Coletivo de psicanalistas realiza atendimentos gratuitos no centro de SP

Coletivo de psicanalistas realiza atendimentos gratuitos no centro de SP O psicanalista Aldo Zaiden realiza atendimento na Clínica Aberta de Psicanálise, na Casa do Povo, em São Paulo (Foto: Ica Martinez)

O grupo agora trabalha para que a iniciativa se espalhe para outros pontos da cidade, a começar pela praça Roosevelt

 

Andrea*, 24, vive na zona leste de São Paulo e se sustenta com uma bolsa de pesquisa que recebe da universidade onde faz o curso de  Letras. O dinheiro é suficiente para seus gastos com livros, alimentação e transporte, mas não cobre o tratamento que, desde que passou a sofrer com crises constantes de ansiedade, mostrou-se tão necessário quão pouco acessível. Na manhã do dia 8 de abril, um sábado, a estudante se distraía com a tela do celular enquanto esperava que seu nome, escrito à mão em uma lista de espera cor-de-rosa, fosse chamado por um dos psicanalistas de plantão.

Ela está na Casa do Povo, associação cultural sexagenária do bairro do Bom Retiro que desde o último dia 1º de abril hospeda, além de outros projetos, a Clínica Aberta de Psicanálise. “Aberta” porque não exige dos interessados hora marcada com antecedência ou pagamento na saída. Trata-se de um coletivo de psicanalistas que utiliza aquele espaço para realizar atendimentos semanais gratuitos – sempre aos sábados –, com duração de uma hora, em quatro horários diferentes.  

Quem explica o conceito por trás da iniciativa é Tales Ab’Saber, psicanalista, doutor em Psicologia Clínica/Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae: “Uma questão que nos interessa é não apenas a socialização da experiência da psicanálise, mas a necessidade contemporânea de se criar espaços em que se produza subjetividade, trabalho e vida fora da lógica do mercado”, afirma. “Isso é um problema político contemporâneo de todos nós. O horizonte é pós-capitalista.”

Ab’Saber compara o funcionamento da clínica aos bólides de Hélio Oiticica, estruturas manuseáveis adicionadas às obras do artista entre 1963 e 1967. “Aquelas formas rompiam com a história da arte moderna, mas a continham. De repente, todos os elementos de cor, forma e estrutura que a arte moderna explorou estavam funcionando em outro lugar, muito mais próximo do mundo e das coisas.” De maneira semelhante, é de interesse do grupo romper com o lugar econômico-social da psicanálise, retirando-a unicamente dos consultórios privados, da lógica do dinheiro, e fazendo-a operar de maneira ampla na vida da cidade e das pessoas.

Fachada da Casa do Povo, na região central de SP (Foto: Ica Martinez)

O desejo não é novidade entre a comunidade psicanalítica brasileira. Já em 1973, Anna Katrin Kemper e Hélio Pellegrino fundavam a Clínica Social de Psicanálise do Rio de Janeiro, cobrando valores irrisórios pelos atendimentos. “Para o pobre mesmo, para o operário, a ideia de fazer terapia é tão remota como a de comprar um Mercedes-Benz”, dizia Pellegrino, escritor, psicanalista e militante de esquerda.

Hoje, universidades, institutos de formação e outros grupos autônomos de psicanalistas também oferecem esse tipo de serviço – além dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), dos CERSAMs (Centros de Referência em Saúde Mental) e dos NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial), que integram a rede do Sistema Único de Saúde (SUS). O que a Clínica Aberta postula como novidade é a estrutura de trabalho colocada em prática, baseada num revezamento de analistas que, segundo Ab’Saber, torna o projeto “sustentável”.

“Há todo um redesenho do setting. Entendemos que quem está atendendo a essas pessoas não é o indivíduo analista, mas o grupo. Essa ideia nunca foi pensada antes, e tem a ver com o desenvolvimento do entendimento da psicanálise”, afirma. O método, no entanto, está longe de ser unanimidade entre os profissionais da área, que questionam a eficácia de um tratamento oferecido dessa maneira, sem a construção de um vínculo entre analista e paciente.

Trama político-social

Apesar disso, a procura tem sido alta. Em três fins de semana, 96 pessoas foram atendidas, muitas delas depois de ficar sabendo do projeto pela internet. Foi o caso da assistente social Marcia, 56, que esperava a sua vez para o seu primeiro atendimento na Casa do Povo.

“A gente vive um momento político muito complexo e doloroso, carregado de muitas perdas para quem ao longo da vida lutou para construir direitos”, afirma à reportagem, antes de ser chamada. “A clínica tem uma radicalidade que não é só de discurso. Ela abre a possibilidade de quem vive essa dor – e não tem como pagar por um serviço para lidar com ela – saber transformá-la em algo produtivo. Foi o que me trouxe até aqui.”

Bruno, massagista de 25 anos, compartilha de um sentimento semelhante. “Tenho escolhido me isolar, falta coragem de me colocar no mundo. Acho que está tudo muito violento, mesmo que veladamente. Me sinto muito fechado, não tenho saído de casa.”

Seja no âmbito privado ou coletivo, a política invade os consultórios, “mesmo quando os pacientes evitam olhar para isso”, diz um dos psicanalistas do grupo, Aldo Zaiden. Isso porque “ninguém sofre no vazio”, como afirma Ab’Saber, mas envoltos por um contexto, uma trama que é política e social: “A clínica também é um lugar de recuperação do sujeito político, que pode ser alienado e violentado a ponto de ser alcançado em suas raízes inconscientes”, diz o psicanalista.

Segundo ele, no caso de uma clínica aberta a qualquer um que se interesse, é possível identificar mais claramente a dimensão de “laboratório social” da psicanálise, ou seja, enxergar a sociedade por meio da singularidade do indivíduo. “Sob a forma de um, é o mundo que está ali”, afirma. “As pessoas estão sofrendo numa marca individual e num sistema de mundo. E existem certos padrões: imensos circuitos de violências privadas, relações degradadas. Muitas pessoas nos procuram para se perguntar por que são tratadas como lixo em suas casas. Isso é um sofrimento, uma dor pessoal, mas também um sistema geral de linguagem de relação de poder”.

Zaiden questiona por que, então, apenas pessoas com dinheiro podem cuidar de si por meio da psicanálise e se abrir à vida inconsciente? Um acompanhamento psicológico particular pode chegar a R$ 346 a sessão, de acordo com o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. Item de luxo em um país no qual trabalhadores recebem um salário mínimo de R$ 937.

“O SUS está abarrotado, não consegue dar esse suporte pra gente, e as clínicas particulares são muito caras”, reclama Andrea, apoiada por Marcia. “Uma boa psicanálise custa um valor que uma pessoa de classe média não dá conta de pagar. É muito elitista. Fica claro que não é para qualquer um”.

Para Zaiden, a elitização da prática vem de uma opção liberal do campo psicanalítico, que faz o desejo de clínica ser controlado por uma estrutura privada que não faz parte da “ordem natural das coisas”. “No mundo do dinheiro, é claro que os analistas precisam ofertar esse serviço por um preço”, diz Ab’Saber. “Mas existem potências extramercado. A psicanálise pode existir no mundo por outro circuito.”

O grupo agora trabalha para que a iniciativa se espalhe para outros pontos da cidade, a começar pela praça Roosevelt. Analistas de outros estados, como Minas Gerais e Paraná, estão interessados em organizar grupos semelhantes nas capitais. Mas, em tempos de desmonte do aparato público, é uma preocupação de profissionais da área que o Estado assuma sua parcela de responsabilidade no cuidado da saúde mental da população, promovendo melhorias nos serviços oferecidos e trabalhando na criação de políticas públicas.

*Os nomes foram modificados para preservar a identidade dos pacientes

(10) Comentários

  1. Boa tarde, sou aluna do segundo ano do Curso de Psicanálise, na escola Centro de Estudos em Psicanálise Clínica WCCA, tenho interesse em participar dos casos, para desenvolver meu aprendizado, e cooperar no que for possível. Sou formada em Pedagogia com pós graduação em Psicopedagogia Clínica e Educacional. Meu contato 11 974053998. Grata

  2. Essa iniciativa é maravilhosa!!! Sempre achei que deveria haver psicólogos e psiquiatras em cada esquina do planeta. Precisamos de ajuda. Todos precisam!!! Parabéns não deixem morrer essa iniciativa. Estou disposta a ajudar. Sou Assistente Social e veja em meus atendimentos essa necessidade.
    Abraaços

  3. A escuta de questões e sofrimentos atuais é fundamental, e nesse sentido a psicanálise precisa buscar alternativas como esta para fortalecer o sujeito. Minerada vamos garimpar nesses circuitos!

  4. Gostaria de participar. Sou psicóloga, formada na 1a turma da USP ( 1961) comespecialidades em ClinicaInfantil ( Sede Sapientiae) Psicanalise ( USP) e Psicodrama ( DO PSP e com Dr Dalmiro Bustos de La Plata – Argentina)
    Tenho consultório desde 1970. Com 78 anos,, atendo em São Paulo- Itaim Bibi

  5. Excelente iniciativa. Que orgulho ver profissionais e cidadãos com esta atitude no Brasil de hoje, onde a exploração e desumanização tomam conta das relações.

  6. O Coletivo Caralâmpia parabeniza o Coletivo de psicanalistas pela iniciativa da Clínica Aberta de Psicanálise, de fato a classe têm se mostrado elitizada, o que foge da prática do Cuidado. Estamos irmanados à Clínica Aberta de Psicanálise!

  7. Concordo com o falecido e eternamente genial Hélio Pellegrino. Cobrar pouco, mas cobrar, sim. Na clínica psicanalítica o valor cobrado faz função no próprio tratamento, e o brilhante professor Ab’Saber disto!!!! Tenho experiência em atendimento de adictos (abuso) de crak, cocaína e álcool, sou voluntária em hospital psiquiátrico há quase uma década. E na clínica particular , em que cobro muitíssimo menos do que o valor de uma sessão “a preço de mercado…”, já escutei mais de uma vez, após eu dizer o valor da sessão: “Gasto muito mais do que isto, por mês, com drogas, baladas etc.” Sim, tem transferência, aí. Poderia ser: no boteco, no spa e não sei mais o quê. Então, professor, como um “sujeito” vai responsabilizar-se pela sua própria análise? Sem dia nem hora nem custo financeiro? Vão pensar que não há “custo emocional” também (tudo “depende” do analista, e o paciente vai abusar inclusive da psicoterapia – sim, é tratável, eu sei), e talvez abandonem o tratamento, o que é muito comum também na clínica “paga”. Há um custo enorme para os psicanalistas tratarem as pessoas, conforme o tripé: estudo da teoria, análise própria e supervisão. Temos que nos responsabilizar pelo o que estamos oferecendo. E, como dizem os economistas… Não existe almoço grátis. Pra ninguém.

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