A violência policial e os apagamentos

A violência policial e os apagamentos
Marsha P. Johnson na primeira Marcha do Orgulho Gay, em Nova York, 1970 (Foto: Leonard Fink/Arquivo da História Nacional do Centro Comunitário LGBT)

 

A madrugada de 16 de janeiro de 2012 foi marcada por um ato de violência contra pessoas LGBT+ que frequentavam o tradicional Bar da Ângela no bairro periférico do Guamá, em Belém do Pará. Nesse dia, sob o pretexto de averiguar a presença de menores, policiais ingressaram no estabelecimento humilhando, constrangendo e ameaçando os frequentadores com o objetivo de extorquir recursos financeiros. Os policiais chegaram a deter um militante que ousou, de forma solitária, explicar que o estabelecimento estava fechando. Este simples ato foi tomado como ousadia de um “veado”, que questionava a autoridade policial.

Ao se posicionar como um cidadão ciente dos seus direitos, ainda que sem proferir qualquer ofensa, Beto Paes foi acusado de desacato à autoridade e levado para a delegacia na parte de trás do camburão, ao invés de ser colocado no banco traseiro da viatura, mesmo sem oferecer resistência à detenção. Durante o trajeto e no longo procedimento de registro da ocorrência, Beto foi agredido fisicamente, humilhado verbalmente por ser homossexual, privado de seus direitos a um tratamento digno e ameaçado pelos membros da corporação que o prenderam – os policiais insinuaram que ele sofreria retaliações caso fizesse qualquer denúncia. Até mesmo a advogada acionada pela família do militante foi agredida e destratada por um policial visivelmente transtornado. O procedimento do registro foi protelado ao máximo. A grande imprensa, que havia sido acionada e se dirigido à delegacia, desistiu de esperar, impossibilitando a ampla veiculação desse caso grave de violação dos direitos humanos em Belém.

O coordenador de Livre Orientação Sexual da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos da época esteve no local e demonstrou, segundo relatos de Paes, preocupação com a imagem do estado na mídia caso houvesse qualquer divulgação. Beto, que na época participava da diretoria do Movimento LGBT do Estado do Pará, decidiu publicizar o fato e seguir com a denúncia. Mas a violência relatada não foi a primeira e nem a última vivenciada pelas LGBT+ na periferia de Belém.

Pesadelo

No dia 9 de março deste ano, quando saiu de casa para curtir o carnaval em São Paulo, o youtuber Guilherme Kieras, conhecido como Guigos, queria apenas se divertir; não imaginava que a LGBTfobia o levaria ao hospital e não ao bloco de carnaval. Quando começou a chover, no final da tarde, ele e o amigo João Henrique Felix se perderam do restante do grupo e foram agredidos por cerca de 12 policiais militares com golpes de cassetete, chutes e socos no rosto. Guigos, que chegou a ser arrastado para uma rua sem saída por alguns dos PMs, recebeu um “mata leão” e passou alguns segundos desacordado. De acordo com seu relato, “primeiro, tentamos nos abrigar na marquise de uma loja onde também estavam cerca de 20 policiais. Eles ergueram os cassetetes e disseram que não podíamos ficar ali. Não entendemos, mas decidimos ir para baixo de um coqueiro a cerca de cinco metros deles, já que chovia muito. Quando nos abraçamos, um deles começou a gritar e dizer que ali também não poderíamos ficar”.

Luana Barbosa, negra, periférica e lésbica, em 13 de abril de 2016, foi abordada por policiais militares na periferia de Ribeirão Preto quando levava seu filho de 14 anos à aula de informática, e acabou fatalmente espancada após solicitar presença policial feminina para ser revistada. Ao finalizar o inquérito, a Polícia Civil apontou que as lesões corporais sofridas pela jovem foram a causa da morte. Até hoje, a família de Luana sofre com ameaças apenas porque cobra justiça.

A realidade de travestis que vivem da prostituição em diversos pontos do Brasil é marcada por abordagens policiais intimidadoras, principalmente após as eleições de 2018. Por vezes, os mesmos policiais que tentam obter sexo à força são aqueles que agridem, humilham e ameaçam prender, plantando drogas, as travestis que ali só tentam sobreviver depois de terem as portas da família “de bem” fechadas em suas caras.

Todos os exemplos acima são relatos próximos do que motivou o levante de Stonewall, um levante pelo poder gay ou poder LGBT+. Lá, como ainda hoje, trata-se de um grito de “basta” contra as inúmeras violências que as forças de segurança pública acreditam ter o direito de executar contra nossas existências. Mas por que e como, depois de tantas conquistas que tivemos desde Stonewall, ainda vivenciamos frequentemente as mesmas violências?

É sabido que a organização política das manas LGBT+ não começou com Stonewall, mas é inegável que a narrativa do orgulho ganhou mais força e ousadia a partir daquele episódio. Foi quando começaram a pipocar manifestações de rua; desde então, não paramos de ocupar os locais públicos e exigir direitos civis.

No Brasil, temos uma das maiores paradas do mundo, podemos casar (com 100 direitos que estão ligados a esse “simples” ato), podemos retificar nome e gênero em registros civis sem judicializar e sem laudo médico e, mesmo com a derrota eleitoral para presidente do espectro político que nos apoia, ainda ousamos pleitear na Corte Suprema o direito de tipificar a violência que sofremos como crime. Mas essa ousadia tem gerado reações do ódio conservador que se manifestam por ameaças, passam por exclusões e expulsões, e chegam ao homicídio de pessoas LGBT+. Para enfrentar tudo isso, não basta a luta por direitos, é preciso superar a narrativa que nos oprime e também reconhecer, entre nós, o protagonismo transnegro de Stonewall.

É preciso, assim, vencer a narrativa burguesa e cristã que reforça a lógica de que somos vergonhosos, imorais e pecadores. Esta é uma narrativa branca, hetero, cisgênera, machista, classista e racista. Não há como ultrapassar esse legado de opressões estruturais se não considerarmos todos os marcadores que ainda estão operando, inclusive na forma como nos organizamos politicamente e como manifestamos nossa ousadia: as Paradas do Orgulho LGBT+. É preciso derrotar o capital, porque nossas existências colocam em xeque um acordo estabelecido desde a criação da propriedade privada e, com ela, a posse do corpo feminino pelo corpo masculino pela divisão patriarcal do trabalho.

Reinventar é possível e ninguém consegue fazer isso de forma mais incisiva do que aquelas que têm como ferramenta de enfrentamento o lacre. Lacrar com o preconceito é enfrentar a lógica de que a agressão contra nossos corpos é permitida pela religião e pela moral. Este foi o motor das agressões que originaram Stonewall e é o que ainda move o Estado a ser omisso a nossas reivindicações por direitos e por reparação. Por isso, não basta bradar se não ousarmos tombar com o que sustenta o ódio: o patriarcado.

É preciso começar a repensar nossas relações de resistência e reparar entre nós os apagamentos cotidianos que operamos em nossos ativismos. Quantidades de likes não vão impedir que nossos algozes tirem nossa vida. Há de se ter força social, o que só será possível quando segurarmos as mãos de quem está ao nosso lado, sem medo de sermos invisibilizadas. Não há movimento social forte quando homens se sentem incomodados por serem dirigidos por mulheres, quando há incômodo em ouvir uma voz negra apontar nosso racismo ou mesmo quando o peito balançante e revolucionário de uma travesti for algo aterrorizante.

A pedra jogada num policial ou o grito que insistem em apagar de Marsha P. Johnson ou Sylvia Rivera, travestis de Stonewall, só atingirão seu objetivo quando a atitude de se aquilombar for uma prática essencial e quando o privilégio que um de nós possamos ter seja reconhecido sem medo ou vergonha.

Sigamos juntas, mas sigamos juntas com quem entende que ser mana não é só curtir o post da gata, mas é também se colocar no lugar dela. É se sentir orgulhosa não só de quem pode chegar aonde a gente chegou, mas também de quem ajudou a chegar aonde a gente chegou. Sem patriarcado e sem racismo é que se constrói um mundo sem LGBTfobia como aquele sonhado em Stonewall.A violência policial e os apagamentos

Symmy Larrat é ativista LGBT e presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT)


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