Tempo de homens partidos

Tempo de homens partidos
Placa citada por Michel Temer fica em um posto desativado na rodovia Castello Branco (Foto: reprodução/Folhapress)

 

O cara entra no elevador do prédio em que trabalho, um prédio simples, repleto de escritórios de advocacia e clínicas médicas que atendem planos de saúde populares. Ele pergunta para sua mulher com a criança no colo: qual o andar? Ela diz que é o décimo terceiro. “Treze?” – ele esbraveja – “Esse andar já devia ter sido eliminado”. Era a hora do almoço de uma segunda-feira em que a bolsa de valores derretia e o mundo todo se escondia de uma epidemia.

Na caminhada matinal, passo por diversos carros com um adesivo que me chama atenção: “PT não!”. Dias antes, na garagem do condomínio, reparei que o carro de um ex-candidato a vereador pelo PT trazia um outro adesivo: “nem PT nem PSDB”. E o encontro com uma camiseta do RenovaBR. À tarde, leio uma entrevista do “novo” João Amoedo. Perguntado se votou em Bolsonaro no segundo turno, ele diz: “Votei contra o PT. Não me arrependi porque não tinha opção. Achava pior votar nulo ou no PT. Não me surpreende a falta de capacidade administrativa dele, dado o histórico de 28 anos no Congresso”. Muitos dos seus eleitores, certamente, podem repetir essas palavras.

Desde o final de semana tenho pensado muito no filme do Ken Loach, Você não estava aqui (Sorry we missed you). Na verdade, já vinha pensando sobre o filme muito antes de conseguir assisti-lo (li 10 ou 15 textos bem bons sobre ele, porque tenho estudado bastante a chamada “uberização” para um livro que estou escrevendo). O que o filme tem de brilhante do ponto de vista artístico tem de dilacerante do ponto de vista social. Ou melhor: consegue ser tão dilacerante na sua denúncia da “uberização” porque é brilhante como obra de arte. Dilacerante: é a palavra que me veio à cabeça durante todo o filme. De virar o estômago: a expressão que me ocorreu quando um amigo me perguntou o que achei. E acho que esse filme vai ficar ainda muito tempo na cabeça, ou revirando o estômago, como “Eu, Daniel Blake”, filme anterior de Loach, igualmente dilacerante, na forma como mostra trabalhadores absolutamente desprotegidos e os impactos dessa “modernização” nas mais diferentes esferas de sua vida.

À tarde, entro nos portais para ver notícias sobre a bolsa de valores e me deparo com a declaração do ministro da Economia: ele diz estar tranquilo, sua equipe está serena. Tranquilo, serena: palavras fortes à sombra do derretimento da bolsa e da epidemia do coronavírus, ainda mais saídas da boca do ministro de um país em que cerca de 50 milhões de pessoas se dividem entre o desemprego e a informalidade. Vejo um vídeo com o depoimento do ministro para entender: ele atribui a culpa pela “crise”, claro, aos governos anteriores, à desaceleração da economia mundial e ao coronavírus. Da parte dele e de sua equipe, só patriotismo e competência. E algum azar.

Segundo o ministro, o país estava em plena recuperação, mas “desabou a Argentina” e “ocorreu Brumadinho”, que qualificou como “duas tragédias econômicas” (e logo tentou corrigir: Brumadinho foi também uma “tragédia pessoal”, porque Guedes não lida bem com essas coisas “pessoais”, nem mesmo com o vocabulário que se refere à vida ou à morte de pessoas). Guedes diz que a solução é continuarmos trabalhando.

Lembro de Michel Temer citando uma placa da rodovia Castello Branco: “não fale em crise, trabalhe”. Passo sempre por lá. O vento derrubou boa parte da placa desde que Temer tentou nos convencer a trabalhar mais com menos direitos, mas Guedes ainda quer que fiquemos olhando para aquela frase para não ver o que está bem no meio da nossa testa: temos um governo vocacionado à concentração de riqueza, que, para cumprir sua missão, deve destruir toda a proteção social e, assim, garantir aos investidores a lucratividade que esperavam ao apoiar a eleição de Bolsonaro.

É por isso que Guedes diz estar tranquilo: ele não pode deixar o mercado nervoso. É por isso que Guedes diz que “as reformas” são a melhor resposta à crise. E a todos nós cabe apenas trabalhar, quietinhos, cordeiros ordeiros, sem falar em crise, sem questionar se é crise mesmo ou se é uma mudança de modelo que estamos assistindo. E engolindo e sofrendo. Impossível não lembrar, aliás, que este é um governo de caras que acreditam que “o trabalho liberta”. Uma coisa tem sempre a ver com a outra.

Por que está sendo tão fácil para esse governo destruir tantas coisas e tantos direitos que gerações e gerações lutaram para conquistar? Porque, a tomar pelas conversas nos elevadores, nos bares, nas redes sociais, nos adesivos dos carros, a próxima eleição também será dominada por candidatos que vão acelerar ainda mais a destruição do que entendíamos como “trabalhador” – alguém com um mínimo de direitos diante de quem comprava seu tempo, sua força, sua saúde, sua inteligência, e também diante do Estado, para que um dia pudesse viver mais do que trabalhar? A que se deve esse cheque em branco tão amplo nas mãos de Bolsonaro e seus ministros para destruir tudo?

Essas são (algumas…) perguntas que tiram o sono de quem tenta entender o momento e criar condições de enfrentar essa destruição. Para respondê-las, já falamos bastante do ódio ao PT e do impacto que isso teve nas eleições. O tempo vai passando, o trator também, mas tudo indica que teremos mais uma eleição nesse clima “todos contra o PT”. E isso preocupa especialmente porque não se trata, é claro, só do PT, mas de uma negação da esquerda como opção nas eleições, para restringir o leque político a diferentes tipos de direita. Ou alguém acha que esses que estão ostentando adesivos “PT não!” são defensores de uma forma mais radical, mais à esquerda, de defesa dos interesses populares? O que estamos vendo é, ainda, o lema “qualquer um, menos o PT” tomar as ruas, mas sabemos que não é bem “qualquer um”, no sentido democrático. Na verdade, o lema significa “qualquer um à direita, menos a esquerda”.

Aliás, que isso aconteça justamente no momento em que o ataque aos trabalhadores é tão intenso, bem sabemos a quem pode interessar. Já ficou mais do que evidente, com esse tempo de governo Bolsonaro e mesmo desde o golpe contra Dilma, que o verdadeiro alvo das diversas feições da direita estava bem atrás do PT. O tiro foi no PT, que era a bola da vez, mas a bala queria mesmo era atingir a Constituição, os direitos trabalhistas, a Previdência Social, o SUS, as universidades públicas, o serviço público (exceto sua elite) etc. E tem atingido em cheio, com apoio de muitas das vítimas dessas “reformas”… O PT, confundido malandramente com fantasmas caricatos da “esquerda” e do “comunismo”, foi convertido (não sem sua própria participação, diga-se de passagem) no inimigo perfeito para um governo da concentração de riqueza, como o de Bolsonaro, que, a cada passo, deixa os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

A principal tarefa do governo Bolsonaro é justamente moldar o país para os interesses do capital ultraliberal e isso não é possível sem o desmonte de tudo que os trabalhadores criaram, inclusive partidos políticos e outros instrumentos democráticos, para se reunir e lutar coletivamente, defendendo seus próprios interesses em conflito com o capital. Como essa luta está longe de acabar, a ofensiva continua e é por isso que, na próxima eleição, os partidos de direita ainda vão, juntos, fazer adesivos para manter o PT na condição de “inimigo a ser batido a qualquer custo”. Então nossa tarefa é perceber – e fazer perceber – que não é o PT que perde com isso, mas, sim, todos aqueles cuja existência está expressa no nome do partido: os trabalhadores. É da sobrevivência digna de quem trabalha, e não apenas de um de seus partidos, que se trata.


Tarso de Melo (1976) é escritor e advogado, doutor em Filosofia do Direito pela USP. É autor de Rastros (martelo, 2019), entre outros livros.

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