certezas dos já não bolsonaristas, mostrou publicamente a força deste segmento e permitiu uma festa cívica linda, de reafirmação de valores democráticos e de vontade de resistir. Mas só foi capaz de pregar aos já convertidos, não expandido em nada a rejeição ao candidato do PSL. Além disso, o outro lado foi mais eficiente na guerrilha de contrainformação e compensou digitalmente, de sobra, em grupos de WhatsApp, o que perdeu nas ruas. É uma amarga ironia que, desde então, o segmento feminino tenha sido aquele em que o apoio a Bolsonaro mais cresceu.

O #elenão, contudo, nem de longe foi o protagonista do que se materializou esta semana, cuja face mais vistosa foram o crescimento nos índices da intenção de voto em Bolsonaro e a estagnação do crescimento de Haddad. Entre 11 e 28 de setembro, Haddad tirou 12 pontos de diferença para Bolsonaro e manteve-se, na última semana de setembro, a apenas seis pontos do líder da corrida, segundo dados do IBOPE e do Datafolha. Quando acontece o #elenão, no sábado, dia 29 de setembro, três pesquisas eleitorais publicadas na mesma semana (IBOPE 24/9 e 26/9, Datafolha 28/9) diziam que as intenções de voto dos dois candidatos haviam se estabilizado com apenas seis pontos percentuais de diferença. Mas não só. Diziam algo ainda mais importante para os antipetistas, a saber, que esta eleição se resolveria entre Bolsonaro e o candidato do PT e, mais ainda, que Bolsonaro poderia perder no segundo turno.

A minha hipótese é que foi isso que desencadeou a corrida para Bolsonaro que caracterizou a semana que termina e que, desafortunadamente, é também a última antes do primeiro turno. E disparou a onda de votos úteis à direita, para liquidar esta fatura já no dia 7 de outubro. E isso aconteceu, na minha opinião, porque o antipetismo é o principal “drive” da eleição de 2018. A hipótese, cada vez mais plausível, de que o PT acabaria vencendo esta eleição principalmente em virtude do volume da rejeição em Bolsonaro, precipitou o voto estratégico de quem tinha outras ideias na cabeça, mas que tinha certeza de que o PT nem deveria nem mereceria vencer esta eleição.

O que está decidindo esta eleição não são os belos olhos de Bolsonaro. Aparentemente, o bolsonarista raiz é aquele que compunha os 20% de intenções de voto que ele tinha em agosto. Uma boa parte destes o escolheu de olhos bem abertos e comprou o pacote inteiro de fascismo, bala e bravata. Este era o famoso “teto” que jornalistas liberais e cientistas políticos disseram que Bolsonaro não poderia superar. Mas superou. Em setembro, Bolsonaro aumentou em 50% seu patrimônio eleitoral e subiu mais 10 pontos percentuais. Foi a primeira onda de votos úteis. Que impediu que o candidato do PSL, diferentemente do que esperava a campanha de Alckmin, por exemplo, perdesse votos para os seus concorrentes de direita durante o período de propaganda televisiva. Ao contrário, foi provavelmente ele a manter nanicos Amoêdo, Álvaro Dias e Meirelles. E a congelar Geraldo Alckmin exatamente do mesmo tamanho que tinha em agosto.

Já em setembro, a questão decisiva foi o antipetismo que levou pessoas que, “por princípios” preferia candidatos do centro-direita, a apostar na opção antipetista com maiores chances de sucesso. A aposta das campanhas de Alckmin, Dias e Marina (e, ao que parece, também de Ciro Gomes) no antipetismo, acabou custando caro a todos. O antipetismo é um cavalo já montado. Você pode até alimentá-lo e deixá-lo grande e vistoso, mas nesta eleição apenas Bolsonaro podia galopar em seu lombo. No fundo, todas essas candidaturas trabalharam para a candidatura de Bolsonaro, promovendo um antipetismo que não os poderia beneficiar.

Outubro, portanto, foi a vez da segunda onda de votos úteis em Bolsonaro – que nesta quinta-feira chegou a 35% e sabe Deus onde irá parar até no domingo. De onde vieram esses votos? Provavelmente vieram dos indecisos que, provavelmente, esperavam ter uma escolha entre Bolsonaro e o PT. Havia 29% de pessoas que queriam votar nulo ou branco em 20 de agosto (IBOPE). Na primeira pesquisa que já reflete Haddad como candidato oficial (Datafolha 14/9) este número cai para 13%, e se mantém nessa faixa, oscilando levemente para baixo, até a pesquisa de 3/10 (IBOPE). Na pesquisa Datafolha do dia 4 de outubro, esse número reduziu-se a apenas 6%. Como Haddad se manteve estável, esses votos devem ter ido para o voto estratégico antipetista. Entre dois males, o Bolsonaro foi considerado o mal menor. Entrega-se um cheque em branco ao fascismo, desde que o PT não vença.

Assim, a quinta-feira termina com uma diferença de 13 pontos entre Bolsonaro e Haddad e com o líder da corrida já com 39% dos votos válidos. Tecnicamente, a 11 pontos percentuais da vitória, mas a apenas 5,5 se esses pontos forem retirados de qualquer um dos concorrentes. Somando-se as intenções de votos válidos na extrema-direta e direita chegamos já a 56%, o que significa que há um estoque de mais 17% de votos válidos que em tese podem ser deslocados estrategicamente para Bolsonaro até o domingo. Isso se vocês não colocarem ao menos uma parte do voto em Marina Silva nesse pacote. Não que Marina seja de direita, não queremos mais tretas, mas o antipetismo é mais importante nesta eleição do que o espectro ideológico em que o sujeito se localiza. E, pelo que se viu no debate desta quinta-feira, Álvaro Dias praticamente ofereceu os seus votos ao capitão dizendo “leve-os e faça bom uso, traga-me a cabeça do petista”.

Nem é preciso dizer que os adversários de Bolsonaro cometeram erros demais. Haddad, obrigado a ser Lula, não foi capaz de compreender que precisava expandir para além da bolha lulista e ficou alisando o ego dos petistas. O resultado é que nem conseguiu uma integral transfusão das intenções de votos de Lula (parou em 50%) nem conseguiu falar com os indecisos ou os eleitores relutantes dos seus adversários. Tampouco teve tempo de ser lúcido, pois não tem nem um mês em que, de direito, é candidato. Passou as três primeiras semanas tentando convencer os petistas de que era Lula que não lhe sobrou tempo para convencer aos antipetista que ele não era Lula.

A obrigação de um duplo e contraditório papel, com pouco tempo e com a pressão dos lulistas religiosos em suas costelas, tornou a sua campanha inútil além da bolha petistas. As agendas que empurraram as pessoas para os bolsonaristas, como o medo do crime ou o medo do comunismo, não encontraram um acolhimento sério e consistente do candidato do PT, que gastou toda a campanha pregando para os convertidos. Por fim, Haddad parece tão pouco consciente do que está acontecendo que passou o debate da quinta-feira atacando Temer e o governo do PSDB, como se estivéssemos em 2010 e os turcos não estivessem à porta de Constantinopla. Será que não havia alguém por perto para lhe dizer, “querido, cada voto tirado de Alckmin ou de Meirelles irá para Bolsonaro e faltam só cinco para ele fechar a conta no primeiro turno”? Aparentemente, não. O público para quem ele performava queria bravatas, desagravos, louvor a Lula e lacrações.

Além disso, empolgados com a possibilidade de levar o seu candidato à vitória, os petistas rapidamente esqueceram que o desprezo ao seu partido é a principal força eleitoral desta temporada. E gastaram a maior parte da sua energia a tourear os petistas relutantes que resolveram, desta vez, votar em Ciro, e reivindicar o seu direito dinástico de ter um petista sentado no Trono da Esquerda, em vez de construir pontes fora do ninho. Pois, ironicamente, o sucesso eleitoral, ao garantir Haddad no segundo turno, pode se tornar, paradoxalmente, a nossa tragédia. O pavor diante do PT, até o momento, vai se provando maior que a ojeriza a Bolsonaro.

Estes são os fatos, creio. Se não gostamos dele, arregacemos as mangas e torçamos pelo melhor.


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