A invenção da maternidade

A invenção da maternidade
A experiência de devastação materna não é uma rara exceção destinada a algumas poucas mulheres (Foto: WIN Initiative / Getty Images)
  A chegada de um bebê é sempre acompanhada de algo que não se espera. Essa surpresa, por vezes, pode se apresentar como um enorme susto, uma perda das bordas e do rumo. Não deveria comparecer, ali, a mãe para receber em seus braços o bebê tão esperado? Não deveria lhe envolver um amor incondicional e um saber se virar com colos, choros e afagos? Eis que nasce o bebê, mas – surpresa difícil – sua chegada não coincide necessariamente com a da mãe. No consultório dos analistas, na conversa entre amigas, nos relatos das redes sociais, cada vez mais encontramos mulheres em busca de palavras que possam vir a significar a experiência da chegada de uma criança em suas vidas. Para algumas, a chegada do bebê coincide com a de um abismo sob seus pés. Não apenas se dão conta de que tudo se coloca diferente do que havia sido sonhado, como também constatam que não encontram mais a mulher que sonhara isso tudo. Nem o sonho se apresenta, nem o sujeito que o havia sonhado pode agora comparecer. A essa experiência de falta de bordas junta-se um estranhamento sobre quem, afinal, é o objeto: o bebê, aquele serzinho que precisa ser manuseado e cuidado? Ou elas, assim sugadas de tantas formas, tomadas, usadas, sacadas de suas vidas, de seus afazeres e de seus lugares na partilha sexual? Não é evidente – e muito menos natural –
 a operação que irá possibilitar que, onde os contornos se desfizeram, se apresente alguém a ocupar o lugar materno. A construção da maternidade exige que uma mulher se desloque, ela mesma, do lugar de “objeto

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