A discriminação como bom negócio eleitoral

A discriminação como bom negócio eleitoral
"Eu voto numa cachorra/ mas eu num voto em você!”, escreve o poeta Cícero (Arte Revista CULT)

 

Fim da Copa. A partir de agora, as redes sociais devem ser dominadas por outro assunto que, curiosamente, tem dividido e incendiado mais as torcidas brasileiras do que o próprio futebol: as eleições. A menos de três meses do primeiro turno, amadurece o time de candidatos que deve, de fato, estar nas urnas: o principal candidato está preso e seus adversários não escondem o propósito de mantê-lo preso para não participar das eleições; alguns nomes que se apresentavam como pré-candidatos saem de cena; as alianças vão ganhando força à direita e à esquerda (e, claro, no imenso “centro” em que cabe tudo, menos o que for verdadeiramente de esquerda). Conforme as candidaturas são confirmadas, as polarizações dentro do eleitorado se acirram.

E é nesse ponto que começa o “debate” nas redes sociais. Cada torcida vai para o ataque com as armas e os hábitos que tem. Em parte, defendendo seu próprio candidato. Em parte, atacando o candidato dos outros e, claro, atacando os outros por causa de seu candidato. Esse ataque cada vez mais pessoal – ao eleitor – se tornou a regra entre nós, ainda que isso signifique, no geral, atacar amigos, parentes, conhecidos, inclusive aqueles que constam do restrito círculo dos seus contatos do telefone.

Na semana passada, um vídeo que circulou nas redes sociais me fez pensar novamente sobre esse tema. A poeta Adelaide Ivánova divulgou um vídeo com o poeta Cícero de Sousa, de Serra Talhada/PE, declamando um poema em que responde ao ataque de Jair Bolsonaro, que, num outro vídeo, ofereceu capim aos eleitores de Lula. O poema de Cícero vai direto ao ponto: mostra que a discriminação contra o eleitorado de Lula é parte do conjunto de discriminações que Bolsonaro defende: machismo, racismo, homofobia, contra nordestinos etc. Cícero questiona: “não sei como conseguiu/ ser deputado federal/ discriminando mulher,/ negro, homossexual”. E conclui: “digo a última, seu porra:/ eu voto numa cachorra/ mas eu num voto em você!”.

A primeira coisa que me chamou atenção, ao ouvir o poema de Cícero, é que ele se dirige diretamente a Bolsonaro. Não faz um ataque direto aos eleitores (de raspão, deixa ali um “só quem é cego não vê”), mas ataca o próprio candidato, ao passo que o candidato em questão sempre aposta no ataque aos eleitores de seus adversários para passar a imagem de que seu eleitor é “mais qualificado”, “intelectualmente superior”, o que é bastante coerente com a postura preconceituosa em que se baseia sua campanha. Aliás, esta é a única base discursiva de sua campanha, o que explica o fato de Bolsonaro não se expor ao debate com os demais candidatos sobre os complexos temas que fazem parte da rotina da presidência da República, preferindo limitar sua imagem ao que aparece em pequenos vídeos com piadas e frases de efeito.

A inteligência do poema de Cícero de Sousa percebe essa questão que me parece mais perturbadora a cada eleição no Brasil: o poeta nos diz que não sabe como alguém conseguiu ser deputado federal “discriminando mulher, negro, homossexual”. Mas ele sabe, nós sabemos: a cada eleição, temos visto a ascensão de candidaturas igualmente baseadas em discriminações e outras formas de violência, que se apresentam como a solução para os problemas do país. De uns tempos para cá, tem sido um bom negócio, em termos eleitorais, defender a discriminação de uma parte da sociedade contra outra, mesmo rasgando a Constituição e o conjunto dos direitos fundamentais.

Quando nós, a exemplo do poeta Cícero de Sousa, nos espantamos com o fato de alguém se eleger deputado federal com um discurso discriminatório, estamos tentando negar uma verdade dolorosa: Bolsonaro não recebe seus votos, há tanto tempo, “apesar de” ser escroto. Ele os recebe “em razão de” ser escroto. Quem vota em Bolsonaro não o faz porque “perdoa” ou “desconhece” seu discurso racista, machista, homofóbico etc. Pelo contrário, o eleitor de Bolsonaro procura um candidato em que identifique a defesa desses valores que também são seus: o racismo, o machismo, a homofobia etc. como soluções para o que considera serem os problemas do país. Sad but true.

Dei uma olhada em alguns comentários ao poema do Cícero de Sousa e reparei algo que confirma essa impressão: o eleitor do Bolsonaro não se preocupa em negar o que é dito no poema (quanto ao racismo, machismo, homofobia, discriminação contra nordestinos etc.), mas se limita a atacar quem o diz, ainda mais se quem o diz é um nordestino pobre cercado de nordestinos pobres. Se Cícero critica Bolsonaro por mandar o eleitor de Lula comer capim, o eleitor de Bolsonaro reage, à maneira de seu candidato, mandando Cícero comer capim… Ao invés de abrir a oportunidade para repreender as discriminações do candidato, o apoio se radicaliza.

E isso nos ensina algo a respeito da estratégia do debate que temos usado à esquerda. Aquilo de que acusamos um candidato é justamente aquilo de que ele pode se vangloriar junto ao seu eleitorado. Quando dizemos que ele é racista ou machista, lá do outro lado alguém vai dizer: “é isso aí!”. Vale para as “ideias” de Bolsonaro como vale para o “neoliberalismo” do PSDB: onde a esquerda acusa um problema, o eleitor deles tem visto uma solução. Em resumo, o “negativo” se converte em “positivo”.

Não é fácil desfazer as camadas de discurso que se acumularam por aqui contra os direitos humanos, levando tanta gente a acreditar que não ser escroto é ser “politicamente correto”, e também contra o Estado, as empresas públicas, os sindicatos, os partidos, as universidades públicas, os direitos sociais. Tudo isso criou um ambiente em que só fazem sentido – e rendem votos – a defesa da violência, a discriminação e outros discursos radicais contra os setores marginalizados e/ou identificados com quaisquer vias democráticas para melhorar as condições de vida no país.

Lidar com isso, na ligeireza e superficialidade da troca de provocações e xingamentos pelas redes sociais, definitivamente não é fácil. Contamos três décadas de uma Constituição repleta de direitos fundamentais, para hoje e para o futuro, mas não se deu o enraizamento desses direitos como parte incontornável do debate político. Nem mesmo nos lugares que, em tese, deveriam estar mais próximos de uma pretendida “cultura dos direitos humanos” (como as escolas de direito, os tribunais etc.), há muito a comemorar. Há bem pouco, na verdade, muito pouco.

Não surpreende, assim, que consigam se destacar nas urnas os candidatos que surfam na onda da discriminação e que possam fazê-lo com tamanha desfaçatez. Mas, sob o impacto do poema do Cícero de Sousa, devemos admitir que nada do que temos feito tem conseguido evitar que discursos discriminatórios sejam um bom negócio nas eleições. É a partir daí – e com urgência – que a luta deve continuar.

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