No campo das pós-verdades; ou quando o verde também é azul

No campo das pós-verdades; ou quando o verde também é azul

Pinocchio, de Igor Makarevich (Foto: Reprodução)

A definição de “pós-verdade”,  escolhida como palavra do ano pelo Oxford Dictionaries, resume bem os últimos anos, ao menos no Ocidente 

Eduardo Marks de Marques

Até meados de novembro de 2016, se alguém me falasse em “pós-verdade”, talvez a minha referência mental imediata fosse ao trabalho realizado pelo Ministério da Verdade na Inglaterra (já nem tão) distópica criada por George Orwell em seu romance 1984. O referido ministério era responsável por promover ações de propaganda para a manutenção do partido no poder e, talvez mais sintomaticamente para os tempos em que vivemos, rever e re-escrever a história para que ela sempre esteja alinhada aos interesses presentes do poder. Para mim, “pós-verdade” era isso: transformar o passado a partir dos alinhamentos ideológicos do presente. No entanto, com a nomeação do termo como a palavra do ano pelos lexicógrafos do Oxford Dictionaries, me vi obrigado a rever uma série de posições.

Conforme a definição, “pós-verdade” relaciona-se ou denota circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos importantes em moldar a opinião pública do que apelos emocionais e crenças individuais. Ao ler tal definição, fiquei duplamente surpreso; primeiramente, porque ela consegue, in a nutshell, resumir bem os últimos anos, ao menos no Ocidente. Quem frequenta as redes sociais como eu não consegue mais ignorar não só a polarização maniqueísta pela qual a sociedade está passando mas, também (e, quiçá, como sua causa e consequência ao mesmo tempo) essa tentativa voraz de transformar vivências e opiniões pessoais em experiência universal e senso comum. A pós-verdade surge para dar nome a essa prática humana assustadora não para entendê-la e eventualmente domesticá-la mas, sim, para validá-la. A pós-verdade é meta-pós-verdade em sua essência.

Estamos perdendo a habilidade de refletir criticamente sobre a realidade que nos circunda e essa tentativa constante de transformar ontologia em epistemologia de forma direta é sua consequência mais maligna especialmente porque ela vem acompanhada de um complexo de deus. Quando alguém diz que algo que fere a existência de outros não deve ser desrespeitado porque é apenas a sua opinião, no fundo o que há é o que vemos no início do Livro de Gênesis, onde a palavra transforma-se em carne, em existência, em ação que não pode ser questionada e muito menos desrespeitada. No panteão judaico-cristão, onde há apenas a presença de um único deus, isso não representa qualquer problema ou mesmo conflito de interesses (a não ser entre ele e seus subordinados) mas qualquer incursão num panteão politeísta serve para ilustrar o que vemos hoje: cada um de nós que se apropria da pós-verdade transforma-se em um deus que quer ser superior aos demais deuses formados da mesma argila. Somos todos Titãs que desconhecemos a existência dos Olimpianos.

Na língua japonesa, o kanji 青 pode referir-se ao mesmo tempo às cores azul e verde. O contexto faz com que saibamos a qual delas o ideograma aponta em determinado momento. A aceitação da polissemia faz com que haja harmonia em seu uso. Será que conseguiremos chegar em um estágio onde superemos as pós-verdades e consigamos voltar a conviver com dúvidas?

Eduardo Marks de Marques é doutor em Letras, Professor da Universidade Federal de Pelotas

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