Montaigne filósofo

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Montaigne filósofo
Arte Andreia Freire

A produção acadêmica contemporânea relativa à obra de Montaigne é imensa; e ela o consagra inequivocadamente como filósofo

 

Um dos mais influentes comentadores de Montaigne, Hugo Friedrich, em seu Montaigne (Paris, Gallimard, 1968), tece uma bela interpretação dos Ensaios em torno de dois motes centrais: “O Homem humilhado” (que assinala neles um movimento de rebaixamento do homem, semelhante ao das “ideias cristãs sobre a miséria do pecador” – um ser frágil, desamparado, inseguro, incapaz de penetrar os mistérios da religião e de assentar os fundamentos da metafísica) e “A afirmação do Homem” (pois segue ao movimento da humilhação uma visão concreta, realista, do Homem, que permite ao ensaísta aceitá-lo tal qual é, em sua “condição humana”, demasiado humana). A humilhação revela-se, assim, o “prelúdio” de um movimento pelo qual ele se afasta dos juízos negativos sobre sua condição e assume integralmente sua humanidade – finita, imperfeita, instável –, procurando instituir parâmetros para a orientação das ações e a constituição de sua identidade: “Sê o que és, conhece-te a ti mesmo”. Uma imensa transformação: fim dos delírios presunçosos da Razão, “fim do desespero, fim da nostalgia da salvação, da suspeita de que nossa existência contingente poderia ser a crisálida de uma forma de ser superior a que poderíamos nos elevar nesse mundo ou em outro”, comenta Friedrich. Cabe-lhe agora habitar o mundo, ensaiar a própria vida, sem o apoio de Deus (inalcançável), de uma alma racional (esvaziada e vã) ou de leis da natureza (dissolvidas na particularidade).

Encontra-se aí, certamente, a raiz profunda da conhecida nonchalance e modéstia montaignianas, seja no exercício do julgamento, na ação ou mesmo no estilo da escrita. O naufrágio das ideias de Deus, Alma e Mundo – os referentes da metafísica –, que arrasta o homem para o mar da contingência, devolve-lhe, inesperadamente, alguma tranquilidade. Montaigne não deixa de reivindicar nesta operação a tradição do ceticismo, como mostra, adiante, o ótimo artigo de Luiz Eva. A libertação em relação aos princípios universais, dogmáticos, da religião e da metafísica encontra um amplo apoio nos argumentos dos céticos, mas nosso autor nos oferece um ceticismo existencial, mais que epistemológico ou argumentativo, e uma moralidade mais ativa e afirmativa que aquela da submissão às sensações, inclinações e costumes, recomendada pelos pirrônicos. É verdade que na superfície tranquila dos Ensaios não se notam de imediato os abalos sísmicos sobre os quais deslizam suas águas claras. É preciso conviver com eles para alcançar a dimensão extraordinária destas rupturas promovidas pelo filósofo.

Os Ensaios foram de início, logo de sua publicação, em 1580, tomados como um exemplar da literatura das Leçons, lições morais extraídas dos tesouros da sabedoria dos Antigos. Isso trouxe um acolhimento bastante favorável aos dois primeiros livros. Já com o terceiro, e com a percepção da extravagância da obra, o calor da recepção se arrefece, passando depois, no século seguinte, das reservas às críticas abertas por parte de filósofos como Pascal e Malebranche; o livro só mantém, então, sua presença – por intermédio das adaptações de Pierre Charron – nos círculos chamados “libertinos”. Seu prestígio se reaquece no século 18, um século para o qual, ainda, Montaigne é menos philosophe (não obstante a admiração de Rousseau e Diderot) que littérateur. No século 19, acolhido, com entusiasmo, por um amplo público, ele é um escritor de moralia, crítico dos costumes e observador da condição humana; também aí, não é filósofo. Apenas no final do século, pela apreciação de seus vínculos com as escolas do helenismo, é que se inicia a exploração filosófica de sua obra, começando também a construção do aparato acadêmico de sua interpretação, sobretudo a partir do trabalho extraordinário de Pierre Villey, que estabelece a edição que é ainda, um século depois, a referência mais difundida das suas exegeses e traduções.

A produção acadêmica contemporânea (no registro literário, filológico, histórico, contextual) relativa à obra de Montaigne é imensa; e ela o consagra inequivocamente como filósofo, explorando suas intervenções em todas as disciplinas da filosofia, da epistemologia à política, como se poderá verificar pelo variado feixe de artigos aqui reunidos. Tais artigos mostrarão também que, no Brasil, sua recepção é das mais surpreendentes: nosso país está certamente entre aqueles que – para surpresa sobretudo dos franceses – mais produziram teses e dissertações sobre Montaigne na área da filosofia nos últimos vinte anos (entre nós, mais precisamente, a partir do momento em que a professora Telma Birchal, em 1992, “acendeu o pavio”, convidando os então poucos leitores de Montaigne para uma Semana de Estudos em Belo Horizonte. Acreditamos que os textos trazidos por este Dossiê, entre várias outras publicações coletivas, darão ao leitor uma amostra do vigor desses estudos.

Poderíamos nos perguntar sobre os motivos desse nosso interesse por Montaigne. Seria difícil responder. Mas não devemos, de qualquer forma, atribuí-lo apressadamente às “tintas da melancolia, destiladas por nossas origens portuguesas”, ou a qualquer outro traço da nossa cultura. Basta anotarmos o fato de que parecemos ter com ele subterrâneas “afinidades eletivas”. Há o caso emblemático de Machado de Assis, cuja leitura dos Ensaios, como mostra adiante José Raimundo Maia, foi decisiva para a produção de algumas de suas obras-primas. Mas, há ainda, dele, em nossa literatura, outras pegadas: desde a antropofagia dos nossos modernistas (Oswald vê no ensaio “Dos canibais” “as linhas mestras da Humanidade futura”) a Ciro dos Anjos (em cujo romance O amanuense Belmiro, as referências, explícitas ou cifradas, são numerosas), sem contar seus grandes leitores-tradutores como Sérgio Milliet ou José Maria de Toledo Malta, que, em meados do século passado, fincaram as bases de sua difusão no Brasil.

Montaigne continua, enfim, bem presente entre nós; e de modo bastante vivo na academia, como se verificará pela amostragem trazida pelo afiado grupo de pesquisadores que colaboram neste Dossiê. Nele, poderiam com certeza figurar brilhantemente outros: Danilo, Plínio, Renato, Celso, Alexandrino (autor do excelente projeto Livraria de Montaigne, exposição dirigida ao grande público, em duas edições, na Paraíba), Sérgio, Silvana, Lúcio, Luciana, Cinelli, Gilmar, Flávio, Marcelo, Sandra, Cláudia, todos bravos ‘montaignistas’.

Desejamos que os leitores da CULT encontrem aqui bons motivos para, como nós, se interessarem por nosso “velho Montaigne” – como dizia Milliet –, atualíssimo amigo.


Sérgio Cardoso é professor doutor do departamento de Filosofia da USP

A edição mais recente dos Ensaios, de Montaigne, foi publicada pela Editora 34 no final de 2016

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