Evento propõe debate sobre cinema e saúde mental

Evento propõe debate sobre cinema e saúde mental
Cena de Toni Erdmann (2016), da alemã Maren Ade (Reprodução)

Acontece hoje no CineSesc o CinePsiquê – sessão gratuita de cinema dedicada a relacionar a sétima arte à discussão sobre transtornos mentais. Nesta edição, será projetado o longa Toni Erdmann (2016), da alemã Maren Ade, seguido de um bate-papo com o psicanalista Christian Dunker e o psiquiatra Daniel Martins de Barros (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo – IPq) e mediação do jornalista Sandro Macedo. A ideia, segundo Dunker, é mostrar como o cinema é “uma fonte fundamental para debater e pensar a psicanálise em nosso tempo”.

“Temos, de um lado, a narrativa, com seus personagens e seus enredos – que foram explorados pelas análises de Freud sobre nossa identificação com a trama -, e de outro as estratégias de como se mostra e como se produz certos efeitos, de corte, de iluminação, de tensão e de distensão, que Lacan nos ensinou a pensar”, diz Dunker à CULT.

Com organização de Simone Yunes, o CinePsiquê acontece mensalmente no CineSesc, na região central de São Paulo, sempre em parceria com o IPq. A cada edição, um filme da programação Sesc serve como base para debates entre profissionais da saúde, do cinema e dos direitos humanos. Entre os participantes que já passaram pelo evento estão Maria Lucia Homem, Tales Ab’Saber, Ilana Feldman, Luiza Coppieters e Jean Claude Bernardet.

Não há, segundo a organizadora, restrições de gênero cinematográfico ou país de origem para a seleção das obras abordadas no evento: “Só tentamos trazer filmes que proponham debates instigantes sobre questões psicológicas latentes de nossa época”, diz ela. Longas como Antes do fim (2017), Coração de Cachorro (2015), Party Girl (2013) e Mataram meu irmão (2013) já foram assunto dos debates promovidos no CinePsiquê.

Para Dunker, é a contemporaneidade das películas escolhidas que chama atenção no evento, já que os filmes atuais traduziriam melhor “as diversas formas de sofrimento dos dias de hoje” e permitiriam um debate mais afiado. “Estas obras trazem a dimensão política e clínica da angústia dos nossos tempos ao atualizarem o debate psicanalítico em relação às questões de gênero, de raça e de classe. É uma nova chave crítica”, completa.

Desde 2013 e sempre no mesmo formato, o CinePsiquê já realizou mais de 40 exibições de filmes seguidas de debates. “A ideia não é seguir uma linha única dentro da psicanálise, como a junguiana ou a freudiana, mas propor um olhar mais profundo para os assuntos relacionados à saúde mental, de modo que o público possa interagir com o tema”, aponta Yumes.

Em abril, o filme escolhido é o alemão Toni Erdmann, sobre uma filha workaholic que se vê importunada por um pai inadequado, piadista e estranho que tenta se reconectar com ela. “É um filme sobre a nova tensão entre gerações”, afirma o psicanalista. “Pessoas que são adultos precoces, funcionalmente orientados, que se esquecem e têm vergonha dos pais que os lembram, por sua própria existência, que um dia eles já foram crianças dependentes e vulneráveis. A esquisitice, portanto, não é só inadequação e desvio, mas forma de resistência e desejo de reconciliação, como filme mostra muito bem”.

Para além dos debates, o fundamental do CinePsiquê, na opinião de Yumes, é a profunda relação entre cinema e psicanálise. Para ela, assistir a um filme no escuro e no silêncio “faz a pessoa entrar em contato consigo de uma forma que, por vezes, pode ser curativa”.

Já Dunker vê o evento de forma mais ampla: como uma maneira de inscrever a saúde mental no debate público brasileiro. “A psicanálise participa, junto com diversos outros movimentos, do esforço coletivo para pensar este novo momento do país, e o ciclo [do Cinepsiquê] faz parte do processo pelo qual descobrimos que a boa clínica é uma crítica social feita por outros meios”, diz.

CinePsiquê
Dia 19/04, às 19h, no CineSesc; Rua Augusta, 2075, Cerqueira César, São Paulo – SP
Grátis, com distribuição de ingressos uma hora antes da sessão.

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