Livro sobre pós-verdade reúne ensaios de Dunker, Safatle, Tiburi, Fuks e Tezza

Livro sobre pós-verdade reúne ensaios de Dunker, Safatle, Tiburi, Fuks e Tezza
Obra da artista polonesa Pawel Kuczynski (2011)

Em 2016, a Universidade de Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano. Segundo o dicionário da instituição, o termo “descreve circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. 

No Brasil, com a aproximação das eleições presidenciais, debater as origens, as definições e os impactos da pós-verdade ganha cada vez mais importância. Com este objetivo, o livro Ética e pós-verdade reúne artigos de cinco dos pensadores mais respeitados do país: o psicanalista Christian Dunker, o crítico literário Julián Fuks, o escritor Cristovão Tezza e os filósofos Marcia Tiburi e Vladimir Safatle.

Os ensaios, organizados pelo jornalista Manuel da Costa Pinto, foram escritos a convite do Festival Literário de Curitiba, evento que reúne anualmente escritores, artistas e intelectuais na cidade. A ideia da coletânea é simples: propor análises sobre a pós-verdade no Brasil a partir de diferentes pontos de vista: psicanalítico, político, filosófico e literário.

O lançamento da obra acontece nesta terça (12), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, a partir das 19h.  Haverá sessão de autógrafos com os cinco autores.

Pós-verdade em perspectiva

Ética e pós-verdade é rico porque, apesar de curto, reúne muitas formas de compreender e debater o conceito da pós-verdade. No ensaio Subjetividade em tempos de pós-verdade, que abre o livro, Christian Dunker aborda o tema da perspectiva da psicanálise, sem deixar de lado o olhar histórico-cultural – ele abre o texto citando Woody Allen e lembrando do personagem Cyfer, do filme Matrix, mas logo passa a explicar as origens do conceito de verdade, na antiguidade, e a descrever como se deu a evolução da pós-verdade durante a pós-modernidade.

Já Vladimir Safatle, em É racional parar de argumentar, propõe que o diálogo e a argumentação, em tempos de novas formas de comunicação e de conflitos de linguagens, só promovem mais violência e inércia. Ele escreve: “Pode parecer paradoxal afirmar que a organização dos conflitos a partir da expectativa de diálogo produza necessariamente niilismo e violência, afinal aprendemos que o diálogo é exatamente o inverso da violência, que ele é seu melhor antídoto. Mas talvez devamos assumir que há uma violência implícita no diálogo”.

Marcia Tiburi, por sua vez, parte do prefixo “pós-” para fazer uma análise mais ampla sobre a sensação que a nossa época passa: a de que “tudo aquilo que tínhamos como verdade desmoronou”. “A verdade é um poder”, diz Tiburi, e nos últimos tempos este poder teria se transformado em uma mercadoria ou uma conveniência para diferentes agentes políticos, religiosos e intelectuais. “A verdade depende, de certa forma, de nosso gosto”, propõe a filósofa.

Em A era da pós-ficção: notas sobre a insuficiência da fabulação no romance contemporâneo, Julián Fuks explica como, na falta da verdade no mundo real, a ficção tem se tornado o grande polo do que é verdadeiro. A verdade, segundo ele, “recupera nas obras literárias uma centralidade imprevista”. Seguindo um caminho semelhante, A ética da ficção, de Cristovão Tezza propõe, em primeira pessoa, o debate sobre o papel da escrita na construção da pós-verdade. “Não há escrita sem leitor que a determine”, afirma Tezza, mas “o leitor pressupõe que um texto seja verdadeiro, porque seu autor assim o apresenta”.

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