Angela Davis: Os EUA têm muito a aprender com o feminismo negro brasileiro

Angela Davis: Os EUA têm muito a aprender com o feminismo negro brasileiro Angela Davis em 2006 (Foto: Cortesia de Angela Davis)

 

Nesta terça-feira (25), a filósofa, ativista e militante feminista Angela Davis ministrou uma conferência na Universidade Federal da Bahia (UFBA) intitulada “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”, na qual sublinhou o quanto os Estados Unidos podem aprender com a luta das mulheres negras brasileiras, especialmente quando o assunto é organização contra o sistema carcerário, perda de direitos constitucionais e violência institucionalizada.

Segundo Davis, existe uma concepção de que as formas mais “avançadas” do feminismo negro estariam nos Estados Unidos, o que, para ela, não passa de uma concepção imperialista da própria luta. “De fato, há muitas figuras importantes por lá, mas deveríamos reconhecer que isso não é porque ‘somos mais avançadas’, mas porque as ideias viajam com muito mais facilidade dos Estados Unidos do que daqui”, colocou.

No Brasil e no resto do “sul mundial” é que se concentrariam, segundo ela, as mais fortes lutas das mulheres negras. Davis citou o poder feminista preservado na tradição do candomblé, os grupos de mulheres que têm se unido contra o aumento do encarceramento da população negra (que, em dez anos, subiu 500% no mundo inteiro, segundo a filósofa), os movimentos de empregadas domésticas que se organizam “de forma bem sucedida” na Bahia, e as mulheres que têm saído às ruas desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Davis homenageou brasileiras negras importantes para esses movimentos, como a presidente do sindicato das domésticas em Salvador, Marinalva Barbosa, e a escritora Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo (1960), que “nos lembrou que a fome deveria nos fazer refletir sobre o futuro”.

A feminista também lembrou da antropóloga baiana Lélia Gonzalez, co-fundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e do Olodum. “Muito antes do conceito de interseccionalidade ter sido utilizado, ela colocou em pauta a complexa relação entre raça, classe e gênero, incentivando também as conexões das comunidades negra e indígena”, disse. “Os Estados Unidos têm muito a aprender com o feminismo negro brasileiro.”

A conferência fez parte da programação do Julho das Pretas, conjunto de ações que começou no início do mês para marcar o mês da Mulher Negra Latina e Caribenha – todas organizadas pelo Instituto Odara em parceria com o Coletivo Angela Davis, o Núcleo de Estudos Interdisciplinar da Mulher (NEIM), a UFRB e a Universidade da Bahia (UFBA).

Angela Davis e o Brasil

O evento não foi o único que trouxe Angela Davis ao Brasil. Entre os dias 17 e 21, a filósofa ministrou algumas aulas em Cachoeira (a cerca de 120 quilômetros de Salvador), em um curso sobre feminismo negro e descolonialismo, que atraiu pessoas de toda a América Latina, da América do Norte, da África do Sul e do Caribe.

Davis já é uma figura bem conhecida por aqui. Ela mantém relações estreitas com o país pelo menos desde 1997, quando foi trazida pela primeira vez a São Luis do Maranhão e se interessou pelas formas de combate ao racismo e ao machismo, em especial nos terreiros de candomblé. Ao longo desses dez anos, voltou mais cinco vezes ao país, e nesta terça (25) chegou a prometer que aprenderia português para não precisar de intérprete na próxima visita.

Muito antes disso, porém, Davis já encontrava ecos no Brasil: na década de 1980, o Movimento Negro Unificado (MNU) via na filósofa sua principal fonte de inspiração – já que faltava, na época, referências de mulheres negras que, como Davis, se colocassem na luta antirracista com tanta força midiática.

“Cada visita que fiz ao Brasil tem me trazido muitos insights. Desde a primeira, com Lélia Gonzalez, em 1997, até a escola de feminismo negro descolonialista em Cachoeira, este ano”, afirmou, no evento.

O contato com a filósofa teve efeitos importantes na luta brasileira. Um deles foi o Coletivo Angela Davis, também conhecido como Grupo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Subalternidade da UFRB. Mais recentemente, com o encarceramento de Rafael Braga, único preso nas Jornadas de Junho em 2013, grupos de ativistas se inspiraram nas campanhas de libertação de Angela Davis, nos anos 1970, para tentar soltá-lo.

“Aos poucos, passei a questionar meu papel de trazer o feminismo negro ao Brasil. Percebi que nós, nos Estados Unidos, somos as que mais precisamos aprender com o conhecimento produzido pelas longas histórias de luta do feminismo negro brasileiro”, disse.

Trajetória conturbada

A história de Angela Davis tem sido marcada pela luta em defesa dos direitos femininos e das pessoas negras desde a década de 1970. Ela foi militante comunista, fez dura oposição à Guerra do Vietnã e era membro do grupo Panteras Negras. Era odiada pelo então presidente americano anticomunista, Richard Nixon, mas amada por figuras importantes da época, como John Lennon e Mick Jagger.

Acabou se tornando mundialmente famosa depois de ter entrado para a lista dos mais procurados do FBI e por ter sido presa injustamente, em um dos processos criminais mais racistas de que se tem notícia – e depois do qual ela se tornou uma ferrenha defensora da abolição do sistema carcerário.

Davis estudou na Universidade de Frankfurt, onde foi aluna de Jürgen Habermas e Theodor Adorno. Depois, de volta aos Estados Unidos, teve que batalhar contra o governo anticomunista para lecionar na Universidade da Califórnia. Ao longo da carreira, ela lançou 12 livros, entre eles Mulheres, raça e classe (1983) e Mulheres, cultura e política (1990), ambos publicados no Brasil recentemente pela Boitempo. Hoje, é uma das mais respeitadas estudiosas de gênero, raça e classe.

Errata: a conferência de Angela Davis mencionada no texto foi na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e não na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFBR), como anteriormente publicado.

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