Um minuto de silêncio no 8 de Março

Um minuto de silêncio no 8 de Março
(Arte Revista CULT)

 

O Dia Internacional da Mulher não é exatamente um dia de comemoração, mas uma dia de rememoração. O 8 de Março deve representar uma parada para pensar em nossa própria história ligada de um modo inapagável à violência contra as mulheres. Infelizmente, essa mesma violência contra as mulheres se tornou natural para a maior parte das pessoas. Em nossa cultura as mulheres são vítimas, mas ainda são tratadas como culpadas.

Não se pode esperar nada de melhor do sistema patriarcal que, no dia a dia, nos faz conhecer o machismo mais bruto, aquele que está na estrutura, aquele que somente as feministas tomam por dever questionar. Justamente por isso mesmo é que as feministas acabam por se tornar as novas vítimas do ódio patriarcal. O ódio que foi lançado sobre as mulheres também é lançado sobre aquelas que descobrem, criticam e lutam contra o mecanismo do qual o ódio é a energia. Acontece que o ódio ao qual damos o nome técnico de misoginia é estratégico, não é gratuito, tem uma função específica, a de sustentar as coisas como elas estão ao preço de vidas.

A meu ver, devemos hoje rememorar as mulheres que sofreram violências, aquelas que foram agredidas e, no limite, mortas apenas porque sobre elas caiu o signo “mulher”. O machismo é um sistema de preconceitos e privilégios que depende da violência contra os seres estigmatizados como mulheres. Seres que, caso não cumpram com a “função” que lhes foi delegada pelo patriarcado, são culpabilizadas e condenadas até a morte.

O que chamamos de feminicídio nada mais é do que o efeito lógico desse  sistema que extermina essas mulheres que são consideradas inadequadas e indesejáveis aos parâmetros machistas. Podemos comemorar a vida das mulheres que sobreviveram até aqui e assim otimizar a nossa luta, mas não podemos esquecer as mulheres assassinadas, pois para elas não haverá justiça.

Todas as mulheres sofrem mais cedo ou mais tarde algum tipo de violência, sem falar na violência estrutural, familiar, educacional, epistemológica que está na base mais densa da vida das mulheres. Falo aqui das violências simbólicas e físicas, estruturais e verbais, domésticas ou públicas. Não há quem não tenha vivido algum tipo de violência, ou não conheça mulher que tenha sido vítima de violência apenas por ser mulher. As famílias e outras instituições de um modo geral escondem e, infelizmente, fomentam essa violência. A violência física, sempre mais chocante, é a mais difícil de ser enfrentada.

Djanira, morta e queimada em Vacaria em janeiro de 2018

Ao redigir o meu livro Feminismo em comum, em um ponto específico, ao pensar em “como nos tornamos feministas”, senti a necessidade de contar algo sobre minha avó, da mãe de minha mãe. Minha avó foi uma sobrevivente de violência física perpetrada por seu próprio marido, pai de seus 10 filhos, de quem conseguiu se separar nos anos 50. Carregou o estigma de mulher “desquitada” e uma amargura profunda durante toda a vida, apesar de seu jeito quieto e doce.

Hoje, eu me entristeço ao falar da cidade onde ela viveu e morreu, a cidade onde eu nasci e onde parte da minha família ainda vive. A violência contra as mulheres segue na pequena cidade de menos de 70 mil habitantes chamada Vacaria nos Campos de Cima da Serra gaúcha.

Dedico essa pequena crônica à memória de minha avó materna, dona Altiva, e, junto dela, à memória de outra mulher que conheci quando menina, Eva Djair Pereira Boeira que, diferentemente de minha avó – sobrevivente estigmatizada por ser descasada em tempos ultra moralistas naquele mundo bruto – , viveu a vida inteira ao lado de seu assassino.

Eva, que gostava de ser chamada de Djanira, foi morta pelo marido no dia 6 de janeiro de 2018, aos 67 anos de idade. Ela foi queimada na quase totalidade de seu corpo. Seu assassino a deixou no hospital quase morta, alegando que iria em casa buscar documentos. Depois desapareceu. Parece que a polícia o encontrou, mas ele segue em liberdade. É um homem de quase 70 anos que viveu com ela a vida inteira.

Desde esse dia, as pessoas se perguntam: como uma coisas dessas foi possível? Contudo, eu me pergunto, o que esse “possível” quer dizer? Seria impossível imaginar que um dia seu marido a pudesse matar? Ou que ela tenha vivido uma vida inteira e tenha tido dois filhos com seu próprio assassino sem jamais imaginar que ele a poderia matar? São perguntas que não interessam à polícia, nem aos advogados, talvez interessem aos filhos, talvez o assassino possa um dia se colocar essa questão, se tiver alma para isso.

Lembro de Djanira a visitar a casa de minha mãe para vender produtos da Avon. Ninguém era mais simpática do que ela. Lembro do seu perfume, dos seus olhos luminosos, da sua pele sedosa. Ela era meiga conosco e naturalmente gostávamos dela. Minha mãe, que sempre falava da brutalidade dos homens, comentava sobre o marido de Djanira, um homem desde sempre violento.

Procurei notícias na internet, perguntei à minha mãe sobre o que ela sabia. Mas ninguém sabia quase nada. Em torno de muitas mulheres violentada o silêncio é comum. Descobri que em 2017 quatro mulheres foram queimadas de modo semelhante em Vacaria. Apenas Djanira morreu, mas os traumas das sobreviventes são indeléveis.

O feminicídio por queimadura tem sido uma espécie de técnica usada em escala internacional. Argentina, México e outros países apresentam muitos casos que despertam cada vez mais a curiosidade das feministas, porque somente elas tem coragem de levantar essa questão e romper com a ideia de uma “acidente doméstico” com álcool ou gasolina.

Que as mulheres sejam queimadas hoje nos faz lembrar das bruxas entre o século 14 e 17, mas também das operárias mortas na fábrica de tecidos em Nova York no século 19, cuja história está na base da rememoração do 8 de março. As mulheres indianas que em um ritual bizarro devem se jogar nas piras onde ardem os corpos de seus maridos mortos são uma caso para pensar acerca de uma lógica que se faz arquetípica no extermínio de uma parte da população indesejável. O que nos parece mais arcaico se renova sempre que necessário.

A lei do feminicídio

A lei do feminicídio, bem como a lei Maria da Penha, tem sido vista por alguns como solução, para outros como uma espécie de entrave no que concerne à matança de mulheres. Sabemos que nenhuma lei que tente proteger as mulheres será suficiente enquanto não encontramos um verdadeiro antídoto para o machismo, esse veneno mortal inoculado nos corpos em nome dos privilégios patriarcais.

Sabemos que as leis fazem parte do machismo estrutural, que sempre foi punitivista com as mulheres, seja no espaço privado da casa em que homens que se sentem soberanos apenas porque são homens, espancam e matam com base no arcaísmo do pater potestas. Donos dos corpos e das vidas de seus familiares e súditos, há homens que não se compreendem como assassinos mesmo quando matam.

A cultura do assédio e a cultura do estupro (dentro e fora da casa) são parte da cultura machista em um sistema patriarcal, estabelecido na lógica de uma razão patriarcal que tudo contaminou há muito tempo. A violência contra as mulheres no trabalho e nas ruas, na política e na vida pública não podem ser apagadas. Leis que pudessem promover paridade salarial e de outros direitos seriam muito bem vindas.

Ora, em que pese a miséria patriarcal na qual estão forjadas as leis, elas representam um espaço simbólico que é preciso ocupar em nome da luta feminista. Uma lei não resolve nada, mas a sua ausência também não. Os limites de uma lei não nos devem levar a pensar que elas não fazem sentido.

Minha avó certamente foi amparada pela figura jurídica do “desquite”, hoje chamada apenas de separação, que data do começo do século 20. Se não houvesse essa possibilidade, ela não teria solução, senão a fuga desamparada por qualquer tipo de direito. Djanira não foi salva pela lei do feminicídio, ainda muito nova e fraca perto da conhecida capacidade de matança do machismo. O assassino está solto, e se estivesse preso, ela continuaria morta. Morta pelo machismo. Mas muitas mulheres ainda podem ser salvas pelo esforço das lutas feministas que se propõem a mudar a ordem da cultura.

Em que pesem os limites da lei, precisamos torná-la mais conhecida não tanto pelos homens, mas pelas mulheres que devem aprender a refletir sobre o machismo ao qual estão subjugadas. As mulheres precisam saber que podem ser mortas por seus companheiros pelos mais diversos motivos e que eles são sempre os mais torpes.

Dessa consciência depende também a construção de uma vida justa e segura com escolhas melhores, o que só será possível quando estivermos livres de todo machismo, ele mesmo uma forma clássica da autoritarismo baseado no valor do gênero. Antes de seguir com a luta por uma vida justa, peço um minuto de silêncio por Djanira e por todas as mortas por serem mulheres.

(3) Comentários

  1. Importante pontuação. Não existe possibilidade de reparação para a morte e, infelizmente, o machismo continua matando de forma irrefreável neste país e naturalizando a penalização do feminicida como solução. Não é. Hoje eu li que um estudo feito pela equipe do Papo de Homem constatou que os atos de violência contra mulheres entre homens que passam por grupos de reflexão, após serem enquadrados na lei Maria da Penha, caem de 75% para até 5%. Isso quer dizer muito. É preciso denunciar, mas também lutar por novas formas de convivência, educação e de respeito às diferenças e singularidades. Adorei ler você. Abraços, Cláudia

  2. A Lei Maria da Penha é uma das formas que ajudam, mas não impede a violência contra mulheres. O ideal é que homens e mulheres tivessem direito a Educação, Sistema de Saúde bom, salários, emprego. Talvez se todos tivessem acesso grande parte da violência que impera no Brasil, diminuiria.

  3. Grande artigo, Márcia! Venho de uma família de mulheres muito fortes, então entendo um pouco melhor o que você está dizendo. Sempre foram elas quem tomavam as decisões, que brigavam entre si, ditavam as regras. Não que os homens não impusessem seus pontos de vista; mas elas sempre tiveram mais força de argumentos e você percebe isso com o tempo.
    A propósito, sinto-me honrado por ter nascido no dia 8 de Março. É realmente uma data reflexiva e me faz pensar: como tenho agido com as mulheres!

    Abraços!

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