Quem quer ser o Chico Buarque desta geração?

Quem quer ser o Chico Buarque desta geração?
Há uma sociedade mais complexa que evidentemente não se sente mais representada por Chico Buarque (Arte Revista CULT)

 

Às vésperas do segundo turno das eleições brasileiras surgiu uma frase lapidar, de um filósofo de rede social, que dizia: “O Brasil está tão atrasado que o Chico Buarque desta geração é o Chico Buarque”. O julgamento demolidor que quer instalar um deserto cultural no país, foi largamente repetido na rede. Era possível imaginar os internautas atônitos, se entreolhando: uai, será que a gente não tem mesmo um Chico Buarque a olhar por nós?

O contexto imediato da frase era a intervenção do cantor, compositor e escritor num comício de Fernando Haddad no Rio de Janeiro. Numa fala de pouco menos de dois minutos, são evidentes certo cansaço e fragilidade de Chico, que termina em lágrimas. Tanto ele quanto Caetano Veloso, também presente no ato, fizeram discursos em que comentavam e defendiam as palavras contundentes de um colega 25 anos mais jovem, que fora o protagonista da noite entre os artistas: Mano Brown. Este sim ergueu a voz para falar do fracasso da esquerda brasileira e do Partido dos Trabalhadores, por sua impossibilidade de comunicar-se com as bases, trazendo um tom de crítica ao que vinha sendo a festa de uma desejada – e nunca ocorrida – virada nas eleições. Afrontou o público e foi por ele vaiado.

Ora, quem afirma que o Chico desta geração é ainda o Chico, terá ouvido seu disco novo, Caravanas? Nele, a canção título é a mais política e fala dos negros no espaço público carioca diante da ojeriza da burguesia da zona sul: “Com negros torsos nus deixam em polvorosa / A gente ordeira e virtuosa que apela / Pra polícia despachar de volta / O populacho pra favela / Ou pra Benguela, ou pra Guiné.” A linguagem faz-se contemporânea ao trazer o beat box de Rafael Mike e percussões do movimento hip hop. O restante do disco é a bela bossa nova e o samba que Chico faz tão bem há mais de meio século, inserindo nas letras as redes sociais e os outros matizes das relações eróticas atuais. Quantos de nós compramos, ouvimos ou sabemos desse disco?

A resposta, seja ela qual for, remete a outro ponto importante de nossa realidade contemporânea: Caravanas, disco de 2017, o primeiro com canções inéditas em seis anos, teve tiragem inicial de vinte mil cópias e ficou longe de ser o mais vendido, como em outros tempos do cantor. No mercado da música brasileira, em 2017, as mídias físicas (CD, vinil) responderam por 5.3% do faturamento. O streaming se impôs como forma hegemônica de consumir música no país, responsável por 55.1% do mercado, seguido pela execução pública via rádio, que representou 34% (Dados dos Produtores Fonográficos Associados). De toda forma, neste novo mundo, os meios de consagração dos artistas já não são a crítica musical ou os programas de rádio e televisão. As arenas são outras. Um leitor – ou internauta –  maldoso poderia dizer que nem o Chico Buarque é mais o mesmo, por não mobilizar a massa. O fato é que o padrão musical não é mais o sudestino bossa nova classe média. Há uma sociedade mais complexa que evidentemente não se sente mais representada por Chico, nem pelos padrões do bom gosto historicamente consagrados pela crítica musical dos meios de comunicação massivos.

São outras as mediações e há uma dispersão da escuta, o que impossibilita, inclusive, que Chico Buarque possa seguir sendo o padrão de talento musical e engajamento político brasileiros. A indústria que resta tem optado por abraçar e difundir artistas dedicados sobretudo ao entretenimento. Um dos jovens mais famosos, o cantor sertanejo Luan Santana, há poucos dias das eleições, declarou nunca ter votado na vida, por incompatibilidade de agenda, e completou: “Não me sinto confortável. Primeiro que não entendo muito de política. E eu não gosto muito, não. Não gosto de tomar partido. Tenho minha opinião, mas prefiro nunca divulgar (…) Leio notícias, mas não entendo a parte mais profunda da coisa, me atrapalha a cabeça.”

Há, é evidente, artistas politicamente comprometidos e esteticamente relevantes, como o são os próprios Racionais MC’s, o grupo liderado por Mano Brown, que puderam estabelecer-se à margem da grande indústria e da grande mídia, mas contando ainda com o poder das FM’s ao longo dos anos 1990. Porém a própria contundência do discurso, a luta de classes e a denúncia do preconceito racial, vão na contramão do consenso que o meios de comunicação de massa atualmente parecem buscar. Todo o movimento hip hop no Brasil, enfim, prescinde da grande indústria: Flora Matos, o espólio de Sabotage circularam fora das claudicantes megastores, das grandes redes de rádio, estabelecendo outras rotas de chegada a seu público. O único rap-mainstream é aquele que se dilui: objeto de canto-homenagem de, novamente, Chico Buarque em um show, e que se rende ao samba, a Tim Maia e a fazer turnê com Ivete Sangalo. Refiro-me ao caso paradigmático de Criolo.

No campo do livro e da leitura, a cisão entre vanguarda e mercado chega a ser ainda mais radical: o descompasso entre o mercado do livro e a literatura contemporânea é abissal. Quem tiver a curiosidade de dar uma olhada nas últimas edições dos prêmios literários, poderá tirar conclusões alarmantes. Primeiro: muito do que se tem publicado de relevante literariamente, e que tem sido premiado no Brasil, vem das pequenas editoras, com tiragens limitadas, que muitas vezes não ultrapassam uma ou duas centenas de exemplares. Segundo: regra geral, o prêmio literário não significará ao escritor alcançar outro patamar em sua carreira, não implicará na ampliação de suas tiragens, traduções da obra a outros idiomas ou contrato com uma grande editora.

Ou seja, as pequenas editoras desempenham um papel importante de prospecção de novos autores, de publicação e possibilitam que estes livros sejam inscritos em prêmios sérios, avaliados por júris competentes e plurais. Mas, nem antes nem depois do prêmio as obras literárias chegam a seus leitores. O exemplo mais recente é o do poeta Mailson Furtado Viana, ganhador na categoria livro do ano do Prêmio Jabuti 2018. Sua história é surpreendente: Viana declara ter executado sozinho todas as etapas – escrita, revisão, ilustração, impressão e venda – de seu livro. Porém, parece claro que ele não será o grande autor do 2019. A indústria do entretenimento brasileiro tolera, com dificuldade e nariz torcido, septuagenários progressistas como Chico Buarque e Roger Waters, mas resiste a incorporar artistas que recusam a lineariedade e a saborosa alienação.

Alguns dirão que são tempos auspiciosos estes em que os artistas todos – músicos ou poetas – têm à disposição meios de produzir e fazer circular sua obra à margem da indústria. O caso de Mailson Furtado Viana é exemplar na literatura, mas não são poucos os escritores que têm seguido o mesmo modelo de acumular funções de produtor, propagandeador e vendedor de sua obra. Porém não se pode esquecer que tais empreendedores proletários –  categoria tão em voga em nosso tempo – pagam com a saúde a sua independência e, já à beira da morte ou tragados por ela,  são incorporados pelo mesmo mercado que os renegou: Orides Fontela, Hilda Hilst e Roberto Piva são exemplos marcantes.

Ser vivo – em todos os sentidos – como Luiza Romão, Marcia Barbieri, Tarso de Melo, Nelson de Oliveira, Chacal e Ademir Assunção – e não estar nas livrarias, e contar apenas com a Rede, as feiras alternativas e o boca-a-boca, mais que o triunfo da independência, parece reforçar a ideia de que se tem uma obra circulando, sendo discutida e lida aquém de seu potencial. Estar perdido nas prateleiras virtuais da Amazon ou nos corredores sombrios dos serviços de streaming, torcendo para ser encontrado por um olhar curioso num contexto de poucas mediações, tal é desolador horizonte de canções e poemas no século 21.

Em tal contexto seria anacrônico almejar ser o Chico Buarque, mas também inalcançável, pois em 2018 nem Chico Buarque seria ele mesmo. Que a arte siga sendo de resistência e que encontre nas frestas do dizível o antídoto à surdez é excelente, que possa seguir escoando a despeito dos diques é necessário. Mas fazer a apologia do precário – travestido de independência –  é ignorar a dimensão do nosso colapso cultural e abrir mão de novas utopias.


Wilson Alves-Bezerra é escritor, tradutor, doutor em Literatura Comparada pela UERJ

(3) Comentários

  1. Tanta bobagem .
    Chico Buarque vai ser sempre Chico Buarque um ícone eu não comprei o meu ainda e nem dei de presente pra pras pessoas que que são fãs da bossa nova

  2. Muito interessante e instigante essa análise. Sempre penso nisso, não conheço o funcionamento do mercado fonográfico, ou até mesmo o underground da produção musical, portanto não posso acrescentar nenhum comentário substancial ao artigo. Mas não posso deixar de elogiar a maneira como foi escrito.

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