A invenção da maternidade

A invenção da maternidade
A experiência de devastação materna não é uma rara exceção destinada a algumas poucas mulheres (Foto: WIN Initiative / Getty Images)

 

A chegada de um bebê é sempre acompanhada de algo que não se espera. Essa surpresa, por vezes, pode se apresentar como um enorme susto, uma perda das bordas e do rumo. Não deveria comparecer, ali, a mãe para receber em seus braços o bebê tão esperado? Não deveria lhe envolver um amor incondicional e um saber se virar com colos, choros e afagos? Eis que nasce o bebê, mas – surpresa difícil – sua chegada não coincide necessariamente com a da mãe.

No consultório dos analistas, na conversa entre amigas, nos relatos das redes sociais, cada vez mais encontramos mulheres em busca de palavras que possam vir a significar a experiência da chegada de uma criança em suas vidas. Para algumas, a chegada do bebê coincide com a de um abismo sob seus pés. Não apenas se dão conta de que tudo se coloca diferente do que havia sido sonhado, como também constatam que não encontram mais a mulher que sonhara isso tudo. Nem o sonho se apresenta, nem o sujeito que o havia sonhado pode agora comparecer.

A essa experiência de falta de bordas junta-se um estranhamento sobre quem, afinal, é o objeto: o bebê, aquele serzinho que precisa ser manuseado e cuidado? Ou elas, assim sugadas de tantas formas, tomadas, usadas, sacadas de suas vidas, de seus afazeres e de seus lugares na partilha sexual?

Não é evidente – e muito menos natural –
 a operação que irá possibilitar que, onde os contornos se desfizeram, se apresente alguém a ocupar o lugar materno. A construção da maternidade exige que uma mulher se desloque, ela mesma, do lugar de “objeto devorado” para alçar o bebê ao lugar de “objeto fálico” – expressão bastante conhecida entre leitores de Freud, que faz menção a um lugar muito especial do bebê na cadeia simbólica materna, localizando, entre mãe e bebê, algo relativo ao que não se encaixa e não se encerra nessa relação.

O gozo nãotodo e a devastação materna

À sensação de perda das bordas, de apagamento dos contornos, de abismo sob os pés, a psicanálise lacaniana nomeia “gozo feminino” (ou “gozo nãotodo”). O “gozo”, conceito tão fundamental aos lacanianos, é marcado pelo encontro da linguagem com o corpo. Refere-se aos excessos de prazer e desprazer tão únicos a cada um, a algo que experimentamos singularmente como um profundo estranhamento.

Em seu seminário de número 20, Lacan nos apresenta uma fórmula com dois tipos de gozo, o “fálico” e o “feminino” (ou o gozo “todo” e o “nãotodo”). Para nossa abordagem, é suficiente situarmos que o gozo feminino se refere a algo que não faz conjunto, não é compartilhável, não faz unidade, não tem bordas, não se permite delimitar ou definir; é um gozo líquido e não sólido, um acontecimento de corpo, impossível de ser todo capturado pelo universo das palavras, uma experiência nãotoda significável, nãotoda contável, nãotoda passível de ser enlaçada pelo universo significante, por contos e enredos. Está em oposição ao gozo fálico, que seria, por sua vez, um gozo enlaçado aos enredos da vida e referido a uma “unidade corporal”, mesmo que este lhe seja estranho, que a atravesse ou que a redefina. A esses dois tipos de gozo, somos todos suscetíveis.

Quando o gozo nãotodo vem se situar de modo avassalador, na experiência entre mãe e filho, nomeamos essa vivência de devastação, “devastação materna”. Nessa experiência, nas palavras da psicanalista Esthela Solano-Suárez (no capítulo “Maternidade blues” do livro Ser mãe – Mulheres psicanalistas falam de maternidade, vários autores), uma mulher, “longe de encontrar uma satisfação apaziguada em sua relação com o filho, objeto de seu desejo, pode, inversamente, passar pela experiência da devastação, sendo engolfada, deportada dela mesma por um gozo louco, enigmático, fora do sentido”.

Entre os cuidados e a devoração

A clínica psicanalítica tem nos mostrado que a experiência de devastação materna não é uma rara exceção destinada a algumas poucas mulheres não afeitas ao mundo materno. Não tem sido incomum ouvir que, algumas, na tentativa de se extraírem dessa inundação, se colocam infinitas imposições, tarefas e medidas protetivas para a criança, num esforço exaustivo de controle e de “tomar as rédeas” da situação por meio de um cuidado metódico (excesso de higiene, de horários, de regras, de uma alimentação “perfeita” etc.). A cadeia de cuidados não tem fim, o que pode fazer com que, dentro desse contexto, torne-se uma metonímia infinita superegoica: mais e mais e mais…

Ao tentar responder à devastação materna com desmandos do superego, muitas mulheres relatam uma profunda sensação de impotência, sentindo-se incapazes de estarem à altura das tantas tarefas cotidianas com a criança, traduzidas por uma profunda sensação de exaustão e de fracasso.

Nesse movimento, o que vemos é que, no esforço de voltar a consistir e a dar contornos para ela e para o filho, delimitando um e outro, uma mulher pode vir a tomar o bebê como objeto de cuidados, mas isso não coincide necessariamente com poder tomá-lo como objeto exterior (e irrecuperável) a ela própria.

No trabalho de escutar (e de ler) o que dizem (e escrevem) essas mulheres “devastadas” pela chegada de um bebê, percebemos algo de grande valor clínico. O fino fio que permite a muitas delas realizar alguns alinhavos iniciais, na tessitura de uma possibilidade para a maternidade, costuma envolver algo de suas relações com as próprias mães. Anunciam lembranças, sustos e uma profunda falta de compreensão. Atualiza-se, com a chegada do bebê, o lugar de objeto que ocuparam nos cuidados maternos e, principalmente, o que ali lhes marcara com horror.

Ao caldeirão dos desejos em jogo na chegada de um filho misturam-se os pontos de inconsistência e de ilimitação que marcaram a relação entre mãe e filha. Nessa atualização, pode surgir algo do horror já antes experimentado que vem, agora (ou mais uma vez?), inundar a cena e liquidificar o corpo. Algo do lugar que ocupara para sua mãe – como objeto – retorna de modo violento e sem aviso prévio. O ponto de horror envolve o aspecto de devoração e de não separação que o Outro da figura materna carrega ao se dedicar aos cuidados de uma criança. Conforme Romildo de Rêgo Barros, no livro Mães: “Se existir uma função materna, ela estará em um espaço entre dois extremos dentro da tradição psicanalítica: de um lado a devoração, e do outro os cuidados. Sempre que se falar em mãe, ela estará entre esses dois extremos. Do lado da devoração, temos o Outro que quer recuperar seu objeto. E do lado dos cuidados, temos o Outro que dá amor, ou seja, dá o que não tem.”

Mais do que a figura materna ser o que se apresenta entre dois extremos – o da devoração e o dos cuidados –, esses dois extremos não estão em lados opostos, mas são, pelo contrário, um o avesso do outro, revirando-se. “Não existiria, desde Freud, portanto, uma escolha entre devoração e cuidados, uma vez que os cuidados seriam uma face da devoração e vice-versa. Seria inútil uma divisão em extremos quando os dois elementos estão em movimento.” – afirma Barros.

Positivação e negativação

“Nesse sentido, podemos situar a castração da mãe como necessária a que ela faça das suas crianças objeto ‘a’, ou seja, para que as crianças passem de objetos que faltam a objetos presentes fora da mãe, o que representa uma “positivação”, conclui o mesmo autor. A “positivação” da criança como exterior à mãe se dá por meio da operação da castração materna, que compreendemos como a “negativação” de um ponto específico, aquele que permite à mulher reenlaçar-se, por um lado, ao feminino e, por outro, ao desejo materno.

Dentro da perspectiva que tomamos, podemos afirmar que a operação possível na passagem da devastação para o desejo materno é tributária, portanto, da inclusão de um limite na série infinita de cuidados superegoicos que ali se colocaram inicialmente como uma tentativa de separação entre mãe e filho.

Há uma especificidade muito delicada (e clinicamente valiosa) em relação a esse limite. Ele não se dá exatamente pela inclusão de um ponto a mais, um ponto de basta, mas pela inclusão de um ponto a menos, um furo.

A riqueza da operação materna a ser realizada nesse processo é a de fazer o ponto de horror, que inunda a relação entre mãe e bebê, revirar-se em ponto de alívio. O alívio será decorrente de, justamente onde consiste o ponto de horror, um furo vir a dar lugar à ilimitação do gozo feminino.

Eis o ponto de virada delicado e trabalhoso, pois exige da mulher um entrelaçamento da maternidade ao gozo nãotodo, que inclui o ponto de impossível entre a mãe a criança (trabalho que não se faz sem a retomada da menina que foi para mãe que teve). A localização desse furo é o que permite que o gozo feminino não devaste (ao menos nãotoda) a relação mãe-filho. Trata-se de uma operação muito especial, que permite a inclusão de um “zero” na cadeia infinita de cuidados – +1+1+1+1+1… +0+… –, possibilitando que mãe e criança possam aí se inventar.

Maricia Ciscato é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise


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