‘Um livro consubstancial a seu autor’: Os Ensaios como autorretrato

‘Um livro consubstancial a seu autor’: Os Ensaios como autorretrato
'Ensaios', de Montaigne (Arte Andreia Freire)
  Um nobre educado na tradição humanista, senhor de terras na região Bordeaux, após passar adiante seu cargo de juiz, dedica-se à escrita de um livro. Este será publicado em 1580 com um título inédito: Essais de Monsieur Michel, seigneur de Montaigne – cuja tradução mais literal seria Experiências (ou testes) do Sr. Michel, proprietário de Montaigne. Em várias passagens da obra que inventou o ensaio como gênero literário encontram-se declarações radicais a respeito da relação entre autor e livro. Já na dedicatória “Ao leitor”, e fazendo alusão aos indígenas brasileiros, Montaigne apresenta seu livro como um autorretrato: “Quero que me vejam aqui em minha maneira simples, natural e habitual, sem apuro ou artifício: pois é a mim que pinto. Nele meus defeitos serão lidos ao vivo, tanto quanto o respeito público mo permitiu. Pois se eu estivesse estado entre aqueles povos que se diz viverem ainda sob a doce liberdade da natureza, asseguro-te que de muito bom grado me teria pintado inteiro e nu. Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria do meu livro; não é sensato que empregues teu lazer em assunto tão frívolo e vão”. Ao olharmos o índice, porém, notamos que os títulos dos capítulos não se referem diretamente à vida do autor, mas aos mais variados assuntos – alguns deles clássicos na tradição filosófica, outros comuns e cotidianos. Estratégias militares, os canibais do Brasil, as orações, a morte, os polegares, livros e autores, a força da imaginação, a amizade, o sexo e a educação são alguns de seus temas.

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