Como a vivência cotidiana do racismo pode se converter em traumas

Como a vivência cotidiana do racismo pode se converter em traumas
A psicanalista Maria Lucia da Silva (Arte Revista CULT)

 

Além de desigualdades materiais, o racismo produz marcas psicológicas profundas. É o que a psicóloga e psicanalista Maria Lúcia da Silva observa em suas análises clínicas diariamente: na escola, no trabalho e na família, o preconceito racial provoca traumas, ansiedade, crises de identidade e depressão. É prejudicial à saúde psíquica dos sujeitos.

Esse é um dos temas que Maria Lúcia da Silva aborda em O racismo e o negro no Brasil: Questões para a psicanálise, lançado recentemente pela editora Perspectiva. O livro, organizado junto das psicólogas Noemi Moritz Kon e Cristiane Curi Abud, se propõe a investigar os efeitos do racismo em nossa subjetividade, além de repensar o papel da psicanálise neste contexto.

Em entrevista à CULT, a psicanalista, que também é diretora-presidente do Instituto AMMA Psique e Negritude e coordenadora geral da Articulação Nacional de Psicólogas Negras, fala das consequências do racismo na formação concreta e simbólica de pessoas negras, responsável por construir uma subjetividade “ora calcada no medo, ora na negação de sua história”, e defende uma prática psicanalítica atenta à realidade nacional.

CULT – De maneira geral, como a psicanálise ajuda a entender o racismo?

Maria Lúcia da Silva – A análise psicanalítica apresenta ferramentas para ler alguns fenômenos sociais, e o fenômeno do racismo é um deles. Ela ajuda a pensar a sociedade de uma forma mais ampla, nos ajuda a fazer essa reflexão sobre o racismo e nos possibilita pensar como esse fenômeno afeta o individuo. Ajuda a pensar no sujeito atravessado pelo racismo.

Quais são essas ferramentas?

Nossa base é toda a produção de Freud. Há outros conceitos também, como os mobilizados pela psicóloga Tânia Corghi Veríssimo, que ajudam a entender como o brasileiro se recusa a pensar no racismo. De maneira geral, usamos muito o conceito de trauma. Ele ajuda a pensar como a vivência cotidiana do racismo pode produzir situações traumáticas, que fazem com que o indivíduo, muitas vezes, não consiga sair desse lugar da dor, da angústia, que não consiga compreender o que está acontecendo com ele. Esse conceito ajuda o sujeito, ao se apropriar da sua história, a entender suas mágoas e conflitos.

Mas o racismo gera outros problemas com os quais lidamos na clínica. Ele pode instalar um processo de ansiedade muito grande, por exemplo. Produz angústia, porque você está dentro de situações de humilhação, e instalação da depressão. É importante que o racismo seja trabalhado na análise para que se entenda como ele provoca esses problemas e, no limite, como pode contribuir para o agravamento de doenças e da saúde mental. No Brasil já há algumas pesquisas que nos ajudam a entender os efeitos psíquicos do racismo, mas ainda são pouquíssimas. No que podemos apreender melhor – os processos de depressão, as crises de ansiedade, as manifestações de uma angústia profunda –, constatamos que pessoas negras que apresentam esses quadros têm forte componentes de racismo.

Qual a influência do racismo na formação subjetiva tanto de pessoas negras quanto de pessoas brancas?

A ideologia do racismo propõe a desumanização de um em contrapartida do privilégio do outro. Ele incide no negro no que constitui seu sujeito, seu corpo, sua imagem, que é sistematicamente desvalorizada. Em contrapartida, há um modelo universal que está calcado no branco. Um modelo de beleza, de afirmação da história, das produções universais. Tudo está calcado na Europa e nos Estados Unidos, enquanto a África é apresentada como um lugar paupérrimo, selvagem. São nessas contraposições que o racismo vai se inserir. As humilhações cotidianas vão produzindo marcas no negro. E, com a negação sistemática do Brasil e do brasileiro em relação ao racismo, esse sujeito também sofre algumas distorções na forma como ele mesmo vê a realidade, questionando se aquilo que vive [o preconceito] é real ou imaginário.

O racismo, então, constitui um sujeito que nem sempre dá conta de se apropriar das suas percepções e de acreditar que essas percepções são reais. É ai que o racismo vai produzir suas marcas, lacunas que afetam toda a sociedade. É quase natural, até esperado, que toda vez que eu sair de casa me depare com olhares atravessados, com uma recusa de atendimento, com vigia em um supermercado. A escola também desvaloriza esse sujeito por meio de um ensino que não apresenta a História como ela foi de fato.

São informações que o sujeito interioriza e, com isso, constrói no seu interior uma imagem desvalorizada de si. Recentemente em um curso universitário, para citar um exemplo, uma professora disse que as mulheres negras seduziam os senhores de engenho, que elas os provocavam com sua sensualidade e lascívia. Não se olha para o processo violento da escravatura. A história do negro é deturpada para colocá-lo em uma posição de inferioridade, como um sujeito preguiçoso, vagabundo, não intelectualizado.

Esse movimento psicológico de desvalorização do negro também é um componente da dificuldade do brasileiro perceber e admitir seu próprio racismo?

Isso é muito ambíguo. Em uma pesquisa da Folha de 1988, se não me engano, todos os entrevistados diziam que sim, existia racismo no Brasil, diziam que conheciam algum racista, mas que eles mesmos não eram racistas. Quer dizer, a sociedade sabe que o racismo existe, mas há uma constante negação da sua existência. Quando fazem isso, desmontam as evidências do racismo. Afinal, se você assume que o racismo existe, em seguida vai precisar admitir que ele produz privilégios para alguns grupos. E, ao perceber isso, precisa abrir mão de alguns desses privilégios, o que ninguém está disposto a fazer.

Quais são os efeitos psicossociais do racismo?

Do ponto de vista concreto, haverá resistência e dificuldade da população negra acessar os equipamentos sociais de toda ordem. Isso coloca esse grupo em desvantagem econômica, social e política. Também afeta a a constituição desse sujeito do ponto de vista simbólico. Nesse plano, ele é sempre negado por onde quer que passe. O espaço escolar tem sido um dos lugares mais perversos para a criança negra, onde ela irá aprender que não tem valor (com base em estereótipos que circulam no pátio ou na sala de aula) e onde não terá acesso a informações importantes sobre seus ancestrais. Isso coloca o sujeito num não-lugar, ou melhor, no lugar do destituído. Ele é destruído no próprio âmbito da humanização.

O movimento negro tem atuado de forma a desconstruir as cartilhas. Apesar disso, há uma propaganda sistemática e uma reedição das propostas racistas na sociedade. Além da escola, há a polícia, que atua sobre a população negra caracterizando-os, principalmente os homens, como bandidos.

Esse fatores, juntos, constroem uma subjetividade ora calcada no medo, ora na negação de sua história. O negro não encontra exemplos positivos para se identificar nesse processo de construção da identidade e isso produz uma subjetividade que diminui suas chances de mobilidade e prejudica sua saúde psíquica, já que há sempre uma ideia sobre si mesmo que é preciso desconstruir no outro.

Qual a importância dessas conclusões para a constituição de uma psicanálise brasileira, como Noemi Moritz escreve no prefácio do livro?

O Brasil é predominantemente negro. É composto também por populações brancas pobres e indígenas que precisam ser levadas em conta. Para isso, os psicanalistas precisam conhecer a história do Brasil, saber que estão em contato com um país que viveu um processo de escravização violento. É preciso que admitam a história do racismo para que possam construir uma psicanálise que seja reflexo da diversidade da nossa nação heterogênea. Essa é uma questão. A outra é que é preciso olhar as teorias psicanalíticas à luz de um país em desenvolvimento, um país mestiço, e não a partir de um olhar europeu. É preciso discutir suas bases para que haja uma análise mais condizente com a realidade nacional. E, a partir daí, receber um não-branco em seu consultório e olhá-lo dentro da sua dimensão histórica. Não posso atender um negro sem levar em conta a dimensão do racismo ou o fato de que ele é alvo da polícia 24 horas.

É preciso que os analistas ampliem sua escuta para que, ao ouvir essas histórias, possam fazer um link com a realidade das populações negras (ou indígenas, pobres, mulheres, LGBT), principalmente se o analista é homem e branco. É preciso que a psicanálise possa abrir o espaço de sua escuta para a diversidade, seja física, sexual, do gênero ou racial. Não dá pra aplicar uma teoria sem levar em conta o sujeito que está na sua frente. Além da história individual do sujeito, é importante pensar no racismo estrutural. Porque é o racismo que estruturou e que estrutura todas as instituições do Brasil. Pensar a psicanálise é pensar os lugares de poder que ela ocupa.

(2) Comentários

  1. Importantissima essa abordagem, cuja tematização considero tardia no panorama psi. Negros e não negros no divã.

  2. A psicanálise que eu aprendo não é uma aplicação teórica sobre um indivíduo. É a Escuta de um Sujeito, este tecido por significantes. Para o analista, o cliente detém o saber, a demanda e a sua história. Deve ser escutada. O analista se propõe dar lugar para que, através da fala, o sujeito possa existir na sua diferença e elaborar sua experiência. E aí cabe todas as questões que lhe ocorrem.
    A psicanálise não é a pessoa do psicanalista. Se uma pessoa está ocupando o lugar de analista, porque é um lugar, certamente estará aberta a escutar o sujeito e suas demandas, que incluem as questões e impasses que vive, inclusive o racismo.
    Por outro lado teorizar sobre as causas do racismo e os efeitos sobre o indivíduo é uma possibilidade interessante, pois a partir de uma reflexão provocada pela construção de uma teoria, a psicanálise pode sim, produzir ferramentas que possibilitem questionar e comover pessoas sobre as questões humanas, inclusive o racismo.
    Mas na pratica, no consultório, o analista deve estar aberto ao saber, a verdade do outro. Para isso deve ocupar muito, o lugar de analisando, ter suas questões benditas, para que posso abrir mão, temporariamente do seu desejo e crenças, para o cliente existir.

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