À esquerda: sempre, mais

À esquerda: sempre, mais
Só entre as ideias de esquerda existe espaço para que as de direita também possam debatidas (Arte Revista CULT)

Já faz tempo que caiu a tese de que essas pessoas que se vestem de verde e amarelo sob as ordens do MBL e de outros “movimentos” vão às ruas porque são contra a corrupção. Não se trata disso, obviamente, porque, se fosse verdade, elas não voltariam para casa enquanto não fossem tomadas as devidas medidas contra Temer, Aécio, Serra (aliás, cadê o Serra?) e todos os outros notórios envolvidos nas mesmas denúncias da Lava Jato que costumam alardear. Elas vão para a rua porque detestam Lula.

Se fossem mesmo contra a corrupção, não teriam votado em Aécio na última eleição, tampouco correriam o risco de votar em Alckmin ou Bolsonaro na próxima. Se o fazem, definitivamente sua causa não é a do combate à corrupção. Assim como não são contra a corrupção aqueles que aproveitam o verde na camisa da CBF para defender uma ditadura que, em qualquer pesquisa superficial, brilha como mais um período de ampla corrupção entre Estado e empresários neste país (aliás, cadê o Maluf?).

Em nossa sociedade não existe, a rigor, esse repúdio à corrupção. Em geral, nosso ódio às “vantagens indevidas” só aparece na boca de quem não pode delas tirar proveito (enquanto delas não puder tirar proveito). De resto, conheço muitos “justiceiros” que não pensam duas vezes em tirar proveito da proximidade com alguma autoridade – seja o vereador, o policial, o porteiro, o servidor, o fiscal, seja quem for que possa garantir alguma vantagem ou privilégio – e, com os mesmos dedos que encaminham as mensagens contra a corrupção, pedem favores a quem puder favorecê-los.

Somos um país de pessoas que detestam o Estado, seus agentes, seus impostos, mas sonham e se dedicam diariamente a passar num concurso público, para pertencer ao Estado, ser um de seus agentes e, claro, ser sustentado por aqueles mesmos impostos. O que mais tenho visto é gente que diz que “o Brasil é foda”, mas não perde a primeira chance de foder o/no Brasil. Chega a parecer uma espécie de “inveja da suruba”. Talvez seja.

É nesse quadro que tento entender o porquê de tanto ódio contra a esquerda. A cada dia, tenho mais firme uma certeza: o que irrita em Lula, no PT, na esquerda como um todo não é esse barulho todo em torno da corrupção. Não é o sítio, o triplex, o pedalinho. Na verdade, toda essa fumaça só se torna realidade porque, antes dela, há uma ojeriza às causas da esquerda, que não começaram no Brasil nem vão terminar aqui.

É o “medo do comunismo”? Pode até ser. E é bem triste para a esquerda pagar essa conta nas condições em que estamos. Tudo que nós gostaríamos é que, de fato, existisse aqui um partido dedicado a radicalizar as pautas do sistema e a propor outras, mais radicais ainda, até sua superação, mas estamos terrivelmente longe disso.

Mas, neste país de desigualdades e ignorâncias colossais absolutamente naturalizadas, até mesmo medidas humanitárias como o Fome Zero e o Bolsa Família são vistas como “coisa de comunista”. Tudo, aqui, que não seja a brutalidade da “tradição, família & propriedade”; tudo que não seja o império do “macho adulto branco” é, para boa parte da nossa opinião pública, “coisa de comunista”, mesmo que coincidam com as mais básicas reivindicações de direitos que ilustram qualquer cartilha liberal.

E é por isso que temos que continuar na luta. Não há prova mais dura de que não conquistamos quase nada nesses 30 anos de Constituição do que ver o debate político e jurídico sendo pautado e constrangido pelas ameaças de homens do exército. Está tudo por fazer: dentro de nossa ficção democrática, para além dela. Principalmente para além dela. E essa luta não é do Lula, do PT, do PSOL, de quem já vem lutando.

É uma luta bem mais ampla, que transcende em muito nosso quadro político atual. Uma luta contra a desigualdade, contra as injustiças sociais, contra a intolerância, contra a violência do Estado e de outras instituições conservadoras, contra as ditaduras do capital. Uma luta para que todos possam viver mais e melhor. Enfim, é uma luta pelo futuro: um futuro que está à esquerda, porque da direita só vem a reafirmação de todas as violências que deveríamos superar. É olhando para as propagandas da direita que entendemos porque a defesa do pior do passado continua ativa em assentos estratégicos da sociedade.

E o problema, é claro, não se reduz aos altos escalões do país. Pelo contrário, estamos nos acostumando a ser atacados em todos os níveis, como se defender ideias, partidos e políticos de esquerda tivesse se tornado crime. Outro dia um conhecido disse que eu era a prova de que o ensino no Brasil era um fracasso, “porque ainda continuava defendendo bandido”. Ele tem razão quanto ao segundo ponto, talvez tenha também quanto ao primeiro, mas fechei totalmente a porta para qualquer convívio com ele. Todo diálogo depende de algumas condições: a primeira delas é que o outro queira dialogar.

Aliás, sinto-me profundamente ofendido quando vejo alguém com quem já tive alguma relação mais próxima defender um regime em que, muito provavelmente, eu seria perseguido pelas minhas ideias. Infelizmente, isso se tornou muito comum, porque só mesmo entre as ideias de esquerda existe espaço para que ideias de direita (até de extrema direita) também possam ser expostas e debatidas.

A direita não quer que as ideias sejam expostas (nem mesmo a ideia de uma divisão do campo político entre direita e esquerda!). Mais que isso: nossa direita quer calar as ideias contrárias, quer prender e matar quem sustenta tais ideias, quer apagar completamente todo o rastro do pensamento de esquerda neste país, entre elas a própria ideia de democracia, porque sabemos que mesmo essa democracia superficial, hoje no Brasil, só faz algum sentido na boca da esquerda. É isso: se garantir alguma liberdade para expressar opiniões e disputar as decisões que afetam nossas vidas for “coisa de comunista”, sejamos.


TARSO DE MELO é poeta, advogado e doutor em Filosofia do Direito pela USP. É, também, colunista da CULT: escreve às terças no site.

(3) Comentários

  1. Excelente meu caro Tarso de Melo sua reflexão. É isto mesmo. Depois da porrada do poema da Sophia de Mello Breyner, você me chega com esse texto, mais do que nunca necessário, neste momento em que o país volta, de maneira tão rápida e escandalosa, às antigas práticas do que a sociologia, a antropologia, a própria política, chama de práticas do atraso, graças à mediocridade, o cinismo, a falta de respeito pelas conquistas do povo brasileiro, dos políticos que ocupam atualmente o cenário do poder central. Escrevo este comentário enquanto o STF julga se pode ou não ser preso o único operário que conseguiu chegar a Presidencia da República. Não vão dormir em paz (se é que sabem o que é paz) enquanto não colocarem na cadeia, num processo tão cretino, a levar em conta, para nós que estudamos o Direito, de completa agressão aos fundamentos que regem todo o seu espírito constitutivo, o único presidente do Brasil que tentou mexer com algumas feridas que continuam a sangrar no tecido social, deste país. Não nos enganemos: por isso está sendo punido. Uma merda, meu caro Tarso, uma merda! O que será de nos?

  2. Sinceramente, “cansa” pertencer a esta nação, isso para dizer o mínimo…
    Como bem destacou, estamos mergulhados em uma ignorância colossal que atinge pessoas de todos os níveis sociais- apesar que na elite existe uma intencionalidade e não uma “ignorância”; porém, não deixa de ser uma elite boçal- Fico “assustada” quando uma pessoa pobre, sem casa própria, e até desempregada, acha que o atual estado crítico do Brasil é para lavar a alma de nós brasileiros! ( trágico e cômico) Que o judiciário esta finalmente punindo os corruptos!! que precisamos de intervenção militar!! quanta ignorância, quanta alienação!!! Na realidade falta-me palavras para expressar tanta burrice…estou estarrecida.
    Mas, não podemos desistir, temos que seguir em frente, de qualquer forma…
    Excelente artigo. Li em seu texto exatamente tudo o que penso desse vergonhoso momento em que estamos cada vez mais caminhando para o abismo. Só não esta pior porque ainda existem meios de comunicação como a CULT. Vida eterna a revista.

  3. Gilmar pensando mais à frente, em chapas como Aécio. Mas duvido muito que um dia nós víssemos um tucano preso. De todo modo, já evita logo qualquer risco. Cadê os amarelinhos com a camisa “Não tenho culpa. Eu votei no Aécio??? Cadê os trolls do João Trabalhador? Kim (kem?) Katacoquinho? O PSDB paulista abriu espaço pra essa gente autoritária e pseudo nova na política e está se implodindo. Plantaram a semente do ódio, agora que colham os fascistinhas e fiquem com seu querido Dória Ralph Lauren.

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