Buscas sobre diversidade atingem ápice no Brasil em 2017, aponta relatório

Buscas sobre diversidade atingem ápice no Brasil em 2017, aponta relatório Relatório do Google mostra que brasileiros estão buscando mais temas ligados a diversidade (Reprodução)

 

Apesar de reações conservadoras contra exposições, performances, peças de teatro e até contra pensadores como Paulo Freire e Judith Butler, a curiosidade dos brasileiros sobre temas ligados a diversidade vem aumentando. É o que aponta o relatório A busca por diversidade no Brasil, segundo o qual as buscas sobre o assunto no mecanismo de pesquisas cresceram 30% em 2017. Só no últimos seis meses, o crescimento médio das visualizações de conteúdos sobre homofobia, LGBTQI+, racismo e feminismo foi de 260%. 

“Nos últimos tempos, a internet se tornou um espaço em que as pessoas se sentem confortáveis para falar de suas vivências, de abusos, de racismo. O aumento das buscas está ligado a isso”, afirma a comunicadora Carine Roos, fundadora da Up(w)it, plataforma online de fomento à liderança feminina e criadora da página “33 Dias Sem Machismo”.

Só em 2017, o termo “transgênero”, por exemplo, teve um boom de 123% nas buscas – assim como a procura por “empoderamento feminino” (quatro vezes maior do que em 2012) e por “machismo” (aumento de 163% nos últimos dois anos). Em São Paulo, as pesquisas mais frequentes são sobre diversidade sexual e LGBTQI+, enquanto Rio e Espírito Santo concentram mais buscas sobre feminismo. Na Bahia, em 2016, a procura por racismo foi 60% maior do que em São Paulo.

“Conforme o debate foi se intensificando, a mídia também entendeu que lutas sociais são pautas – e as pessoas usam a internet para entender isso. São dois lados da mesma moeda”, afirma Nina Weingrill, comunicadora e co-fundadora da ÉNois, agência escola de jornalismo online.

Diretora-executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck concorda: “As pessoas transgênero só entraram na novela porque estão mais fortes. É a luta delas que pauta a novela e as discussões nas redes sociais, e não o contrário”. Ela se refere à novela A força do querer, da Rede Globo, que retratou o processo de transição de um homem transgênero. 

Para Werneck, a ascensão dos movimentos populares, do movimento negro e dos feminismos durante o processo de redemocratização do Brasil criou um ambiente favorável para o florescimento da curiosidade sobre esses temas. “Foram a sociedade e os movimentos sociais que pressionaram o governo pelo direito ao acesso à internet. Foram eles que criaram condições para o debate que acontece hoje”, argumenta.

No Brasil, as políticas sociais de inclusão digital via banda larga foram iniciadas durante os governos de Lula (2003-2011) e Dilma (2011-2016). Segundo o IBGE, entre 2005 e 2015 o número de residências conectadas à internet quintuplicou: de 7,2 milhões para 39,3 milhões. “Eu não diria que as pessoas estão mais curiosas, mas que finalmente têm acesso à tecnologia. Se antes essas discussões ficavam no privado, agora são públicas”, afirma Roos.

E, no âmbito público, incomodam. “O que vemos é uma reação conservadora à nossa luta, e faz todo sentido os conservadores se revoltarem, pois o que queremos é tirar os privilégios deles”, diz Werneck.

Ainda que o aumento das buscas, a curto prazo, possa estar relacionada a essa mesma guinada conservadora, o saldo continua sendo positivo. “É uma mensagem clara que diz que os sujeitos não foram eliminados, que os sujeitos não desapareceram, que não houve uma derrota. Não temos que temer esse momento. Temos que usá lo para reflexão e para diálogo – e seguir no debate, afirma.

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