O lulismo, o bolsonarismo e as razões eleitorais

O lulismo, o bolsonarismo e as razões eleitorais
Alguém precisa explicar por que o bolsonarismo obtém êxito no imaginário coletivo apesar da mídia (Arte Revista CULT)

 

Somos seres em eterna busca de explicação para as coisas, inclusive para as coisas da política. Mas preferimos explicações simples às complexas e, sobretudo, somos fascinados pela explicação unicista – um problema, uma causa, uma solução, precisa mais que isso?

O comportamento político, como se sabe, é movido por várias razões. Algumas delas residem em nós ou em nossos grupos sociais de referências: nossos interesses, valores, desejos e temores, nossas fantasias, aspirações, necessidades, apetites, ideologias, convicções e conveniências. Outras razões vêm de fora para dentro, na forma de pressões, influência, persuasão, constrangimentos, sedução e convencimento. Mas na hora de explicar por que alguém vota em X ou Y, prefere esta ou aquela agenda, compra a narrativa A ou B, gostamos mesmo é de reduzir a ampla gama de razões possíveis a, se possível, uma razão que, se não única, ao menos seja a principal.

Acho que é esta a motivação psíquica para o esporte predileto dos brasileiros que se interessam por política (vale a dizer, neste momento, quase todo mundo) e que consiste em responsabilizar os meios de comunicação pelo comportamento político da população. O “media blaming” é uma delícia. Primeiro, porque todos temos muita consciência da importância dos meios de comunicação na formação da opinião pública política e na indução de comportamentos eleitorais. E como atores sociais poderosos são sempre causas plausíveis do que acontece na sociedade, a tese de que a mídia faz das pessoas tudo o que quer parece sempre muito razoável.

Segundo, porque responsabilizar os meios de comunicação pelo comportamento político das pessoas, quando tal comportamento é discrepante das minhas convicções e divergente do comportamento que eu aprovaria, é muito conveniente. Se a culpa é da mídia, não preciso reconhecer a legitimidade do comportamento que reprovo nem da convicção que a motiva – casos em que eu teria que justificar o meu próprio comportamento e dar razões da minha própria convicção. Os outros não têm razões próprias e fundadas para a escolha de tal candidato ou para a adoção de determinadas políticas públicas; ele foi levado a isso pela lavagem cerebral produzida pelos meios de comunicação. Ele é irresponsável pelo que está fazendo ao pedir intervenção militar ou apostar que a única virtude pública necessária a um candidato é ser imune à corrupção, a responsabilidade é tão-somente de uma Potestade externa que sobre ele se abateu, pobre coitado.

Neste momento, no Brasil, há duas grandes forças eleitorais em movimento: o lulismo e o bolsonarismo. O resto são partidos. E repartidos. O lulismo e o bolsonarismo não são partidos políticos nem cabem nos limites partidários. A maior parte dos eleitores de Bolsonaro deve desconhecer em que partido ele se encontra agora e não se importaria se ele pudesse concorrer como candidato independente. Além disso, acho razoável a hipótese segundo a qual o bolsonarismo é basicamente o movimento conservador de direita que, ultimamente, encontrou em Jair Bolsonaro o seu campeão. Estivesse Eduardo Cunha politicamente vivo, provavelmente teríamos o cunhismo ocupando o lugar do bolsonarismo. E antes mesmo de Cunha, Marco Feliciano já havia ocupado este espaço. Os conservadores de direita andaram por muito tempo à busca de um ator para o papel até que Bolsonaro lhes pareceu apropriado. Teriam apreciado, provavelmente, um ator com maior capacidade de articulação, com maior capital político e, convenhamos, mais inteligência, como Eduardo Cunha, mas, no fim do dia, o tosco Bolsonaro foi o que lhes restou, e, até o momento, está saindo-se melhor que a encomenda.

Que me desculpem os amigos petistas, que não suportam ouvir tal enunciado, mas o lulismo é muito maior que o PT. O próprio Lula já era maior que o PT em 2006, quando a imagem do partido já tinha sido gravemente atingida pelo Mensalão, enquanto Lula flutuava eleitoralmente acima das confusões partidárias. E acho plausível a hipótese de que as bases do lulismo permitam até mesmo imaginar que o movimento poderia sobreviver a Lula. O lulismo se alimenta de gratidão e reconhecimento a Lula, mas também de um sentido compartilhado intensamente de indignação moral por aquilo que consideram sucessivos ultrajes éticos, democráticos e constitucionais no impeachment de Dilma e no singular tratamento dado a Lula pelo Ministério Público e pelo Judiciário.

Voltando ao jogo do “é culpa da mídia”, é certo que todos os lados na disputa política adoram jogá-lo. Não há bolsonarista ou simpatizante que não compartilhe a convicção de que os meios de comunicação operem ativamente contra o sucesso eleitoral do seu candidato. Talvez tenham razão. Só sei que no topo do rol das vitimizações que o movimento reivindica está, sem sombra de dúvida, “a perseguição da mídia”. Mídia, naturalmente, esquerdopata e comunista, adjetivos normalmente usados para designar qualquer pessoa, ideia ou tese que critique, ataque ou demonstre desapreço por Bolsonaro, suas convicções e seus sequazes.

Por outro lado, também não há pessoa de esquerda que não participe da crença de que os meios de comunicação dominantes foram os responsáveis pela completa ruína da imagem pública do PT, do governo de Dilma, de Lula e até da esquerda, levada a termo nos últimos cinco anos. Sim, houve ação política pesada, na esfera pública e nos bastidores, e o impeachment de Dilma Rousseff e a condenação de Lula não teriam acontecido sem a anuência, conluio ou, ao menos, covardia do Judiciário, mas o apoio popular que permitiu que tudo isso acontecesse não teria sido obtido sem a poderosa maquinaria de destruição e recriação de imagens, reputações e opiniões que são os meios de comunicação. Talvez tenham razão. O fato, porém, é que também neste âmbito, a “perseguição da mídia” está elencada como a razão número um da tragédia da esquerda e do PT nos últimos anos.

Mas se os meios de comunicação são o culpado ideal para explicar os meus fracassos, retirando convenientemente a minha própria responsabilidade da equação, o que explica o sucesso dos meus adversários? No caso do PT, por exemplo, pode ser plausível a tese de que os meios de comunicação fizeram parte do ambiente de decomposição da sua imagem, mas este fator não explica, por exemplo, a ascensão do bolsonarismo. Sim, pode-se até mesmo argumentar plausivelmente que este movimento é beneficiário do generalizado sentimento antipolítica e que este, sim, é um produto derivado da cobertura e do colunismo político dos últimos anos. Mas o sentimento antipolítica não necessariamente precisaria confluir no bolsonarismo. De fato, há dois anos, foi Doria, “o empresário”, a ser beneficiário de tal sentimento, como o foram Collor e Berlusconi em outras circunstâncias, por exemplo. E entre Bolsonaro e Doria há não só um abismo de imagem, há também concorrência eleitoral.

Além disso, Jair Bolsonaro tem provavelmente razão ao considerar que os formadores de opinião e as redações dos grandes jornais brasileiros não podem ser acusados de simpatias pelo bolsonarismo, tamanha a sua boçalidade, a baixa qualidade moral e intelectual das ideias que defende e o teor antissocial das suas convicções. Não obstante isto, o bolsonarismo é, até aqui, um sucesso de público. Assim, mantida a teoria de que petismo fracassa na percepção social por causa da mídia, alguém precisa explicar por que o bolsonarismo obtém êxito no imaginário coletivo apesar da mídia. De forma que ou o bolsonarismo tem virtudes de penetração e capilaridade sociais que o petismo não possui – ou não possui mais – ou precisamos encontrar explicações mais complicadas para as razões do comportamento político e eleitoral, que não repousem, preguiçosamente, nos meios de comunicação coma causa de tudo.

Pessoalmente, acho que o melhor caminho é sempre reconhecer as razões dos outros e prestar atenção nelas, mesmo que não as considere as melhores nem as mais justificadas. E o media blaming claramente não é suficiente para explicar as razões por trás do bolsonarismo.

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