O bicho está nu: a polêmica ‘La Bête’ no MAM

O bicho está nu: a polêmica ‘La Bête’ no MAM O artista Wagner Schwartz na performance ‘La Bête’, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Divulgação/MAM)

 

Não se engane: esta é uma batalha pelo sentido, contra as pretensões do preto no branco. La Bête, performance do coreógrafo Wagner Schwartz, tornou-se atualmente o epicentro de uma guerra de narrativas. Quem a defende tenta canhestramente preservar a liberdade e a pluralidade de criação. Quem a ataca, faz uso de espantalhos sendo construídos há décadas e mobiliza problemáticas reais — a pedofilia, as direções de uma educação infantil que ajudem a evitar os abusos — para, muito aquém de concretamente combater o crime de que seriam os antagonistas verdadeiros, demonizar artistas e intelectuais. Com efeito, o que se ambiciona é demonizar todo ato de pensar e criar que multiplique os pontos de vista sobre o mundo e a vida, que delineiem as visibilidades da escuridão, as gradações de cinza, a multidão de cores dissimuladas na brancura.

“Relativismo!”, esbraveja o internauta bem treinado frente a este primeiro parágrafo (se chegar a lê-lo). “Uma performance em que uma criança interage com um homem nu só pode ser uma coisa: pedofilia!”, continua ele, preto no branco, dois mais dois igual a quatro. Ainda acho, no entanto, que podemos conversar para além disso. Concedo dois pontos: um, é preciso avançar nas políticas públicas contra o abuso sexual (compilei matérias que exibem o contexto do problema no Brasil e trazem propostas de aperfeiçoamento); dois, é razoável discutir se é recomendável aos pequenos assistir a uma obra como a de Schwartz. Esses são os momentos de verdade da polêmica, e quero tratar do que resta depois de os termos reconhecido como assuntos distintos. O trabalho artístico em si, qual é a sua potência, o que só ele produz, o que pode nos dizer?

Perceba: o primeiro passo é sempre neutralizar La Bête, aprisioná-la, negando sua produtividade, em uma de suas execuções. Esta não é “uma performance em que uma criança interage com um homem nu”. Na obra, o artista se disponibiliza para manifestação do público, que pode modificar sua posição, atuar sobre ele como se fosse um brinquedo — a ideia se inspira nos Bichos de Lygia Clark, esculturas que podem ser dispostas em várias formações. Que tenham participado algumas crianças nas vezes em que o trabalho aconteceu no Instituto Goethe e no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo é meramente circunstancial (e, sendo assim, reforço: o acesso dos pequenos à apresentação pode ser revisto segundo perspectivas institucionais e educacionais, sem que se censure a exibição em si). É o conceito da obra o que temos de aprofundar.

Para aprofundá-lo, não se demanda conhecimento de história da arte. É, aliás, um erro defender a obra em pauta ou, no mesmo sentido, a exposição Queermuseu com esnobismo intelectual. Parte da tentativa de destruir o sentido consiste em anular as obras em prol de discursos de autoridade, aos quais se têm acesso ou os quais se tenta desvalorizar como mistificação. O saber potencializa a descoberta de significados, mas é principalmente por um gênero de maiêutica, uma investigação de si mesmo, que se desvendam as criações artísticas. A alguns trabalhos essa ideia pode se aplicar menos, é verdade; mas, quanto a La Bête, creio que ela funciona bem. Apenas tentando entender os elementos que ela põe em intercâmbio — mesmo, como eu, só tendo vista parcial deles, a partir dos vídeos divulgados na polêmica — já conseguimos esclarecer a sua criatividade.

O Que Pode um Corpo?

São dois os componentes principais: corpo e interatividade com o corpo. Considere um, depois o outro. O corpo é um signo e um material poderosos. Nos pseudodebates em que estamos imersos, a nudez do corpo é muito simploriamente reduzida a uma intenção de choque, mas todos podem ver que os valores, a inserção social, os impactos culturais mudam se se trata da pele nua das fotos artísticas, dos filmes pornôs, das praias de nudismo, das esculturas renascentistas. Tudo se passa como se fossem outros corpos, embora tão carne e tão osso quanto sempre, na substituição dessas situações. A arte, notadamente a performance, se alimenta dessa pluralidade de concepções sobre o físico humano. Em La Bête, o que se dá é o corpo assimilado ao brinquedo, o corpo lúdico.

O pseudodebate foge dessa caracterização: o corpo nu é só intenção de choque porque o corpo nu é só sexual. Ou estamos vestidos ou somos predadores/objetos sexuais. Essa mesma visão se pode encontrar nos casos de mulheres impedidas de amamentar em público: o seio exposto não poderia, para alguns, ser outra coisa senão carne sexualizada e obscena. No limite, essa mesma visão está na convicção de que “prostitutas não podem ser estupradas”, ou seja, não podem ser interpretadas de outra forma, são só disponibilidade erótica. O pseudodebate apela à defesa das crianças para dispor de uma ideia de pureza que não pode ser contrariada, mas é claro como se coloca em uma estratégia mais ampla de incômodo e vontade de controle dos corpos.

Pois bem, esse corpo lúdico, o que ele provoca? Em torno dele se instaura a curiosidade, a intenção de descobrir o que é possível, a diversão de participar, a gratuidade do jogo. Eu teria de ter visto por mim mesmo para aferir com certeza, mas os registros da performance mostram como se dava em um momento alegre. Até no vídeo da menina que toca no artista: ela encosta nos dedos da sua mão e já recua; não vemos sua expressão, mas o riso da mãe mostra que se divertem; na foto em que o artista nu está de mão dada com quatro crianças, elas também riem. Sim, novamente, temos de prestar atenção ao que se precisa proteger no desenvolvimento das crianças. Mas, mesmo que não fosse o caso permitir que assistissem à La Bête, não se pode negar como tudo o que se vê nas imagens demonizadas é desprovido de sexualidade: pretende-se e é vivido como brincadeira.

É fundamental reforçar que essa interatividade com o corpo é aberta. Cada público levaria a uma circunstância diferente. La Bête estabelece uma certa disposição de coisas que traz possibilidades de vivência; as experiências que pode produzir não são dadas de antemão. Por isso é absurdo que se diga que a obra é pedófila ou mesmo que pretende transmitir qualquer ideia muito organizada — os ataques só existem sob condição de ignorar essa sua instabilidade essencial. Não é cabível nem mesmo essa opinião mais bem-intencionada, que atribui à performance o objetivo de criticar a nossa visão do corpo e nos direcionar a alguma espécie de liberação. Isto impõe ao trabalho um foco de panfleto, uma eficiência de mecanismo. Mas, sem revoluções, também brincamos com os cabelos de quem gostamos: o lúdico do corpo também pode ser cotidiano, simples. Com o que se conecta, em você, os elementos trabalhados na obra de Schwartz?

Ligar-se ao Outro, Fazer Uso do Outro

Podemos também pensar La Bête no confronto com obras que lhe sejam próximas. Para concluir, vou realizar esse percurso em duas vias: um diálogo com a herança de Lygia Clark, cujos Bichos servem de referência para Schwartz; e uma discussão sobre a problemática eminentemente ética de termos um corpo à nossa disposição, o que em outros trabalhos é tratado muito diferentemente.

Participei, para as fotos de um catálogo, de duas proposições de Lygia. Em Baba Antropofágica, estive sem camisa, enquanto os outros participantes, com linhas de costura dentro da boca, faziam o fio cair lento e se enrodilhar sobre mim. Em Canibalismo, no centro estava uma garota vestida com um macacão em que frutas se amontoavam numa abertura da barriga, comemo-la, portanto. Nas duas performances, é a conexão entre as pessoas o dado mais valioso. Vivemos, sob mediação de símbolos fantásticos (somos antropófagos e canibais; somos presas), algo juntos. Devoramos, somos devorados, mas o que realmente sobressai é a ligação abstrata entre aqueles que se deixam ser objeto e aqueles para quem ser sujeito é focar sua atenção e cumprir uma ação sobre alguém. Há mais nessas obras (por exemplo, a diluição entre o dentro e fora do corpo nesses dois casos que citei), mas podemos nos focar nessa criação de relacionamento como algo crucial.

Apesar de La Bête me parecer original na medida em que transfere o funcionamento dos Bichos ao próprio artista, penso que a simples entrega de um corpo-brinquedo à fantasia do público perde um pouco da potência relacional visada por Lygia. A conexão é muito menor: com garantia de que nada lhe ocorrerá, o espectador pode manipular a seu bel prazer. Não está implicado na cena; muito simplesmente, só assistem a ela. Posso estar enganado — repito, minha análise precisaria de um contato direto —, porém, até um segundo momento, me soa como uma obra menor.

O que reforça essa conclusão é o viés ético a que me referi. A história da performance é cheia de episódios em que o performer se dispõe à plateia: Yoko Ono (que convidou os presentes a cortar pedaços da sua roupa) e Marina Abramovic (que deixou em uma mesa 72 objetos, armas inclusas, e estabeleceu que o público podia fazer o que quisesse com ela) fizeram obras com esse aspecto. Mais recentemente, Jaqueline Vasconcellos, em Não Alimente os Animais, restrita em uma caixa de areia, cumpria ações sempre que um espectador tocava uma buzina, por um período indefinido de tempo, com desgaste cada vez maior. Vulnerabilidade, risco, sujeição, de um lado; indiferença, coletividade mais ou menos irresponsável, aptidão à tortura, do outro — tais elementos aparecem em jogo nos trabalhos que citei em maior ou menor grau, e isso ocorre porque são possibilidades indissociáveis do poder e das situações em que um indivíduo tem um outro a seu dispor.

La Bête passa ao largo dessa visão crítica; é, nesse sentido, utópica. Mas, se isso pode diminuir o alcance do trabalho, também pode aumentá-lo: precisamos de utopias. Ademais, forcei um pouco a mão no parágrafo anterior. Há generosidade e aceitação de dádiva na obra de Yoko também; há certas meninas, em uma execução da performance da Jaqueline, que impedem a submissão, não deixam que se continue a manipular a artista. Seria esse o horizonte, La Bête aspiraria a um espaço sem risco? Em que estaríamos à salvo, como que entre amigos? Talvez a guerra pelo sentido passe por aí também. O artista, os museus e tantos outros dizendo que há espaços de segurança. Outros tantos dizendo que não há segurança em lugar algum. Ou ainda: uns em luta por um estado policial cada vez mais feroz. Outros com a esperança de uma emancipação, de uma outra vida possível.


DUANNE RIBEIRO é jornalista, mestre em Ciência da Informação, especialista em Gestão Cultural e bacharel em Filosofia. Mais conteúdo em duanneribeiro.info.

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