Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu: Racionais MC’s no vestibular da Unicamp

Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu: Racionais MC’s no vestibular da Unicamp
Os Racionais MC's (Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock) em frente ao Mosteiro São Bento (Foto Klaus Mitteldorf/Divulgação)

 

Quando se espalhou pelos jornais a manchete de que a Unicamp havia incluído entre as obras obrigatórias do seu vestibular o álbum Sobrevivendo no inferno (1997), dos Racionais MC’s, quem acompanha o percurso do grupo de rap de São Paulo não se assustou. No meu canto, feliz, lembrei do nome de outro álbum dos Racionais: nada como um dia após o outro dia. Porque, na verdade, não consegui ver a inclusão dos “quatro pretos mais perigosos do Brasil” no vestibular de uma das nossas melhores universidades como algum prêmio para eles. Vi, isso sim, como um indicativo de que a universidade fazia algo grandioso para si própria. Não eram os Racionais que haviam chegado a algum lugar excepcional, mas sim a universidade que dava um passo rumo ao lugar que os Racionais já ocupam, há bastante tempo, na nossa cultura.

No entanto, ao lado dos aplausos dos fãs dos Racionais, não demorou – e nunca demora – para começar a circular a ofensiva conservadora contra essa notícia, atacando os Racionais, a Unicamp e todos que aprovaram a inclusão de um disco de rap ao lado dos livros de poesia do vestibular. Novamente, surpresa zero, mais do mesmo. Não é o caso, portanto, de rebater cada um dos “argumentos” que apareceram por aí (desde o respeito à virgindade da “língua culta” até a defesa arrogante da pureza do poema em relação à canção), porque, em suma, apenas repetem o discurso que acompanha cada sucesso dos Racionais e outros grupos de rap desde os anos 1980, um discurso mais preocupado em impedir que os rappers falem do que em entender o que falam.

É, sim, de um bloqueio que se trata, ou melhor, de uma tentativa de interdição que, no fim das contas, nunca funcionou, porque os Racionais e todo o movimento do rap nacional não se fizeram apesar dessa resistência violenta ao que querem dizer, mas por causa da resistência que os jovens negros enfrentam para se afirmar, em todos os campos da vida, não apenas na cultura. A tentativa de interdição é seu combustível e, em alguma medida, a força do rap vem dos imensos obstáculos colocados à sua frente, desde os mais básicos, como a pobreza extrema de que esses artistas, na maioria dos casos, são vítimas, até os mecanismos de discriminação e sabotagem que se multiplicam no longo caminho entre fazer a primeira rima e levá-la aos ouvidos do público.

A história dos Racionais diz muito sobre essa batalha, porque, lado a lado com as composições musicais, sempre esteve o trabalho de “infraestrutura” necessário para não ser engolido, distorcido e cuspido pelo showbiz. No caso dos Racionais, nunca se tratou de ocupar um espaço, mas de inventar um espaço. Desde o início, os Racionais criam não apenas suas próprias obras e produtos, mas também inventam um mercado novo, novas formas de circulação que, a cada disco, se aperfeiçoam para dar conta dos saltos cada vez mais largos e seguros e eficientes. E isso explica, por si só, que não apenas o vestibular, mas também a pesquisa acadêmica esteja cada vez mais com olhos e ouvidos voltados para o que os Racionais e seu entorno significam.

Quando um dos grandes álbuns do rap nacional chega ao vestibular da Unicamp, portanto, é disso que se trata: não foi a instituição que abriu sua porta pesada para o rap, mas foi o rap que arrombou a porta. Insisto: cair no vestibular não faz de Sobrevivendo no inferno um disco mais importante; pelo contrário, o que cresce em importância, na verdade, é o próprio vestibular por se mostrar capaz de enfrentar e absorver a mais arredia e complexa manifestação cultural de nossa época. Parece exagero (e eu não ligo de exagerar quando falo dos Racionais…), mas um disco que tem “Capítulo 4, Versículo 3”, “Diário de um Detento” e “Fórmula Mágica da Paz”, entre outras, não precisa pedir licença para entrar seja lá em que lista de “melhores e maiores”.

A propósito, as universidades podem até tentar ficar trancadas estudando, com suas ferramentas de sempre, os objetos de sempre, mas a arte dos Racionais estará ali de diversas maneiras, irremediavelmente, nem que seja apenas pulsando na cabeça de uma geração de professores e alunos que, em grande parte, sentiu a pancada dos Racionais em algum momento de sua vida. Os Racionais estão hoje, após 30 anos de estrada, no centro da nossa produção cultural. Este é o ponto. É claro que sempre haverá quem veja nisso a comprovação de nossa “decadência” e não aceite chamar Mano Brown de poeta. São os mesmos que não reconhecem como poetas Bob Dylan, Chico Buarque, Caetano Veloso e todos que ousaram cantar seus poemas (dá para ter uma ideia de quanto do nosso tempo devemos gastar com suas opiniões sobre… Poesia).

A reação ao anúncio de Sobrevivendo no inferno como obra de vestibular, claro, leva a pensar sobre poesia, mas também sobre poder em outros níveis: quem está indignado com “o sucesso dos Racionais” está na verdade percebendo que as instâncias em que seus privilégios se reproduzem estão se transformando, mesmo que lentamente – o que, em algum tempo, pode implicar transformações ainda mais profundas e, quem sabe, inverter os fatores: os professores terem que se esforçar mais para justificar a presença de Camões ou Ana Cristina César entre as obras obrigatórias do que para convencer os alunos de que veio da periferia de São Paulo, na arte de quem “pesava 70 quilos, não tinha dinheiro pra pegar um ônibus e queria ameaçar o sistema”, a leitura mais potente – política e esteticamente – sobre as chagas profundas deste país, onde o racismo, a pobreza e a violência calaram gerações e gerações.

Elites se formam, em todos os campos, criando bloqueios. Na universidade não é diferente. Não é raro ver seus membros se esforçarem em garantir, inclusive de formas inconfessáveis, que tudo se comporte de modo previsível, do ingresso aos diversos momentos da carreira, delimitando rigorosamente quem pode dizer, o que pode ser dito, sobre o que se pode dizer. Certamente, a inclusão dos Racionais no vestibular não se faz alheia a essa lógica, mas, pela própria “rebeldia” inerente ao que fazem (poesia que vem em disco: primeiro ponto no desespero de quem pretende acomodá-los nas gavetas já prontas), devemos tirar daí a oportunidade de tensionar, a partir de um objeto tão turbulento, o debate sobre cultura e até sobre o papel da universidade.

Em todos os sentidos, dentro e fora da universidade, nosso avanço deve ser medido pela capacidade de aprender com os Racionais, entre outros, jamais pela nossa mania de impor preconceitos e modelos e limites para julgar se o que fazem é poesia, música, arte etc. Aliás, resistir ao que os Racionais construíram, em cada um de seus discos e também ao influenciar gerações de rappers cada vez mais competentes, não vai significar quase nada para as transformações a que os Racionais se dedicam desde o início. Na verdade, nenhuma letra dos Racionais foi feita para cair no vestibular, mas sim para fazer com que os jovens negros pudessem, dali em diante, disputar o vestibular e tudo que dele decorre, numa sociedade que, a cada hora, enterra dois ou três jovens bem parecidos com Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay.

Numa das faixas de Sobrevivendo no inferno, Mano Brown se dizia “apenas um rapaz latino-americano/ apoiado por mais de cinquenta mil manos”. Era 1997 e o rapaz de 27 anos cantava ter escapado das estatísticas da violência. Passadas mais de duas décadas desde então, não sei quantos manos e minas apoiam os Racionais, mas tenho certeza de que, em cada canto deste país, é fácil encontrar alguém que sabe de cor seus versos e, por isso, nunca mais olhou para si próprio da mesma forma.

(7) Comentários

  1. Ouvir rap nacional e saber interpretar as suas letras, é desfrutar da mais doce poesia linear da vida real e não só de um fluxo de consciência do narrador. Belo texto.

  2. Parabéns pela excelente matéria!
    Cresci ouvindo racionais, sei cada verso desse álbum, mesmo não estando na periferia, vivendo de forma marginal a essa realidade, ao conhecer esse disco em meados dos anos 90, pude entender um pouco mais sobre a realidade que não nos mostram na escola e ou nos jornais. De fato, a universidade se engrandece em reconhecer o mérito de uma obra atemporal como “sobrevivendo no inferno”. Mas, como disse mano Brown em outros versos… “Seu comercial de TV não me engana, eu não p
    reciso de status nem fama”

  3. Parabéns pela iniciativa gostei , com tudo que vivemos hoje essas faixas tem muito o que ensinar pra muitos ipocritas, que não sabe a dor de se perseguido, ou rejeitado pela sociedade por causa de sua Cor , Raça ou Religião e assim como diz o texto acima esse é um espaço que foi conquistado como muito suor e luta merecidamente Parabéns a Universidade

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