Professor da UFMG traduz textos mesopotâmicos direto do acádio para o português

Professor da UFMG traduz textos mesopotâmicos direto do acádio para o português Arte sobre foto de Jacyntho Lins Brandão (Foto: Filipe Chaves)

Na adolescência, o mineiro Jacyntho Lins Brandão encontrou uma gramática de grego, escrita em francês, no meio de um amontoado de livros que sua mãe herdara de um parente. Começou ali sua aproximação com uma cultura que marcaria sua trajetória.

Hoje, aos 65 anos, 40 anos deles dedicados ao estudo e ensino do grego como professor de Língua e Literatura Grega na UFMG, Brandão finalizou a tradução-concluída ano passado-, direto do acádio, da Epopeia de Gilgamesh, poema épico da antiga Mesopotâmia [atual Iraque] escrito por volta do século 13 a.C. A tradução, que levou dois anos para ser concluída, sai neste mês pela editora Autêntica. Sua base para estudar os escritos originais foi uma edição crítica do poema publicada em 2003 na Inglaterra.

Escrito em doze tábuas de argila que possuem, cada uma, aproximadamente 300 versos, Gilgamesh narra as lendas e cosmogonias mesopotâmicas, com enfoque na história do rei mitológico sumério que dá título à epopeia. Ao ler sobre culturas do Oriente Médio para um trabalho sobre a Grécia, surgiu o desejo de se aprofundar no mundo mesopotâmico.

“O primeiro requisito foi aprender a língua, o que levou ao desejo de traduzir o poema, o que passou a ser meu projeto oficial de pesquisa”, conta o professor. E seu projeto não para com o Gilgamesh. Brandão já traduziu outro poema acádio, A descida de Ishtar ao mundo dos mortos, e prepara sua edição comentada.

Foi durante o doutorado que Brandão entrou em contato com a cultura mesopotâmica, ao frequentar um curso do professor convidado Jean Bottéro, historiador francês especialista no Antigo Oriente Médio. “Depois desse primeiro contato, novamente uma coisa ficou hibernando em mim. Até que, depois de 20 anos sendo professor de grego, resolvi fazer essa tradução do Gilgamesh”, conta.

Para o professor, sair da Grécia é importante pois ajuda a desmoronar o mito do “milagre grego”, “essa ideia muito preconceituosa de achar que a Grécia foi escolhida como início da cultura ocidental, como se a cultura ocidental fosse diferente das outras culturas por conta disso”.

Início da 5ª tábua do Gilgamesh encontrada em 2015 (Foto: Osama Shukir Muhammed Amin FRCP(Glasg))

Aficionado por línguas, Jacyntho estudou russo, francês, alemão e hebraico durante a graduação e, com o acádio, não encontrou muitos problemas. “Comecei a estudar acádio em 2005, mas já havia estudado hebraico antes e, como o acádio é também uma língua semítica, não havia grande novidade do ponto de vista gramatical, embora o sistema verbal seja mais variado que o do hebraico”.

Formado em Letras pela UFMG, seus principais estudos e traduções, no entanto, são sobre a Grécia Antiga, como A poética do hipocentauro (2001), Introdução ao Grego Antigo (2005) e Arqueologia da ficção (2005). Um de seus prosadores antigos preferidos, Luciano de Samósata, foi seu objeto de estudo no doutorado, concluído em 1992 na USP. “Descobri em Luciano uma literatura que me agrada muito, que é meio radical em considerar que, afinal de contas, as coisas humanas são essencialmente ridículas”.

Apesar de brincar que se tornou professor da língua mais inútil, a grega, Jacyntho considera fundamental a cultura antiga: “Estudar poesia antiga é como fazer psicanálise da nossa cultura. De um lado, descobrir, nas convergências, muito das nossas motivações, imaginário e sentimentos. De outro, pela via do estranhamento, experimentar o contato com o outro. Os antigos nos permitem ver nosso tempo e nosso mundo com os olhos que nos emprestam, sua distância, no tempo e no espaço, nos proporcionando mais acuidade de visão”.

(7) Comentários

  1. Concordo com sua observação sobre o Grego não ser o principal símbolo de nossa cultura ocidental. Tristemente, parece que essa ideia nos foi imposta de alguma maneira. No que diz respeito a língua antiga gosto muito do hebraico e Aramaico e teria adorado que nossa cultura tivesse sido mais influenciada por eles. Curto também o Latim! Parabéns!

  2. Sofro de uma paixão muito antiga pela Mesopotâmia . Também sou professora . Adoraria conhecer esse mestre.

  3. Fantástico o professor Jacynto também sou apreciador da história das civilizações antigas desde guri e ávido leitor de História e A. J. Toynbee. Pouquíssimo sei do grego, mas meu sonho é conhecer um pouco, somente o necessário prá ler e recitar alguns versos antológicos de Homero. Sonho que não sei se realizo em dias desta vida. Minha admiração ao erudito capaz de ler acadiano e sumério, além das demais línguas antigas.

  4. Eu tenho um pé atrás com qualquer tradução de línguas arcaicas,principalmente do lar e do grego antigo,Quase sempre escrevem o q acham que é , principalmente em assuntos pra dar veracidade a contos contidos na bíblia q usamos. Nós ignorantes nesses assuntos de linguas não sabemos se realmente aquele texto q chega às nossas mãos é mesmo a tradução correta de um caractere,q muitas das vezes não quis dizer o q o tradutor entendeu…

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