O Sete de Setembro e os ratos que rugem

O Sete de Setembro e os ratos que rugem
Fico imaginando o que vai acontecer no dia 8 de setembro, quando os bolsonaristas acordarem para constatar que tudo está igual (Foto: Marcelo Gomes/Agência Brasil)

 

 

Não sei se o Dia Sete vai ser gigante, como Bolsonaro anuncia e a sua seita espera, só sei que manifestações bolsonaristas do 7 de setembro são a nova pauta decisiva do governo. Não, as prioridades do governo brasileiro não incluem controlar a inflação nem diminuir as tarifas públicas de energia ou o preço da gasolina ou do gás de cozinha, que reduzem a quase nada os ganhos dos pobres. A prioridade é a sobrevivência política do governo e a manutenção dos bolsonaristas em estado perene de mobilização.

Como em toda pauta do governo, e elas estão se sucedendo à razão de uma inteiramente diferente a cada duas semanas, há um senso de urgência na convocação das manifestações. Alguma coisa de extremamente decisivo, e que só se realizará se você for, acontecerá naquele dia. Além disso, a paranoia que já conhecemos também está presente no chamado: estamos sendo perseguidos, todos estão contra nós, precisamos reagir. Por fim, temos o inevitável populismo: o líder carismático, Bolsonaro no caso, fará o que for preciso, pois sabe que é do interesse do povo, o povo quer, o povo pediu e se o povo quer, não há força que lhe deva resistir. “Estarei como sempre onde o povo estiver”, indagou Bolsonaro em discurso que está sendo distribuído em vídeos pelo WhatsApp. E continua, em outro trecho: “O Brasil vai ser o que cada um de vocês quiser”. Na verdade, deveria ser moldado conforme querer do líder, mas como o líder e a massa são uma coisa só, a vontade do povo tem o direito de ser realizado. Foi assim com o nazismo e com o fascismo, é assim como todo populismo autoritário.

Esses três elementos – sentido de urgência, paranoia e populismo autoritário – são os ingredientes inevitáveis e estão presente em todas as pautas, trate-se do imperativo do voto impresso, da necessidade de se depor os ministros do STF ou do tratamento da Covid-19 com medicamentos de uso veterinário. Tudo é urgente, sempre há uma conspiração de todos contra nós e o presidente só faz isto ou aquilo porque “o povo” praticamente implora que seja feito.

Desta vez, contudo, os apelos para o Sete de Setembro contêm umas notas extras. A primeira delas é a promessa de que algo decisivo e espetacular deverá ocorrer nas manifestações ou por causa delas. Como disse Bolsonaro em outro discurso que virou vídeo para distribuição no WhatsApp: “Nunca uma outra oportunidade para o povo brasileiro foi tão importante ou será tão importante quanto este nosso próximo 7 de Setembro”. Uau! E remata: “Muitos querem que eu tome certas medidas. Eu acredito, creio que nós vamos mudar o destino do Brasil”.

Que mágica será essa? Não sabemos, mas aí se promete uma mudança essencial e grandiosa que tem a ver com o aumento de poder de Bolsonaro e a anulação do poder do STF. Como se fará isso? Não se diz, mas a promessa está lá. Promete-se algo extraordinário e singular que, além de tudo, será uma oportunidade histórica. Essa sensação de um ponto de encontro entre o indivíduo e a história deve ter um potencial mobilizador, pelos menos para própria tribo, que não pode ser desprezado.

Some-se a isso uma impressionante mudança de vocabulário. A expressão “intervenção militar” e outras que sugeriam golpe de Estado, que nos acostumamos a ver empregadas em manifestações bolsonaristas desde sempre, vêm sendo curiosamente substituídas por um vocabulário pró-democracia: é para salvar a democracia, garantir a liberdade, defender a Constituição, o Estado de Direito, juram. “Ora o que eles vão querer na rua, dia Sete?”, pergunta retoricamente Bolsonaro, para responder em seguida: “Vão querer liberdade, que estamos perdendo, estamos sendo sufocados”. Bolsonaro, herói da liberdade e protetor da Constituição, é um personagem novo, mas é todo animado.

“E quem está nos oprimindo?”- continua. “É uma minoria”, disse ele. Um Bolsonaro temeroso do STF já não declina quem seria essa “minoria opressora”, mas, pela caracterização, não poderia deixar de ser a própria Corte Constitucional do país. “De onde menos esperávamos controle sobre a liberdade, de lá tá vindo a mão pesada, ou melhor, uma caneta”, declara, para delírio da turba. E continua: “Vamos lutar por liberdade!”.

“Por que tanta energia canalizada para uma manifestação?”, perguntam-se os ainda lúcidos nesse país. Ora, meu amigo, ratos também aprendem a rugir se necessário. Neste momento o bolsonarismo, esse de convicção e identidade, bate em 12%, segundo o Datafolha. É este o volume estimado de brasileiros que não apenas votaram em Bolsonaro, com também aprovam decisivamente o seu governo e concordam com o que quer que ele diga. É compacto, é fervoroso, mas, convenhamos, é minúsculo.

A este ponto, os Bolsonaros já nem se importam com o resto da população nem com as aparências, querem salvar o seu espólio e manter os seus crentes. E nada melhor para manter alto o moral das tropas do que lhes fazer crer, em ordem: a) que há ainda uma batalha decisiva pela frente e que eles a vencerão no Sete de Setembro; b) que eles não são a maioria, é verdade, mas são muito mais do que se pode imaginar e Sete de Setembro vai ser gigante; c) que, apesar de tudo, são a parte melhor, a mais valente e a mais corajosa da sociedade, e que têm função histórica de indicar o caminho que outros deverão seguir: Sete de Setembro vai entrar na história. A sobrevivência política dos Bolsonaros depende da fé desses últimos combatentes, que nem podem se dar conta de que são os últimos nem de que são poucos.

Fico imaginando o que vai acontecer no dia 8 de setembro, quando os bolsonaristas acordarem para constatar que tudo está igual. Bolsonaro perdido nos seus papéis imaginários de mártir perseguido, Prometeu acorrentado e Napoleão de hospício, mas sem governar de fato. Bolsonaro mantido nas cordas, como de direito, por um STF e uma opinião pública que justificadamente desconfiam das suas más intenções. Bolsonaro tratado com hostilidade pelo jornalismo, que todo dia documenta mais um negócio obscuro envolvendo a sua família e o seu governo. Por isso, fala-se tanto nas convocações de destino, instante decisivo, vontade do povo, vontade de Deus. Quando bate o desespero, só Deus na causa.

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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