Chacal: O poeta dos silêncios

Chacal: O poeta dos silêncios

“Uma tumultuada, uma indecifrável jornada para dentro de mim. Da linguagem. Da minha linguagem. Da vida”
Chacal, Uma história à margem

 

Dos uivos beatnik e dos acordes de rock. De uma atitude subversiva à margem da cultura. De rasgos lúdicos e performáticos em meio a uma ditadura militar. Assim despontou o poeta Chacal na década de 70. Antes era apenas Ricardo de Carvalho Duarte, nascido no Rio de Janeiro em 1951 e aluno de comunicação social da UFRJ. A alcunha canina surgiu aos 20 anos, quando começou a imprimir alguns poemas, junto com Charles Peixoto, em um mimeógrafo. Deram assim início a uma prática que marcaria sua geração: a impressão de livros de poesia em pequenas tiragens, que vendiam pelas ruas, bares e teatros do Rio.

Em seguida a Muito prazer, Ricardo (1971), seu livro de estreia, veio Preço da passagem (1972) como forma de arrecadar dinheiro para viajar à Inglaterra e fugir da censura brasileira. Recebido por um “tapete vermelho de folhas caídas na calçada” em Londres, Chacal foi logo arrebatado por shows de rock e por uma apresentação “uivada” pelo poeta beat Allen Ginsberg. Quando retornou ao Brasil, sob forte influência de suas experiências inglesas, atuou em diversos movimentos misturando poesia, teatro, música e recitais, como o grupo Nuvem CiganaAsdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador e a banda Blizz.

Artistas como Oswald de Andrade, Waly Salomão e Noel Rosa também foram inspirações para Chacal, que, típico antropófago, sabe imprimir as marcas da brasilidade carioca em versos esfumaçados pela música inglesa e pelos poetas norte-americanos. Sua irreverência a classificações e normas acadêmicas não se restringe aos seus versos, transbordando em suas performances políticas e poéticas.

Como atesta a criação do CEP 20.000 (Centro de Experimentações Poéticas) em 1990 no Rio de Janeiro, como forma de reunir poetas e artistas e agitar a vida política e cultural da cidade. Em seus 45 anos de carreira, lança agora Tudo (e mais um pouco), no qual reúne seus 15 livros de poesia e uma peça de teatro autobiográfica. Em entrevista, o poeta fala sobre a poesia no Brasil, política e comenta sua obra.

CULT – Recentemente a obra de muitos poetas brasileiros importantes tem sido relançada em edições completas. Você percebe um movimento de valorização da poesia nacional?

Chacal – Leminsky foi um grande sucesso de vendas, inédito para um livro de poesia. Havia uma demanda represada de sua obra, há tempos sem reedição. Estourou. E as editoras tentam explorar esse filão. Mas Leminsky é um caso raro de qualidade e popularidade. Tem um verso twitável. Que se espalha rápido pela rede. O meio digital tem ajudado muito nessa valorização. Temos muitas pequenas e médias editoras lançando mais poesia em pequenas tiragens e sob demanda. Tomara que isso continue. Acho que a boa poesia (algo um tanto subjetivo) tem público sim. As editoras que muitas vezes não sabem como trabalhar o livro de poesia, concentradas no retorno rápido dos romances que contam uma história. Poesia não conta história (faz história). Em compensação tem a possibilidade do recital nos encontros literários e do contato imediato no espetáculo. É quase a estratégia dos shows de música.

Um dos temas caros à geração de poetas da década de 70 foi a questão da identidade, que perpassa sua obra em poemas como “Ser e não ser”, “ID” e em todo Seu madruga e eu (2015). Como você avalia essas influências temáticas em sua obra?

Essa identidade mutante está mais presente nas gerações de agora. As identidades se tornam voláteis como o capital. A biotecnologia, a globalização, a questão de refugiados e imigrantes, a mão de obra que migra para novas chances de trabalho. Tudo isso gera muita confusão e perda de identidade. Na rede, você inventa uma identidade diferente a cada dia. Os poemas e livro a que você se refere são coisas recentes. Transformo essa angústia contemporânea em poesia.

Em recente debate com o poeta Ferreira Gullar, Augusto de Campos criticou a ação nociva da ABL para a cultura brasileira. Como membro da denominada “poesia marginal”, como você enxerga a institucionalização da literatura no Brasil?

Por favor, me inclui fora dessa. Sou poeta e ponto. Não quero ficar arrastando essa corrente pesada e inútil. “Poeta Marginal” só serve à universidade e ao mercado. Toda institucionalização é redutora. Fica presa à eterna reprodução de um cânone discutível, mesa farta para professores e críticos e não procura entender e valorizar o tempo presente e as gírias que vão pintando.

Em seu poema “Exp”, de A vida é curta para ser pequena (2002), você discute a terceirização da vida. Você percebe um processo semelhante de terceirização da consciência pública no debate político atual?

Reflexo de uma desvalorização da política, da desinformação programada da mídia e da necessidade de aparecer nas redes sociais. Acho essa frase muito atual: “penso, logo faço um self e publico no facebook”. A humanidade pensa através de memes e o debate vira fla x flu. A quem interessa esse obscurantismo?

A geração mimeógrafo surgiu contestando a censura da Ditadura Militar e das grandes editoras. Qual o papel político da poesia na contemporaneidade?

A Ditadura Militar se civilizou. Saiu da caserna e anda de helicóptero e jatinhos, alguns cheios de cocaína. A geração mimeógrafo é fruto da contracultura dos anos 60. Contra que cultura? Contra a cultura patriarcal, da propriedade privada da terra e dos meios de produção. Lutar contra a cultura que essa apropriação indevida instaura é e será sempre o papel político da poesia.

Você acredita que ainda há espaço para movimentos de poesia independentes atualmente?

A poesia só existe porque é independente. Não depende do mercado para sobreviver. É uma mercadoria sem valor de mercado. Isso permite experimentações que outras linguagens têm que reprimir por causa desse mercado, como a música de 3 a 4 minutos com primeira, segunda e refrão, o filme curta e longa metragem, colorido, com atores conhecidos. A poesia pode inventar mais à vontade. Foi isso que a tornou um foco de resistência nos anos 70. As outras linguagens por terem mais público, sofriam muita censura, censura essa que se introjetou na atual ditadura do mercado.

“eu quero/ o outro” assim você conclui seu poema “O outro”. Qual a importância desse outro para sua poesia? E para a literatura em geral?

“Só me interessa o que é não é meu. Lei do antropófago”. Oswald sempre Oswald. Poesia é desafio e busca. Abismo e atração. Como o outro. A arte é sempre um mergulho no escuro. Às vezes a gente sai com um peixe formidável no bico. Às vezes, uma bota velha. É no outro que a arte se reinventa. E vai.

“Tudo (e mais um pouco)” começa com “Alô poeta”, seu último livro, e termina com “Muito prazer, Ricardo”, seu primeiro livro. Em sua apresentação você afirma que o começo pode ser o término e vice-versa. Qual a importância dessa organização na reunião de sua obra poética?

Os primeiros livros acabaram sendo os mais conhecidos. Nos anos 70, cada livro era consumido avidamente. Havia um contexto de pouca informação circulante e usávamos uma linguagem fiel à época. Com a abertura política e a chegada da indústria áudio visual, migramos para o rock e a poesia ficou um tanto esquecida. Então preferi inverter a ordem cronológica e começar com os últimos livros, menos conhecidos e os inéditos.

Como você avalia seus 45 anos de atividade artística no Brasil?

Fiz o barulho necessário para ouvirem o meu silêncio.

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