La Bête: a quem interessava transformar a performance em escândalo?

La Bête: a quem interessava transformar a performance em escândalo?
Wagner Schwartz manipula réplica de escultura de Lygia Clark durante performance 'La Bête' (Foto: Humberto Araújo)

 

Ministério Público

Há alguns dias, por iniciativa do Ministério Público, foi determinado que o Google retire do ar os vídeos de uma performance que aconteceu no MAM em setembro de 2017. O MP também deverá receber os registros dos provedores e dos responsáveis pela difusão das imagens e dos vídeos que circularam com imagens do artista que protagonizava a performance e de crianças que a assistiam espalhados nas redes sociais desde aquela época, quando crimes de calúnia e difamação foram praticados sem nenhum pudor contra essas pessoas.

O processo de espetacularização difamatório e calunioso foi levado a termo por grupos de extrema-direita especialistas em difundir desinformação e todo tipo de fake news com objetivos específicos de chamar a atenção e conquistar capital midiático nas redes sociais.

La Bête

La Bête, que já havia sido apresentada várias vezes em outros lugares do Brasil e do mundo, é o nome da performance em questão. Ela mesma ficou apagada atrás do escândalo produzido na época. Precisamos analisá-la com cuidado.

A obra La Bête, (que se pode traduzir por “O bicho”) é uma performance na qual o artista – conhecido no campo da performance, da dança e do teatro – interage com uma réplica de um dos Bichos de Lygia Clark. Bichos é o nome de uma série de esculturas móveis produzidas nos anos 60 por Clark. São esculturas que pedem um gesto de interação do público.

Em La Bête, o artista se torna, ele mesmo, uma escultura viva que, a exemplo da peça que ele manipula, também pode ser manipulada. A manipulação é um rico conceito em cena, ela tem o sentido de movimento, de motor, de energia que muda o mundo, ela põe em cena o terminus ad quem (o limite até o qual se vai) e o terminus a quo (o limite a partir do qual). Para compreender essa obra, podemos pensar em categorias tais como ato e potência, matéria e forma, forma e conteúdo, clássicas na história da filosofia e da crítica de arte. Mas também podemos ter em mente a expressão de Vilém Flusser: “o homem sem mãos” que define o modo de ser da época digital em que vivemos. Vivemos em um mundo digital, operamos pelos dedos, é como se tivéssemos dedos, mas não tivéssemos mãos e nem corpos. Essa expressão de Flusser nos faz pensar no sentido de tocar uma obra de arte, no caso uma escultura seja ela animada ou não. Lembremos ainda que, na época em que Clark propõe a interação com seus Bichos, não se podia tocar em uma obra de arte. Então, ela propõe uma obra de arte que pode ser tocada, o que mexia com a experiência estética da época.

Ora, é a questão da vida digital e virtual por oposição à vida analógica o que se coloca em cena em La Bête, que repropõe a questão da obra e junto com ela a do corpo. Na obra, o gesto da manipulação do corpo – seja ele a extensão da pequena réplica de Clark, seja o corpo vivo do artista – provoca reflexões diversas acerca da forma como nos relacionamos com os corpos, os objetos, as coisas que se colocam à nossa presença na era digital na qual as coisas não precisam mais estar presentes. A chance de que as coisas, os corpos, as pessoas, as relações, as instituições e até mesmo um valor como a verdade se transformem em simples fantasmagorias.

É nesse limiar que a obra La Bête se estabelece. No gesto analógico de tocar o objeto-corpo (o Bicho de Clark) e o corpo-objeto (o corpo do artista), há uma espécie de mise en abîme, como se um espelho fosse refletido em outro espelho. Perguntamo-nos nessa obra: o que está sendo tocado? O que está sendo manipulado? O que é mão, o que é corpo? Quem manipula o quê? Quem move o quê? O que está sendo movido? O corpo é uma coisa? O corpo pode ser manipulado? O que pode um corpo contra sua manipulação?

O artista e a arte

Precisamos elaborar como sociedade o acontecimento envolvendo essa obra chamada La Bête e o artista chamado Wagner Schwartz, seu protagonista. Precisamos “perlaborar” como dizia Freud. Ou seja, passados dois anos, é nossa obrigação compreender com mais profundidade o que esteve e ainda está em jogo com a série de acontecimentos em torno de La Bête. Wagner Schwartz segue sua vida a produzir sua arte, a apresentar seu trabalho como performer pelo mundo, a escrever, a criar, mas a injustiça da qual ele foi vítima deveria ser reparada. A consciência brasileira não pode fingir que não está pesada.

Falo em reparação. Mas haverá reparação possível para um dano que vai muito além do que conseguimos avaliar até aqui?

Além do artista, são as crianças usadas naquela pesada campanha de difamação que são vítimas para as quais não há justiça. É também a cultura e a arte, que por meio do vilipêndio e da violência contra uma obra de arte específica, são objeto de uma violência que precisamos compreender para que não se repita. Uma violência que se repetirá enquanto ela servir aos objetivos para os quais foi usada porque seus perpetradores não tem limites.

O ataque à La Bête e à Wagner Schwartz é parte do conjunto do ataque às artes, às ciências e à educação que vemos em curso no Brasil. É certamente da mesma ordem de ataques às instituições e até mesmo à justiça – como vemos em operações como a Lava Jato – e aos personagens corruptos que ludibriam o povo fazendo-se passar por honestos. Trata-se, evidentemente, de ataques orquestrados e coordenados contra tudo aquilo que não é autoritário, a tudo o que é democrático no Brasil de hoje. Um ataque à democracia em nome do poder ilimitado de tiranos que não medem esforços para alcançar mais e mais poder.

O obscurantismo entrou em cena como combustível dessa guerra não convencional. Ele foi introduzido em nosso país por meio de atividades programadas com fins específicos. Atacar a arte, seja a performance de Schwartz (seja o QueerMuseu, seja a peça de teatro O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, com Renata Carvalho, escrita e interpretada originalmente pela britânica Jo Clifford, ou a performance DNA de DAN, de Maikon K), como aconteceu em 2017, faz parte das estratégias espertas de grupos que avançam na direção do poder. Esses grupos são especialistas em produzir efeitos. O que é estratégico deve parecer espontâneo, para cativar as massas e fazê-las agir conforme seus planos prévios.

Atacar uma exposição e um artista dificilmente vai parecer para o público não especializado um ato de violência, sobretudo se as armas usadas forem os celulares e as palavras carregadas de retórica de apelo moralista e emocional expostas nas redes como se fossem a salvação da pátria. A arte transformada em perigo é a ideia que esses estrategistas querem transmitir. Farão o mesmo com a ciência e as universidades, a Constituição e a politização da sociedade.

A violência como mercadoria

A violência é uma estratégia e, ao mesmo tempo, uma mercadoria. É a forma e o conteúdo de muito do que se vende hoje. Em se tratando do “negócio”, da indústria e do comércio da violência, fica muito difícil combatê-la. A violência midiática também, sobretudo porque ela vem sendo naturalizada como parte inegável dos processos de linguagem, comunicação, informação e desinformação que circula nas redes sociais.

A violência é um capital no mundo patriarcal/racista e é o valor que está por trás das regras do capitalismo: a competição, a meritocracia, a superioridade, o controle e a dominação. Ora, ninguém vai convencer alguém que ganha dinheiro e/ou poder para criar e propagar violência, a deixar de fazer isso alegando para esses agentes que o mundo ficaria melhor se as pessoas agissem sem violência e respeitassem direitos, instituições e outros indivíduos. A violência alimenta um mercado e não há interesse em acabar com ela. Quando se promete mais violência para acabar com a violência é evidentemente de um capital que se está a falar.

É justamente nesse sentido que se pode falar de obscurantismo. Ele também é a forma e o conteúdo da mercadoria e nada dá tanto lucro quanto ele em nossa época. Vide o que tem sido feito pelas instituições religiosas e os políticos ligados a elas que sabem unir violência e obscurantismo.

Wagner Schwartz encenava La Bête enquanto esses jogos de poder envolvendo violência aconteciam ao seu redor. Ele, as crianças, a obra de arte, a arte e a cultura como um todo foram alvo, além de tudo, do oportunismo de grupos em busca de visibilidade pelo escândalo.

Perversão publicitária

O ano de 2017 foi crucial e decisivo para a campanha eleitoral de 2018. Todos sabem que existem muitos modos de fazer campanha no contexto da razão publicitária que domina o mundo e, infelizmente, a política. Todas as instituições estão dominadas pela publicidade, ou seja, pelo valor de mercadoria para a venda. E a venda só funciona se se consegue chamar a atenção para um “produto”. Deus, sexo, moralismo, conservadorismo, obscurantismo são o velho capital anticultural que pode ser acionado de tempos em tempos para agregar massas abandonadas às leis do capital.

“Marxismo cultural” e “ideologia de gênero” são novos produtos criados para o lucro contemporâneo de ideólogos que escondem suas ideologias atrás do ataque ao que eles afirmam ser a ideologia dos outros. Pastores, gurus, políticos profissionais são de um modo geral vendedores e, para que a venda aconteça, é preciso que haja publicidade. Por exemplo, os pastores neopentecostais mais ricos de nossa época são excelentes vendedores e publicitários, como se pode ver nas pregações que se tornaram espetáculos pelos quais as pessoas não sabem que estão pagando ingresso. São personagens que vendem o que já seria de todos: o contato com Deus e a velha promessa da salvação que sempre arrebanha os desesperados. E eles só conseguem vender o que vendem porque sabem chamar a atenção daqueles que se sentem sem lugar no mundo.

É evidente que não devemos incorrer no risco de demonizar a publicidade. A publicidade pode ser simples publicização, ou seja, o trabalho de tornar algo conhecido. Justamente por isso, a publicidade está sempre tão próxima do jornalismo. Há, certamente, muitos profissionais da publicidade (ou do jornalismo) que são especialistas em comunicar e o fazem com ética e responsabilidade.

Mas há também a perversão publicitária, a pura espetacularização que, muitas vezes, funciona distorcendo a forma e o conteúdo de alguma coisa. Nesse caso, o interesse nem sempre é o de simplesmente mostrar, mas o de manipular a atenção, de mostrar com o objetivo de tornar melhor o que é ruim e de tornar pior o que é saudável. Conspurcar e destruir aquilo que é mostrado é uma estratégia publicitária do poder.

O objetivo pode ser variado, mas o meio é sempre o mesmo, a manipulação das emoções e dos raciocínios das pessoas. Por fim, a manipulação das ações. As pessoas pensam muitas vezes que estão fazendo o que querem, quando na verdade, estão sendo levadas a fazer algo que não fariam se pensassem melhor. Mas para isso, é preciso crer e não perceber o que se passa. Inclusive quando se vota.

Wagner Schwartz apresenta performance La Bête no Palais de Tokyo, em Paris (Foto: Benoit Cappronnier)
Schwartz apresenta performance La Bête no Palais de Tokyo, em Paris (Foto: Benoit Cappronnier)

Intenção e recepção

A quem interessava transformar a obra de arte de Wagner Schwartz em um escândalo? Quem seria capaz de ver “pedofilia” na performance La Bête?
Se interesses se referem a objetivos pragmáticos, há contudo, a intenção. Ela se refere a aspectos menos pragmáticos, mais subjetivos em nossa relação com a vida. E é aí que entra o tema do que fica oculto, do que não está claro em qualquer ato de linguagem. Todo ato de linguagem – uma fala, um texto, um meme, um slogan, uma campanha publicitária, uma obra de arte e uma manifestação a favor ou contra ela – tem uma intencionalidade, mas ela nem sempre pode ser compreendida. Há algo de inconsciente ligado à intenção e ela nos leva a pensar o tema do desejo.

Há muito tempo a hermenêutica filosófica deixou de levar em consideração a intenção de um artista em fazer sua obra e passou a ocupar-se da recepção da obra de arte. Mas creio que a obra La Bête, no contexto de sua recepção, nos obriga a voltar ao velho problema da intenção. É a questão da intenção que a sua recepção no contexto de 2017 colocou em cena. A questão que merece análise é complexa: “qual seria o interesse e a intenção do artista com aquela obra, e qual o interesse e a intenção daqueles que estão colocados no lugar de receptores daquela obra?”

Talvez as pessoas estejam mais acostumadas com o tema da intenção – já bem vulgarizado entre nós, em que pese que filosoficamente o tema da intenção tenha sido abandonado (Kant e Bergson ainda a valorizaram, mas depois ela ficou no esquecimento) – mas não estejam tão acostumadas com o tema da recepção, conhecido tema da Escola de Constanza com os estudos de Hans Robert Jauss. O tema da recepção diz respeito ao modo como uma obra é lida, experimentada, observada, falada e comentada. Quando vamos a um museu, podemos olhar as obras, mas podemos também prestar atenção no modo como as pessoas olham as obras. Um exemplo curioso: desde que a artista pop Beyoncé gravou um vídeo no Museu do Louvre, há muito mais visitas e há muitas pessoas que travam verdadeiras brigas para conseguir uma selfie diante de uma obra como a Monalisa. Ora, a recepção de uma obra também pode ser analisada no contexto do sintoma social levando em conta inclusive o desconhecimento do público sobre as obras de arte. Assim como Benjamin escreveu sobre a Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, hoje teríamos que escrever algo como “A obra de arte na era de sua utilização para a manipulação das massas”. Podemos nos perguntar porque os mesmos grupos que naquela época atacaram Wagner Schwartz não atacam hoje atos e personagens no contexto da indústria cultural? Enquanto a arte é vítima, a indústria cultural é deixada livre para seguir. A pergunta se recoloca: que interesses e intenções há na receptividade da obra de arte?

Hoje, há pesquisas interdisciplinares sobre a forma como se dá a percepção de uma obra. Qual o caminho percorrido pelo olho? O que se vê? Como alguém vê uma obra de arte? Que fatores definem a capacidade de uma pessoa de compreender ou pelo menos gostar de uma obra? Há um filósofo chamado Georges Didi-Huberman que diz que “vemos o que nos olha”. Roland Barthes, em seu livro A câmara clara, diz que todas as fotografias tem um “punctum”, um lugar onde o olho vai parar inevitavelmente.

Cada um vê o que quer

Para onde se dirige nosso olhar? O que realmente vemos? Vemos o que não queremos ver?

É nesse ponto que podemos nos colocar a questão da recepção de La Bête, a obra de arte que é a performance de Wagner Schwartz em questão. Por que ela provocou escândalo? Mas antes podemos nos perguntar: foi ela mesma que provocou escândalo? O que nela escandalizava? Ou, melhorando a pergunta, algo nela escandalizava?

Houve pessoas que alegaram a nudez do artista. A nudez é um tema da história da arte como um todo. De fato, pessoas que não tem acesso às artes, que não conhecem sua história, podem ficar escandalizadas com a nudez ou com qualquer outro elemento desconhecido de seu universo de linguagem. Lembremos de Wittgenstein nesse ponto: os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem.

Ora, o escândalo com a nudez também faz parte da história da arte. Lembremos que as imagens da Capela Sistina sofreram alterações para tapar as partes sexuais dos corpos nus devido a questões ideológicas da Igreja que, à época, tanto fomentava quanto controlava as artes.

Lembremos também que a nudez sempre representou, em termos filosóficos, (vejam o pensador da Renascença Marsílio Ficino, por exemplo) uma metáfora ou figuração da verdade. Ao longo das eras, artistas foram sempre perturbados por imposições ideológicas das religiões em voga.

A Igreja, como todas as Instituições, lida com o poder e a violência e sempre avançou contra o corpo. A Igreja sempre ajudou a demonizar o corpo e sua expressão mais simples, a nudez, que não é algo necessariamente sexual. Mesmo os órgãos sexuais, antes de serem órgãos sexuados, são apenas partes do corpo. Por que então a nudez e o corpo são frequentemente confundidos com a sexualidade?

De fato, a nudez pode despertar sentimentos de erotização em certas pessoas. Mas por quê? Há, de fato, pessoas que no lugar do corpo nu de um artista, veem um corpo sexuado e, além disso, interpretam um corpo que elas veem como sexuado como um chamado ao sexo. Isso não está em jogo no corpo do artista nu, mas no olhar de quem vê o corpo nu. O olhar é uma janela do desejo.

Ora, há muita repressão sexual, sobretudo em relação à homossexualidade. Justamente por isso há leis que preservam a liberdade de expressão relativamente a vestir-se. A nudez é uma questão cultural e andar nu não é visto por todas as pessoas ou Estados como um horror ou um crime.

Muito menos se a nudez está inserida em uma obra de arte. Nos lagos e parques de uma cidade como Berlim, por exemplo, é costume nadar e tomar sol sem roupa e as pessoas não sentem isso como algo mau. Do mesmo modo, vários povos tradicionais do Brasil vivem nus desde o começo dos tempos e chegaram à roupa apenas por violenta imposição da Igreja. O problema com a roupa e com a nudez é um problema de Igrejas. Como religião – e como capitalismo – o cristianismo desenvolveu uma relação doentia com a sexualidade e assim fez dela um fantástico dispositivo de poder. Recomendo sobre isso que leiam o livro de Uta Ranke-Heinemann, Eunucos pelo reino de Deus (Rosa dos Tempos) para entender como uma ideologia sexual e de gênero (a verdadeira ideologia de gênero que é o patriarcado) se gestou no seio da Igreja por meio de seus principais pensadores.

Novamente é a questão do desejo que se traduz de fato como “o que vemos, o que nos olha”, ou seja, para certas pessoas reprimidas em sua sexualidade talvez seja realmente impossível olhar para o corpo nu do artista e não pensar em sexo justamente porque o sexo, quando é algo interdito, acaba por clamar inconscientemente um lugar. Não espanta se essas mesmas pessoas acabarem por defender um discurso moralista como cortina de fumaça sobre um desejo que não pode ser assumido e vivido.

Mas o que aconteceu com La Bête foi muito além do recalque que, sem dúvida, precisa ser resolvido.

Wagner Schwartz apresenta performance La Bête no Palais de Tokyo, em Paris (Foto: Ayka Lux)
Wagner Schwartz apresenta performance La Bête no Palais de Tokyo, em Paris (Foto: Ayka Lux)

Pedofilia

Wagner Schwartz foi agredido e acusado de pedofilia, mas não porque uma criança, filha de uma colega também performer, tocou o corpo do artista durante a performance. Não foi por isso que ele foi atacado.

Não há motivo para atribuir algo como pedofilia à performance La Bête e ao seu protagonista. No entanto, a exemplo do QueerMuseu e dos demais artistas atacados na mesma época, a arte serve de objeto, de alavanca para uma campanha que, usando o moralismo (que não é moral, nem muito menos ético) leva ao escândalo e do escândalo à celebrização.

Fato é que o símbolo “criança” é hoje em dia uma moeda de troca no discurso conservador. “Criança” é um tropo discursivo. Serve como isca simbólica em um processo de capitalização política.

O tema da pedofilia vem sendo usado há um certo tempo como estratégia para causar pânico no contexto em que a política sexual do choque não tem limites. Vemos essa política em cena nos discursos de certos personagens da política que vão do presidente Jair Bolsonaro à ministra Damares Alves.

Lembrem do vídeo do “golden shower” à mostra nas redes do presidente para que todos vissem, inclusive crianças que ele invoca em seus discursos como seres a proteger. No caso da ministra há diversos exemplos, sendo um dos mais recentes o caso dos crucifixos relacionados a vaginas de jovens em uma fala carregada de má fé e cinismo.

O termo pedofilia começou a aparecer no Brasil com a função de espetacularização. Evidentemente, não estou me referindo à pedofilia como crime ou doença mental, estou me referindo à pedofilia como figura, como tropo, como fator discursivo capaz de lançar pânico na população e arregimentar o poder. O horror à pedofilia inscreve-se muito mais no cenário dos pavores não elaborados em uma sociedade de emoções manipuladas e reflexões proibidas. Nesses contextos, o simples uso da palavra por parte desses políticos é altamente impactante, é um choque, e faz parte da manipulação mental e afetiva, moral e política útil ao momento.

No Brasil de Jair Bolsonaro a Damares Alves há muita gente que sempre fala em nome da defesa de crianças e, ao mesmo tempo, usa a expressão pedofilia. A estratégia retórica do uso do tropo apelativo se comprova quando se observa a ausência de defesa da vida e da educação de crianças em nosso país.

Nesses discursos, as crianças são usadas e a pedofilia é mistificada como um puro discurso, um forte elemento no processo cênico dos políticos.

Compreende-se, então, como a performance de Wagner Schwartz cabia bem como oportunidade para o discurso de mistificação em vigência no Brasil desde 2017.

Wagner Schwartz apresenta performance La Bête no Palais de Tokyo, em Paris (Foto: Benoit Cappronnier)
Schwartz apresenta performance La Bête no Palais de Tokyo, em Paris (Foto: Benoit Cappronnier)

Mistificação das massas

É um fato que La Bête já havia sido apresentada em outros lugares desde o ano de 2015. Mas ela jamais havia sido interpretada da forma como aconteceu naquele momento. E é por isso que podemos nos colocar a questão tanto da intenção quanto do interesse em jogo em torno da obra.

Por que uma obra que já havia sido apresentada outras vezes se tornou objeto de escândalo e interesse público naquele momento? Por que ela não foi vilipendiada antes e nem depois, quando foi apresentada fora do país, mas apenas naquele momento e naquele lugar?

De fato, nem a obra e nem o artista eram importantes para quem se aproveitou deles senão como alavanca midiática da mistificação das massas. É uma evidente condução das massas que, originalmente, estariam desinteressadas da questão da arte e da performance de Schwartz, bem como da pessoa do próprio artista – cuja obra só interessa a seu público, a interessados na arte da performance e a críticos e historiadores de arte.

Em 2017, obras de arte específicas – e uma exposição inteira, a QueerMuseu – foram atacadas por membros de um movimento que hoje tenta redimensionar sua posição política. Trata-se do movimento de extrema-direita chamado MBL, um movimento que tenta reposicionar sua marca interagindo com membros da direita, da centro-direita e até mesmo de uma certa esquerda ingênua ou mal intencionada politicamente. Eu mesma fui perseguida durante todo o ano de 2018 por membros e simpatizantes do movimento, que invadiam os eventos literários dos quais participei naquele ano a partir do dia 24 de janeiro, quando, no contexto de uma emboscada midiática, deixei uma entrevista que eu daria na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Naquele dia, em ação de milícia midiática, os integrantes do grupo chegaram com seu líder e munidos de celulares ligados (como se fossem armas) e gravaram a minha reação ao reconhecê-los. A intenção de gravar é evidente, pois os sujeitos chegam com as câmeras de gravação ligadas. Isso aconteceu comigo também nas ruas. No dia seguinte à entrevista começou uma pesada campanha de difamação contra mim, por meio de vilipêndio de minhas imagens e falas, recortes maldosos e diversas fake news.

Criar polêmica é uma estratégia usada pela extrema-direita há tempos. Ela visa chamar a atenção para seus líderes. A eleição de personagens que são lideranças desses movimentos é um resultado esperado com esse tipo de campanha que manipula capital midiático e social. O líder do MBL foi eleito como deputado federal e esse é um resultado esperado com suas estratégias, por trás das quais há tanto o interesse quanto a manipulação da intenção. Os ataques contra eventos artísticos no ano de 2017 permitiram criar uma visibilidade para o movimento e seu líder que foi fundamental para sua eleição. Tivesse sido muito perto da data da eleição, a estratégia não funcionaria tão bem.

A extrema-direita sabe que a população vota por motivos puramente estéticos, quer dizer, vota em quem aparece mais. Fatores como conteúdo e forma só são levados a sério por quem tem algum conhecimento de política.

O que sociólogos e filósofos ao longo da história definiram como “massa” corresponde atualmente aos indecisos em teremos eleitorais, e esses são levados de um lado ou outro conforme são atingidos por campanhas. Quem assistiu ao documentário Privacidade hackeada lembrará que é a massa de indecisos que é visada pelo Facebook e pela Cambridge Analytica em seus atos de roubar dados alheios. A empresa responsável pela venda de dados, inclusive números de telefones, para políticos enviarem mensagens em massa ilegalmente, não deve ser esquecida. O caso da eleição fraudulenta no Brasil tem explicação.

Como eu já escrevi em outro contexto, o sexo não é o que se odeia ou o que se quer reprimir. Mas o sexo é usado como arma, assim como celulares com câmeras de filmagem ligadas servem de nova tecnologia armamentista nas táticas de assaltos midiáticos que pouca gente é capaz de ver como violência.

A performance de Wagner Schwartz não tinha nada a ver com isso, mas ele foi a isca do momento – como foram os outros – para arregimentar as massas ressentidas e desesperadas que se entregam à causas maldosas para sentirem, mesmo que por um segundo, que têm algum lugar no mundo.

Leia a coluna de Marcia Tiburi às quartas, quinzenalmente, no site da CULT

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