Merda é a metonímia do momento

Merda é a metonímia do momento
Metonímia: a figura de linguagem na qual a parte serve pelo todo e que sempre expressa algo do inconsciente (Arte Revista CULT)

 

A descrição do Brasil atual pode ser resumida entre os fatos e as metonímias neles implicados.

Fato: o crime da empresa Vale. A vida de tantas pessoas em meio à lama tóxica despejada sobre funcionários da empresa e uma comunidade inteira ao redor da barragem em Brumadinho. Retrato cabal de que nada importa além do lucro de poucos. A vida é “dejeito” como disse o presidente deixando falar a ignorância e o inconsciente. O descaso e a morte é para quem estiver pela frente. E vem mais, pois Minas Gerais tem barragens em situação ainda pior. Na pós-democracia venceu a morte, na pós-verdade, a mentira. E o povo segue como gado para o abate governado pelo projeto do Brasil feito “dejeito”.

O crime da Vale é um fato, mas é também metonímia que se mistura a uma outra. Metonímia é aquela figura de linguagem na qual a parte serve pelo todo e que sempre expressa algo do inconsciente. Entre as metonímias do momento, temos a doença do presidente da República. O presidente que é o rei da “falação de merda” está no hospital adoecido dos intestinos. Não é pouco simbólico que sua doença tenha relação direta com a própria merda (escrevo essa palavra pensando se as milícias midiáticas dos movimentos fascistóides que me perseguem são capazes de ler o que escrevo e fazer fake news recortando esse trecho como fazem com vídeos em que eu apareço, vamos ver, tudo é possível neste país…).

O mito na merda

Muitos não se compadecem do presidente adoecido, dizem que ele bebeu do próprio veneno da violência, comparam-no aos carrascos que ele mesmo viveu a elogiar. Quem conhece um pouco de história do poder, lembrará agora da teoria do duplo corpo do rei de Marc Bloch. Por meio dessa teoria explicava-se a compreensão da natureza humana e divina do rei na Idade Média. Fazia-se um funeral de uma estátua de cera e festejava-se o próximo infeliz no trono. Sim, porque ser rei não era algo nada bom.

O personagem que chegou à presidência através de jogos nada limpos envolvendo as redes sociais e fake news para todo lado, foi há certo tempo incensado como “o mito”. O que será que significa, no fundo simbólico de toda linguagem, a doença do presidente? No nexo que há entre o real e o simbólico, o que se passa no Brasil atual no corpo de seu presidente? O mito está na merda.

O jargão “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” mostra a sua verdade aterradora: “Lucro acima de tudo, lama acima de todos”, como aparece na capa da revista Carta Capital.

O Brasil atual é um país a cada dia mais atrasado, o que se confirmou em Davos e se confirma a cada dia de desgoverno no Brasil. O Brasil também está na merda.

A lama em Brumadinho que matou um número ainda incerto de pessoas,  que está matando o Rio Paraopeba, que matou animais e vegetais e todo um ecossistema, seguirá produzindo mais desgraça. O projeto de destruição do Brasil que se intensificou desde o golpe de 2016, não deixa ninguém e nenhuma instituição em paz e segue seu caminho livre. (Precisamos conversar mais sobre o capitalismo. E também sobre a mistificação do comunismo, mas isso deixaremos para um outro texto.)

O presidente chegou ao poder com um jogo sujo e nele permanece levando consigo o Brasil. Quem dera que estivesse em jogo apenas o desejo ou a vontade dos brasileiros ao escolherem a triste figura para o cargo. Quando vejo uma senhora xingando uma jovem política no meio da rua e defendendo Bolsonaro, não vejo apenas uma personalidade autoritária ou fascista em potencial, vejo uma pessoa que foi manipulada em sua própria e mais íntima miséria.

Triste é pensar que essa mesma senhora é incapaz de responsabilizar-se pelo que defende. Ela não sabe o que faz quando emite seu ódio gratuitamente e não imagina que esse ódio faz mal ao mundo. Falta-lhe a noção de que ela habita um mundo e o compartilha com outras pessoas que também tem o direito de nele estar e ser como são. Falta-lhe a noção de que, nesse mundo, cada um de nós é completamente insignificante seja para Deus (para quem nele acredita), seja para o Capital (para quem nele acredita). E toda maldade é fruto de uma ilusão acerca do significado de si mesmo.

Estado de exceção mental

Estratégias midiáticas e judiciárias misturam-se há tempos na produção de uma estado de exceção legal e mental. É preciso que todos esqueçam da democracia como respeito aos limites legais e aceitem o que os tiranos lhes impõem sem reclamar.

Estratégias diversas vêm sendo usadas por um projeto de poder que envolve todos os atores bizarros da política nacional. Por isso, em vez de nos perguntarmos se Damares é louca e se Moro é cínico, precisamos entender que papel cumprem. A loucura acoberta o cinismo que acoberta a loucura, e ambos garantem o poder.

Diversos estudiosos, professores, intelectuais, pesquisadores e jornalistas já escreveram sobre as muitas estratégias que envolvem desde a guerra híbrida, a tática de firehosing, que usa a mentira e o desmentido com o objetivo de confundir mentes, as fake news que, em profusão, não dão tempo para que ninguém entenda o que realmente está acontecendo. Falar merda – ou seja, imbecilidades e brutalidades sem nenhum compromisso com a verdade –, escolher alguém para polarizar e, assim, “jogar merda no ventilador” das redes sociais é o caminho e o método.

É o que todos os personagens, de Bolsonaro a Damares fazem há muito tempo. Se Moro não estivesse sonhando em ser presidente em 2022, eu apostaria em Damares como a próxima presidente, pois terá cada vez mais poder aquele que pior se apresentar e manifestar no avanço da capitalização política do ridículo.

Enquanto os aloprados seguem com suas mistificações, o presidente agoniza e o Brasil também, tendo a justiça, a economia, a educação, a cultura e a saúde no mesmo lugar agora ocupado pelo “mito”.


> Leia a coluna de Marcia Tiburi toda quarta no site da CULT

(8) Comentários

  1. Márcia, como sugestão para o tema “capitalismo” mencionado em teu texto, creio que os números do capitalismo são um belo ponto de partida: no último ano, o 1% mais rico abocanhou 83% da riqueza gerada no planeta. O quê é isto senão a confissão de que o sistema falhou? Não vemos, entretanto, uma propaganda do sistema dizendo: “Capitalismo: o sistema que deu certo…pro 1%.” Os números e os fatos estão a nosso favor. A estratégia de comunicação estaria na contraposição à propaganda “oficial” e, mais importante, na politização das pessoas, pois sem a politização não há maneira de vencer-se a “idiotalatria” vigente.

  2. Muito bom. Bem escrito e lúcido, apesar de todo dia ao acordar, eu acreditar que só posso estar vivendo uma loucura.

  3. Não gostei da metonímia com relação ao Presidente Bolsonaro, que está sofrendo num hospital porque houve uma tentativa de assassinato. De fato, o Brasil não está nada bem. No entanto, quem sabe, se formos mais empáticos nossa vida melhorará?

  4. A merda e ideias ridículas ou loucas veio de alguns países europeus e também dos EUA para o Brasil. Pois, A loucura de Trump contaminou o atual governo desde sua campanha política. O ridículo virou moda para esses loucos do governo, e a grande mídias, que quer manter o povo na letargia, divulga tudo que é de pior para manter os troxas entretidos com o inútil. Sem projetos, sem rumo, sem cultura etc. Daqui prá frete o desafio será ter sonho. Quem será capaz de resistir no seu sonho de futuro…

  5. As facetas da política escondem verdades que alienam a nação. Na sua opinião qual a melhor maneira de saber o que realmente é verdade?

  6. Texto lúcido nesse momento surreal. A cada notícia do desgoverno me sinto afundando com o País e agora mais ainda com a lama toda de Brumadinho. Tristes tempos. Ontem o Freixo foi impedido de se pronunciar contra a Lei absurda do Moro. Onde vamos parar?

  7. Dentre muitos textos que tenho lido, este entrou também para o conjunto das ideias que compactuo dentro desse cenário triste e que cheira mal, “cheira a merda”. Parabéns pelo texto!

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