A esquerda e o cenário eleitoral pós-Lula

A esquerda e o cenário eleitoral pós-Lula
Se Lula precisa de atenção pública, o PT e a esquerda também precisam pensar na própria sobrevivência eleitoral (Arte Revista CULT)

 

O mês de maio veio instalar definitivamente uma tensão no seio da esquerda. De um lado, os que consideram que, tendo em conta a proximidade das eleições de 2018 e a possibilidade de este ser o primeiro ciclo eleitoral sem uma candidatura forte de esquerda desde 1989, é urgente que esta comece a examinar o lugar das candidaturas já postas, em um cenário eleitoral pós-Lula. De outro lado, os lulistas, que consideram que a mera cogitação de uma eleição sem Lula significará a consolidação de um percurso de destruição do PT que começou com a tomada do mandato de Dilma Rousseff pelo Congresso, há exatos dois anos, e passou pela condenação de Lula por Sérgio Moro e a sua prisão em Curitiba.

O que para os primeiros é um mero ato de realismo consequente, para os segundos é praticamente um sacrilégio. Estes imaginam que a simples especulação de uma cédula eleitoral sem Lula implicaria em uma inadmissível capitulação ante a forças sombrias que, em conluio, passaram a dominar a política brasileira desde os fins de 2014. Fantasiam, então, como consequência, um Lula acorrentado e esquecido em alguma masmorra fria e suja, enquanto a política insensivelmente continuaria a sua rotina de eleições e governos, indiferente à injustiça que está sendo perpetrada. Como poderiam ousar pensar em uma vida pós-Lula, tratando-o como um corpo já sem vida eleitoral, à vista de tanto horror e iniquidade que clama aos céus por reparação?

Do lado dos lulistas mais renitentes, já havia começado, há algumas semanas, a campanha “Ou Lula ou Nada”. Serve tanto para demonstrar que “Lula tem um altar perpétuo nos nossos corações” quanto para reforçar os ânimos “dos que compartilham conosco esta crença”, mas é também uma mensagem para os que se atrevem a querer começar a tocar a vida eleitoral, dando como certo que Lula será certamente impedido de concorrer. Uma derivada desta campanha chega a sugerir que, por coerência, no caso de um definitivo impedimento de Lula, pelo menos os candidatos do PT boicotem a eleição, desistindo de suas candidaturas. Ou que o boicote se estenda a todos os que “não concordam com o golpe”, adotando-se uma solução à venezuelana – que, pelo menos por lá, aniquilou a oposição.  

Hipérboles à parte, realisticamente, Lula continua cavalgando. Desde que as pesquisas começaram a reiterar que as intenções de voto que lhe são destinadas podem ser transferidas, em sua maior parte, para quem Lula apontar, o lulismo obstinado viu reforçada pelo menos a tese segundo a qual o indicado por Lula poderá, no mínimo, chegar ao segundo turno. Neste caso, as intenções de votos aferidas pelas pesquisas se convertem não apenas em patrimônio eleitoral, mas em um ativo que pode ser transferido ao portador “no momento oportuno”. “Oportuno”, no caso, quer dizer, na ocasião em que for conveniente a Lula, para quem interessa, certamente, manter-se no foco da atenção pública. Uma atenção que ele precisa usar, inclusive, como proteção contra as arbitrariedades a que está exposto na prisão, considerando-se a já comprovada capilaridade insidiosa do antipetismo nos ambientes da polícia e da Justiça.

Mas se Lula precisa de atenção pública, o seu partido e a própria esquerda também precisam pensar na própria sobrevivência eleitoral. E o equilíbrio entre o que é proveitoso para um e o que é conveniente para outros não parece ainda ter sido encontrado. Neste preciso momento, a coisa parece bem desbalanceada, em favor de Lula e contra os partidos de esquerda, não obstante a crença de que Lula transferirá o seu ativo eleitoral para quem lhe aprouver, na hora em que bem entender. Na verdade, a não ser que este seja um caso singular em virtude das suas peculiares circunstâncias (Lula cativo, a narrativa do golpe, a épica da punição injusta, a conspiração etc.), a assim chamada transferência de votos geralmente não é um processo automático nem garantido.

Sim, conhecemos a história de Lula e dos seus “postes”, repetida nas eleições de Dilma Rousseff e de Fernando Haddad. Lembremos, contudo, que se os dois chegaram às campanhas ainda como “anões nos ombros de um gigante”, a imagem de ambos como herdeiros de Lula e fiéis depositários do seu legado não foi um ato repentino nem feito no último minuto do segundo tempo. Houve uma construção consideravelmente longa, um período de assimilação e maturação por parte do eleitorado e, ainda assim, foi necessário que Lula entrasse em campo, nas duas eleições de Dilma e na eleição de Haddad, para que, no limite, a operação se completasse. Isso sem mencionar o fato de que campanhas precisam ser financiadas e planejadas e nomes precisam ser viabilizados nas coligações eleitorais. Nada disso se repetiria nesta eleição, sobretudo considerando o fato de que Lula na prisão não emprestará o seu discurso e a sua insubstituível capacidade de mover a massa em favor do seu campeão.  

Além disso, o tempo conspira contra as conveniências. Com as eleições marcadas para o dia 7 de outubro, estamos a menos de 5 meses do primeiro turno e a exatos três meses da data final para os registros das candidaturas na Justiça Eleitoral. E ainda temos pela frente processos não tão simples de deliberação partidária sobre candidatos e formação de coligações, além do planejamento, inclusive econômico, das campanhas. Por mais que Lula tenha acostumado os seus aos famosos “dedaços”, ato de indicação baseado em escolha monocrática, não há varinha de condão a conduzir o processo: é preciso formar coligações, arrumar dinheiro e coordenação para as campanhas, é preciso trabalhar a imagem e a plataforma dos candidatos.

Na hipótese de que o PT continue – para todos os efeitos, inclusive os de articulação política – abraçado à candidatura de Lula até 15 de agosto, prazo máximo para requerer o registro no TSE, a fim de deixar à Justiça Eleitoral o ônus político de impugná-lo e continuar a dramaturgia do Só o Cárcere e o Arbítrio Impediram que Lula Fosse Presidente de Novo Pela Vontade do Povo, como parece ser a ideia de alguns, as coisas podem se complicar bastante.

Se o alegado “momento oportuno” for no limite dos 60 dias antes das eleições, como prevê a legislação, o seu indicado precisará ser mais que um mero indicado, precisará ser o Escolhido, o ungido pelo Mestre para completar a sua missão. Esta operação se deu na Venezuela, com a transubstanciação de Chávez em Maduro, mas dificilmente se repetirá no Brasil, principalmente porque lá a clara hegemonia política do chavismo era ingrediente fundamental para a mágica que se processou, enquanto aqui a polarização é atroz, o sentimento antipolítico extremamente aguçado e o campo de esquerda entra nessas eleições claramente minoritário.

Mas se a venezuelização das eleições brasileiras, baseadas em boicotes ou em Unção – como querem os petistas mais recalcitrantes -, redundaria em enorme fracasso, se o PT continuar tendo como sua prioridade a manutenção de Lula no cenário eleitoral podemos chegar em 28 de outubro, data prevista para um provável segundo turno, em uma situação à francesa, em que o eleitor de esquerda teria que escolher entre a direita e a extrema-direita na cédula eleitoral. Uma situação inédita em todos os segundos turnos, desde a restaurações das eleições diretas para a presidência da República.

Que uma situação à francesa esteja no horizonte não há dúvida. Antes de tudo, porque esta será a eleição com o maior número de candidatos eleitoralmente “médios” desde 1989. Naquela eleição, apenas Collor se distanciou um pouco dos demais, com 30,5% dos votos em primeiro turno. Lula foi ao segundo turno com 17,2%, mas com um quociente muito próximo de Brizola (16,5) e Covas (11,5). Quase metade dos votos dados no primeiro, portanto, foram distribuídos entre três candidatos de peso eleitoral equivalente e um deles foi ao segundo turno com o menor percentual de votos obtidos no ciclo eleitoral depois da redemocratização. Esta situação não se repetiu, naturalmente, em 1994 e 1998, em que uma grande força eleitoral (FHC) derrotou facilmente a única força secundária (Lula) que lhe fez frente. 2006 foi também peculiar, porque tivemos duas grandes forças eleitorais de tamanho muito próximo (Lula e Alckmin) disputando o primeiro turno, enquanto os outros resultaram ser forças muito pequenas.

O ex-presidente Lula é carregado por apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo (Francisco Proner/Reprodução)
Lula é carregado por apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo (Francisco Proner)

No primeiro turno das eleições de 2002, 2010 e 2014, por sua vez, houve sempre uma terceira força, além dos protagonistas PT e PSDB: Garotinho (17,9%), Marina (19,3%) e Marina de novo (21,3%). Nas últimas três eleições, por outro lado, a segunda força precisou de um quociente eleitoral consideravelmente alto para ir ao segundo: Alckmin, 41,6%; Serra, 32,6% e Aécio, 33,5%. Muito longe, portanto, dos reles 17% de que precisou Lula para enfrentar Collor no segundo turno em 1989.

Há muitas razões, contudo, para sugerir que a tendência em 2018 é que se repita algo muito próximo do cenário que se verificou em 1989, rompendo o padrão das últimas três eleições. Antes de tudo porque o torvelinho político em que nos metemos depois de 2014 parece ter aberto uma janela de oportunidades para outros partidos fora da contraposição, que se manteve hegemônica desde 1994, entre tucanos e petistas. Outros grupos se animaram e outros ainda estão esperando essa chance há duas décadas e não querem deixá-la escapar.

Assim, temos no páreo alguns candidatos que já foram segundos e terceiros colocados – como Alckmin, Ciro e Marina – e um novo candidato com bom percentual de votos, Bolsonaro. Tínhamos também Barbosa que, como de costume, amarelou. E temos, enfim, a grande novidade, Lula, que não será candidato, mas será um dos maiores eleitores, colocando para render ainda mais sobre o seu ativo eleitoral e esperando “o momento oportuno” para transferi-lo ao seu eleito o à sua eleita. Como veem, são muitas forças, nenhuma delas com possibilidade evidente de se distanciar dos demais já no primeiro turno, como aconteceu com FHC em 1994 e 1998. Não é improvável, portanto, que em 7 de outubro tenhamos até quatro candidatos com chances reais de passar para o segundo turno com um percentual até abaixo de 20% dos votos.

E com Lula fora da cédula, o líder das intenções de voto é Bolsonaro. Pode até já ter atingido o seu teto, no melhor cenário, mas não precisará mais que isso. Se as forças que se agruparam ao redor dele (antipetistas, ultraconservadores, intervencionistas militares e os antipolítica) se mantiverem coesas, é muito provável que o capital de intenções de voto já em caixa seja grande o bastante para ir ao segundo turno. Na verdade, com pelo menos quatro candidatos competitivos e disputando focinho a focinho, os 20% de Bolsonaro dão e sobram para o seu propósito. E Alckmin continua “jogando parado”, como se diz no futebol, vendo concorrentes diretos, como Huck, Barbosa e talvez Dória, entrando e saindo do jogo, enquanto espera a sua vez para rolar a bola. É evidente que a direita e a centro-direita de terno e colarinho branco não vão querer entregar de bandeja esta eleição para os toscos da extrema-direita, depois de tanto esforço investido para retirar Dilma e Lula do caminho por meios, digamos, não eleitorais. Alckmin ou outro, haverá um candidato forte de direita ou do que eles vão chamar de “centro”, mas que, na verdade, é o Centrão, o nome que se dava à direita ainda no armário nos anos 1980.  

E o PT? Nesta semana, os petistas passaram a comportar-se como noiva cobiçada, apresentando exigências (“quem quiser ser o Ungido por Lula, venha de joelhos, contrito e humilhado, e mostre que sempre o amou e venerou”) e aumentando o dote requerido, ao ponto de ter gente enunciando como condição para merecer a transferência de votos a declaração explícita de que o impeachment foi golpe e de que Lula é preso político. Outros têm certeza de que é preciso ir ainda mais para a esquerda e que o herdeiro de Lula precisa ser um puro-sangue. Já nem serve que o escolhido seja parecido com o Lula de 2002 e 2004, o Lula de centro; precisa ser igualzinho ao Lula de 1989 e 1994, o Lula dos movimentos sociais e contra o capital. Que era justamente o Lula que não ganhava eleições.

Por melhores que sejam Boulos e Manuela, contudo, dificilmente ganharão musculatura eleitoral para um grande desempenho em 2018. Apostar que Lula possa colocá-los no segundo turno, ainda mais na condição de cabeça de chapa, por um ato de mágica eleitoral, está mais para desejo e sonho do que para possibilidade. Além disso, uma cabeça de chapa pouco competitiva significa a impossibilidade de formar bancas fortes e uma decisão de se tornar um partido pequeno de novo. O petismo que fizer esta escolha terá esquecido a regra de ouro que passou a reger a política nacional desde o impeachment de Dilma: “Governa quem tiver mais votos no Congresso, não quem for escolhido pelo voto popular”. Passei só para lembrar.

Assim, se o lulismo renitente continuar oscilando entre o niilismo do “Lula ou Nada”, o papel de noiva impossível e, enfim, a decisão pela “guinada à esquerda”, apostando em grande densidade ideológica mesmo que isso leve a uma baixíssima efetividade eleitoral, não será improvável que terminemos o primeiro turno com Ciro e Marina disputando, por um ou dois pontos percentuais, o papel de terceira força, enquanto Alckmin se credencia para enfrentar o Capitão no segundo turno.

Por isso, insisto, podemos ter uma situação em que o segundo turno seja disputado entre um candidato da direita e um candidato da extrema-direita. O que não é apenas possível, mas altamente plausível. No melhor cenário para ela, em um determinado momento, que não pode demorar muito, a esquerda vai ter que se aproximar do centro (Ciro e Marina) e fazer uma escolha pragmática, de sobrevivência mesmo. E isso pode ter que ser feito antes do segundo turno, pois o risco de uma solução à francesa, isto é, de ter-se que votar na direita para evitar a extrema-direita, é real e claríssimo no horizonte. De forma que toda essa preocupação lulista de salvar o ninho e proteger o ex-presidente, se não for corrigida pragmaticamente, pode produzir o efeito contrário ao desejado: se o Brasil sair das urnas em 2018 dividido entre direita e extrema-direita, aí sim é que Lula pode ser considerado realmente enterrado.

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