Respiração atada ao tutano dos dias: um percurso por Rastros, de Tarso de Melo

Respiração atada ao tutano dos dias: um percurso por Rastros, de Tarso de Melo
O poeta Tarso de Melo, que lança em novembro a antologia 'Rastros' (Foto: Luzia Maninha)

 

As marcas que a poesia de Tarso de Melo deixam, encardidas de mundo, atingem o osso, a respiração atada ao tutano dos dias. Essas marcas têm um peso, uma gramatura: a de alguém cuja escrita ronda a preocupação com o sustento do corpo — ente tanto físico quanto pulsional, tanto biográfico quanto social. Isso a partir de um país genocida, cuja matriz (ou moenda) escravocrata continua engendrando miséria e morte. Diuturnamente. “Tragédias longamente construídas, sonhos sabotados, desmanches cuidadosos, paixão pelo cadafalso”, lista um poema do autor.

Falar desde o nervo da linguagem é uma vocação, melhor, é uma obstinação do fenômeno poético, que — talhando desejos, defrontando traumas — enterra o dedo, fundo, na gema do real. Um gesto ambivalente: além de explicitar a dor (somática, psíquica e, em última instância, civilizacional), perscruta seu avesso. Ou seja, investiga — e, mais importante, instiga — o outro lado do desconforto. Que não seria, afinal de contas, o prazer, mas a coragem.

De texto em texto, Tarso revitaliza, de modo a desdobrar, tal obstinação, premente e, ao mesmo tempo, imemorial. Sol polimorfo, a atenção dedicada à materialidade linguística — zelosa com o modo como as palavras acontecem, seja na página seja nas ruas — não se furta a meditar, enquanto “o calor escala a luz”, acerca de realidades diversas (e adversas). Pelo contrário: a relação é umbilical. Talvez até amniótica.

A linguagem, o real: entrelaçamento ardido. Para não dizer altamente contagioso, na medida em que contamina — inaugurando e erodindo, fissurando e difundindo — os múltiplos tecidos da experiência. Sem anteparo ou corrimão “em meio à insistente música das sirenes”.

Perpassando os livros que Tarso de Melo publicou até o momento, a martelo lança agora em 2019 a antologia Rastros, organizada pelo próprio autor, com poemas escritos entre 1999 e 2018. O volume é generoso, porque alentado; mais do que uma mostra, constitui uma malha singular, em que os textos, dispostos à revelia da ordem cronológica, estabelecem novos diálogos entre si. Essa escolha (assinalada pelo poeta na nota de abertura) faz ressoar tanto as proximidades quanto as peculiaridades de cada composição.

“Teoria da poesia”, poema selecionado para iniciar o volume, contém um aviso, que nos prepara para a entrada num terreno movediço: “o suor na camisa, na calça, nas meias, / tudo trai a violenta passagem do sol”. Na obra do autor, já extensa, e igualmente na recente antologia, arquitetada com esmero, o estado de vigília é permanente, o que concede a suas palavras o latejar da urgência. Populações as habitam. Sim, populações — destacadamente aquelas desprovidas de qualquer dignidade, devido à truculência humana. Em diferentes partes do globo.

Pois uma claustrofobia um tanto fértil anima essa escrita migrante: ainda que especificidades/enfermidades (visceralmente) brasileiras sejam recorrentes, as fronteiras da nação não a delimitam. Algo notório em poemas como “Somália”, no qual se evoca, enumerativamente, as vítimas de um atentado com caminhões-bomba na cidade de Mogadíscio, em 2017: “vão restar, quem sabe, / esses números / limpos e indistintos / contra a montanha / de corpos destroçados”. No texto impresso, os dígitos se amontam por páginas e páginas — centenas de cadáveres…

Por se tratar de uma produção que compreende pulsões numerosas e amplas, o que se lê ultrapassa a denúncia (ou mesmo o diagnóstico) de mazelas; o vigor da vida também vem à tona, imerso no suor das sílabas. E infiltrado na fermentação dos afetos. O que corre rente ao chão, o que orbita sobre nossas cabeças: tudo alimenta a orquestração versátil — e prolificamente onívora — do poeta. Uma de suas vozes indaga, com aguda leveza: “você já reparou / que o cheiro da tarde / vai embora com o sol / e que a noite / quando apaga sua pressa / acende outro universo / nas suas narinas?”.

Determinadas vertentes temáticas se mostram obsessivas, mas fecundadas, sempre, por uma saudável incompletude — que é calibrada, poema após poema, por procedimentos formais habilmente variados. Sem exaurir a curiosidade, alguns possíveis eixos: a ética da amizade, a asfixia do caos urbano, a presença renitente da poesia nos dentes da rotina, as incontáveis injustiças de que padecem as sociedades contemporâneas, bem como as estratégias de sobrevivência forjadas entre as brechas do poder… Inclusive, não são raras as vezes em que, num único texto, coexistem distintos prismas.

Quanto à modulação compositiva, as peças enfeixadas no volume editado pela martelo reúnem as inúmeras técnicas exploradas por Tarso ao longo de anos. As trilhas acidentadas do verso, os fluxos maciços da prosa: caminhos, encruzilhadas, trincheiras? Faces (e gumes) de um “caderno inquieto”, em constante formulação. Inacabamento e lapidação — uma poética do rascunho, que rejeita a totalidade. Como uma tática antiautoritária.

Hoje, em que governos defensores de uma agenda política no mínimo brutal angariam esforços para exterminar qualquer sombra de cidadania, o lançamento de Rastros oferta uma espécie de contraveneno, capaz de minar o desânimo supostamente inevitável, sobretudo no Brasil. Minar ou dinamitar… Não, hidratar (termo nada bélico). Visto que o desânimo — irmão da depressão — resseca nossas forças. E soterra o fôlego: “estações se sucedem e plantam escaras na moldura / rala do cabelo, cortam a água dos olhos, pregam a língua, / abrem fendas no rosto do desaparecido, do falecido, / do procurado pela polícia, agiotas, família, feitores”.

No entanto, não para por aí. Em conformidade com o que se afirmou há pouco, as pulsões que atravessam a obra do poeta expandem e, assim, complexificam o território em que se movem suas criações — cuja potência refuta, vorazmente, a univocidade: “as palavras”, em especial as suas palavras, “são sempre / suspeitas, surpresas por trás / das certezas”. Nada se restringe a um só feitio; das ruínas da atrocidade, um rumor se ergue (“enquanto / a vida se vinga / em labirinto”). Alinhavando perspectivas algumas vezes convergentes, mas outras vezes conflitantes.

Um poema como “Bangladesh 24042013” dá a ver esse caráter caleidoscópico, que consegue abranger contrastes — sem dirimir o choque ou amenizar a colisão entre elementos adversativos. A composição verbaliza uma imagem atroz (“a foto final, o último fôlego”); no foco, o abraço de duas pessoas que não resistiram ao desabamento de uma fábrica têxtil: “nervos entre vigas (vida, não ouso, / não ouço), o sangue irmanado / ao concreto, o amor sob o pó, / sonhos sob os escombros”. Verso a verso, a tragédia é abordada com uma ternura dilacerante. Aliada a uma empatia que nada apassiva.

Claro que o teor terrível do incidente não é aplacado (nem poderia, nem deveria ser). Entretanto, a catástrofe parece ter sido entranhada pelo poema; em repúdio à indiferença, a imagem, então, gira e gira. Sem lugar no estômago. Quase uma ciranda: “músculos e aço agora enlaçamos o pó / do que éramos, o pó a que fomos, / mil como nós abraçados à morte, / tecidos agora ao que tecíamos, / nossas roupas e as roupas em que / nos tornamos, agora que nosso amor / se chama morte, agora que nosso / mundo é ainda menor, apenas nós, / nosso pó, um nó entre nós e tudo”.

O enleio dos corpos, o serpentear — envolvente, reiterativo — da sintaxe: circuito magnetizante. Que oferece ao texto um andamento espiralar. A ligação do casal, nessa circunstância infeliz, ganha um timbre desconcertante, pela dimensão da fatalidade e, sim, pela voltagem da singeleza com que os versos se costuram, emergindo em primeira pessoa, mas pluralizando as sensações (seriam, na verdade, fagulhas?) emitidas/desferidas. E incontornáveis de tão candentes.

Polinizada tanto por sismos quanto por sutilezas, a poesia, com “um amanhã a cada manhã”, acessa a solidão sem a sedimentar; acessa a solidão, enfim, para a compartilhar — coletivizando vibrações inesperadas. Que irrigam a exaustão. Sobretudo uma poesia como a de Tarso de Melo, onde se juntam (ou, em teias, se conjugam) colapsos e coalizões. Não por acaso, numerosas construções, mesmo que passando rente ao pânico, arejam os pulmões: “no esgoto / fundo o futuro”. Ainda há muito pelo que lutar.

Rastros
Tarso de Melo
martelo casa editorial
320 páginas – R$ 55,00


Casé Lontra Marques é poeta. Publicou Desde o medo já é tarde (7Letras), entre outros livros.

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