O movimento das mulheres lésbicas feministas no Brasil

O movimento das mulheres lésbicas feministas no Brasil
As cores do arco-íris não podem desbotar sob um poder centralizado dentro do movimento LGBT (Arte Andreia Freire)

 

O começo da organização das lésbicas

Nos últimos quarenta anos de lutas por cidadania e reconhecimento no Brasil, as lésbicas organizadas se confrontaram com dificuldades tanto no movimento feminista quanto no LGBT. Elas começaram a fazer parte do Grupo Somos/SP, pioneiro no movimento LGBT, em fevereiro de 1979. Passados apenas três meses de atividades com os gays, perceberam atitudes machistas e discriminatórias desses companheiros de militância. Influenciadas pelo feminismo, elas sabiam que suas especificidades como mulheres – e não apenas como homossexuais femininas – geravam dupla discriminação. Como lésbicas feministas, decidiram então atuar como um subgrupo dentro do Somos, o Grupo de Ação Lésbico-Feminista ou apenas LF, com posicionamento político de independência frente à centralização do poder masculino.

Em uma reunião geral do Somos de julho de 1979, auge do grupo, participaram dez lésbicas e oitenta gays. Ainda que claramente minoria, as lésbicas do LF apresentaram suas decisões: encaminhar a discussão sobre machismo e feminismo no Somos, apresentar um temário específico para ser discutido por todos, ter um grupo de acolhimento e afirmação da identidade só para lésbicas e buscar alianças com o movimento feminista. Nessa reunião, foram hostilizadas e chamadas de histéricas. Felizmente receberam apoio de alguns gays do Somos, mais abertos às questões de gênero. Essa primeira fase da luta do LF não foi nada fácil, pois se depararam com empecilhos que não haviam imaginado. O LF era bastante plural, tinha de empregada doméstica a programadora de software, mulheres que não vinham da Academia, mas dos “armários” e do “gueto”. O ponto comum entre elas era o lesbianismo.

“Sapatonas” no movimento feminista

Em 1979 e 1980, no movimento feminista, o LF integrou as Coordenações Organizadoras do II e do III Congresso da Mulher Paulista. A primeira e organizada aparição do LF em público foi um escândalo, mesmo para as feministas. Nesses congressos, as lésbicas defendiam que as mulheres lutassem pelo direito ao prazer e à sua sexualidade; que rompessem com o círculo de opressão e subordinação masculina que não aceitava o desejo da mulher e que tomassem conhecimento de que heterossexualidade era imposta a todas as mulheres como a única sexualidade “normal”. Mas essas ideias não eram bem-aceitas pela maior parte do movimento de mulheres e soava radical para as feministas. Márcia Campos do grupo político MR-8, por exemplo, questionava: como pode uma mulher da periferia aceitar que o seu movimento seja dirigido por lésbicas, como querem as mulheres de classe média do movimento? A lésbica nega a sua própria condição de mulher, não pode fazer parte de um movimento feminino”. Publicamente, duvidavam da representatividade das Coordenações por nelas conter “sapatonas”. Direito ao corpo e ao prazer era demais para as companheiras e camaradas da época.

Wilminha expressou bem a intenção do LF: “Ora, se nossa principal questão era é visibilidade, que nos vissem. Trazíamos uma postura sexual diferente e mal conhecida, um inusitado discurso sobre a sexualidade e uma determinação em discuti-la. Éramos lésbicas assumidas no Brasil dos anos 80 e queríamos discutir lesbianismo não mais como assunto privado, mas como questão política.” O fato é que a presença das lésbicas no movimento feminista impactou profundamente a discussão sobre sexualidade junto às mulheres de baixa renda. Foi o início do desmonte da crença de que a mulher pobre não estava interessada em discutir sexualidade, mas somente as desigualdades econômicas. Além disso, a questão da sexualidade não ficou reduzida ao uso de contraceptivos, mas também envolvia a liberdade de eleger sua/seu parceira/o de cama e de vida.

Integrantes do Somos, GALF e SOS Mulher na sede do GALF-Outra Coisa em junho de 1983 (Acervo Rede de Informação – Um outro olhar)
Integrantes do Somos, GALF e SOS Mulher na sede do GALF, junho de 1983 (Acervo Rede de Informação – Um outro olhar)

GALF: Agora, tudo no feminino

Em abril de 1980, em São Paulo aconteceu o I Encontro Brasileiro de Homossexuais (EBHO), com 200 participantes de diferentes estados. Com presença majoritária de gays, o LF esteve presente trazendo discussões sobre as lésbicas, o machismo e o feminismo. O I EBHO foi burocrático e cheio de discórdias que acabaram tensionando as relações dentro de um movimento homossexual cada vez mais diverso e amplo. Após a participação de algumas lésbicas e gays do Somos na passeata do 1º de Maio de 1980 realizada em São Bernardo do Campo, instalou-se uma divisão irreconciliável dentro do grupo. O LF reconheceu que não fazia mais sentido continuar brigando dentro do Somos e assim, em 17 de maio, as lésbicas se retiraram de forma definitiva do grupo. O que fizeram foi tornar pública uma situação que já havia de fato, qual seja, a autonomia total do LF. O nome então foi mudado para Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf). Agora, tudo no feminino.

O Galf atuava dentro do gueto de lésbicas vendendo boletins, panfletava folhetos de conscientização sobre discriminação e violência contra as lésbicas e divulgava as atividades do grupo. Atuou fortemente contra a onda de prisões arbitrárias, de torturas e de extorsão comandadas pelo delegado José Wilson Richetti a partir de abril de 1980, ainda durante a ditadura civil-militar de 1964. Os alvos da violência estatal eram homossexuais, travestis, prostitutas, negros e desempregados. Grupos homossexuais organizados, o Movimento Negro Unificado (MNU) e grupos feministas divulgaram uma carta aberta à população repudiando essa violência e chamando todos para um Ato Público no dia 13 de junho de 1980 na frente do Teatro Municipal. Quando o ato saiu em caminhada pelo Centro de São Paulo, as lésbicas carregavam duas faixas com os seguintes dizeres: Pelo Prazer Lésbico e Contra a Violência Policial. Esse evento político se configurou como a primeira passeata LGBT da cidade de São Paulo. Mas a violência seguia. Em 15 de novembro, o mesmo aparato policial fez uma operação de prisão de lésbicas que, indiscriminadamente, foram levadas dos guetos sob a “acusação”: “você é sapatão”.

Diversos outros episódios de repressão, mas também de resistência, devem ser lembrados nessa trajetória. Um deles é especial. O número um do primeiro boletim das lésbicas no Brasil, o Chanacomchana, foi lançado pelo Galf em 1981 e circulou até 1987. Na noite de 23 de julho de 1983, integrantes do Grupo vendiam o Chanacomchana no Ferro’s Bar no Centro de São Paulo, mas foram expulsas e proibidas de entrar naquele lugar, que era um dos lugares de sociabilidade mais frequentados pelas lésbicas na noite da cidade.

Boletim Chanacomchana, lançado pelo Galf em 1981 e circulou até 1987 (Reprodução)
Boletim Chanacomchana, lançado pelo Galf em 1981; a publicação circulou até 1987 (Reprodução)

Diante desse autoritarismo, no dia 19 de agosto, as lésbicas promoveram a invasão do Ferro’s Bar, em um episódio que ficou conhecido como o pequeno Stonewall brasileiro, em referência ao bar que foi invadido pela polícia em 1969 em Nova York e que foi um marco para o movimento LGBT nos EUA. A invasão do Ferro’s Bar foi um ato político organizado pelo Galf e coordenado por Rosely Roth, que articulou a ação com a grande imprensa, gays, lésbicas, feministas, defensores de direitos humanos e com políticos. Como a ocupação causou um grande tumulto, com cobertura da mídia e presença da polícia, o dono do Ferro’s voltou atrás, liberando a venda do Chanacomchana. Foi uma vitória e um marco fundamental para a história do movimento de lésbicas brasileiro.

O Galf deixou de existir no ano de 1989. O primeiro grupo de lésbicas no Brasil teve duração de 10 anos, com ações ininterruptas nesse período. As lésbicas organizadas iniciaram sua luta em espaços de legitimação junto aos gays e às heterofeministas, para depois, de forma autônoma, figurar como sujeitos políticos, habilitando-se na busca por seus direitos.

A articulação nacional das lésbicas

No Brasil, em 1985, aconteceu o III Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, em São Paulo. Pela primeira vez, no movimento feminista brasileiro, colocou-se no temário oficial do Encontro o tema “lesbianismo”. No entanto, nesse mesmo Encontro, houve uma reunião só de lésbicas na qual Rosely Roth afirmou que o Galf se retirava do movimento feminista, porque era evidente que aquele movimento não dava apoio efetivo para as lésbicas.

Os mesmos problemas do passado ainda se impunham. O movimento de lésbicas feministas no Brasil já existia há quase 17 anos e suas pautas não encontravam apoio real junto aos movimentos feminista e homossexual. Para elas, então, era urgente a criação de um espaço próprio, autônomo, de abrangência nacional, para repensar a si mesmas enquanto individualidades. Só assim seria possível aperfeiçoar os posicionamentos políticos e as estratégias de combate ao patriarcado, à heterossexualidade compulsória, ao racismo, à lesbifobia de modo a elaborar um corpo político específico.

É assim que surge o Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), o fórum mais importante de junção política e de deliberação do movimento de lésbicas e bissexuais. Em agosto de 1996, aconteceu o I Senale/RJ, com a participação de 100 lésbicas. Dentre as deliberações, o dia 29 de agosto, início do I Senale, passou a ser o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Os Senale continuam acontecendo e são realizados em diferentes estados e regiões do país. No VIII Senale/RS, o nome foi alterado para Senalesbi, garantindo a visibilidade das mulheres bissexuais. O X Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (Senalesbi) acontecerá em 2018, na Bahia.

Fachada do Ferro`s Bar, frequentado por lésbicas, no centro de São Paulo (Foto Ovídio Vieira / Folha Imagem)
Em 1983, as lésbicas invadiram o Ferro’s Bar no episódio conhecido como o “Stonewall brasileiro” (Foto Ovídio Vieira/Folha Imagem)

A luta pela visibilidade lésbica nos dias atuais

Na busca por visibilidade e respeito dentro do movimento LGBT, as lésbicas reivindicaram de paridade a cotas de participação em eventos nacionais do movimento LGBT. Apesar de aprovada a paridade no VII EBHO/1993 e depois cotas mínimas para lésbicas, tais reivindicações nunca foram concretizadas, o que demonstra a manutenção de posturas de poder machista e patriarcal dentro deste movimento.

Na I Conferência Nacional LGBT/2008, as delegações da sociedade civil, obrigatoriamente, foram compostas de 50% de pessoas com identidade de gênero feminina (lésbicas, mulheres bissexuais, travestis e mulheres transexuais) e 50% de homens.

A Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) apresentou uma proposta mais justa, segundo a qual as delegações fossem formadas por 20% de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis, respectivamente. O Coletivo Nacional de Lésbicas Negras Feministas Autônomas (Candace-BR) criticou o fato de não haver cotas para a comunidade LGBT negra. Mas os pedidos dessas duas redes nacionais de lésbicas não foram atendidos.

A visibilidade política das lésbicas também não foi alcançada nas Paradas do Orgulho LGBT de São Paulo que, até 2003, denominava-se Parada do Orgulho Gay. Desde 1997 se pedia a alteração do nome que invisibilizava os segmentos de lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Para produzir visibilidade social e política às lésbicas, protestar por seus direitos específicos, demarcar suas pautas e celebrar, surge em 2003 a I Caminhada de Lésbicas e Simpatizantes, espaço criado por mulheres, que acontece no sábado que antecede a Parada. O nome da Caminhada foi alterado em 2013 para Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais e, neste ano de 2018, será realizada sua XVI edição.

Foi no ano de 2006 que as lésbicas negras organizaram o I Seminário Nacional de Lésbicas Negras: Afirmando Identidades, que aconteceu em São Paulo. O resultado propiciou à população LGBT negra, de forma crescente e efetiva, a incorporação da orientação sexual e identidade de gênero nas agendas governamentais e não governamentais, das atividades antirracismo. O II Seminário Nacional de Lésbicas Negras e Bissexuais: Afirmando Identidades para a Saúde Integral, aconteceu em 2015, em Curitiba. Em 2018 acontecerá o III Senale Negras, na Paraíba.

Como se pode notar dessas breves notas, o movimento de lésbicas feministas surgiu com um discurso pelo direito ao prazer, transformando aquele desejo sexual particular em um potencial transformador e revolucionário. Contudo, é fundamental não incorrer em um ativismo LGBT burocrático, hierarquizado, com a concentração de poder nas mãos de alguns que falam e representam a todas e todos, não considerando as diferentes realidades, verdades e identidades. Muitas vezes, nesta longa trajetória, perderam-se de vista o desejo de se aprender umas com as outras, o radicalismo, a ousadia e a rebeldia.

As cores do arco-íris e do triângulo invertido lilás não podem desbotar sob um poder centralizado dentro do movimento LGBT. Além disso, é preciso recuperar o feminismo das lésbicas que combate a heterossexualidade compulsória que tanto oprime todas as mulheres. Exemplo dessa renovação necessária é a formação de Coletivas de lésbicas que, de forma autônoma, colocam nas ruas as Caminhadas Lésbicas de São Paulo, e outras formas de ativismo pelo país com apelo cultural, utilizando-se de distintas linguagens, como o hip-hop, bandas de rock hardcore e fanzines, capazes de atingir distintos públicos.


MARISA FERNANDES é mestre em História Social pela USP e pesquisadora do Coletivo de Feministas Lésbicas


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(3) Comentários

  1. Pertenço a minoria lésbica e sou militante feminista, e só ao ler essa produção me dei conta do quanto ignoro a história dá militância lésbica, e o quão terrível isso é. Parabéns, é muito mais do que um texto, é pólvora.

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