Arcas de Babel: Moisés Alves traduz Elke Erb

Arcas de Babel: Moisés Alves traduz Elke Erb

 

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras. Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Nesta edição, o poeta, professor e pesquisador Moisés Alves traduz e apresenta poemas de Elke Erb, autora de grande destaque na cena poética contemporânea alemã, ainda inédita por aqui.

Moisés Alves publicou Cadernos de artista, Onde late um cachorro doido, Coisas que fiz e ninguém notou mas que mudaram tudo e escrito e dirigido por moisés alves, todos pela Editora Circuito (RJ). Atua como professor e pesquisador de literatura na Uefs e nos cursos de Letras e Cinema da Unijorge. Mora em Salvador, Bahia.

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Berlim, 27 de maio 2018. Conheci Elke Erb por acaso, depois vieram os livros, podcasts, entrevistas, além de toda aquela curiosidade instigada pelas novas paixões. Estava no saguão da Akademie der Künste [Academia das Artes], na ocasião do 19º Festival de Poesia da cidade, evento que reúne anualmente mais de 150 poetas convidados vindos de todas as partes do mundo. Cada ano o festival homenageia um/uma artista, cuja obra seja relevante para a criação poética. Era o ano de Elke Erb.

Estávamos todos no lobby à espera da leitura dos seus poemas por ela mesma – ação muito comum na Alemanha – essa vontade de tornar indiscerníveis voz, corpo e letra  fazendo da boca uma espécie de máquina oral de escrita, quando de repente, sinto o choque e ouço expressões de susto: colidimo-nos, eu e a homenageada da noite. Quase a América do Sul passando por cima da Europa, eu disse. Rimos, rimos pela total falta de sentido do acontecimento, pelo modo às vezes violento que o acaso arranja para que dois corpos se encontrem, e sobretudo, da piada que tentei fazer para esconder como fiquei sem graça. Levamos nossas mãos às distintas partes lesadas. Ganhei um livro. Ela disse >>Sorry, Keine Sorge, No problem, Como você se chama? <<.

Erb é uma das mais prestigiadas artistas da multifacetada poesia contemporânea de língua alemã, ao lado, por exemplo, de nomes como Friederike Mayröcker e Hans Magnus Enzensberger, além de nomes vindos da novíssima geração como Monika Rinck, Uljana Wolf e Ann Cotten.

Elke Erb nasceu em 1938 na cidade de Scherbach e logo mudou-se para a extinta República Democrática Alemã. Dedicou-se aos estudos de História e Pedagogia, trabalhou como editora literária. Traduziu para o alemão escritores como a estadunidense Rosmarie Waldrop, e sobretudo do russo, entre eles poetas como Oleg Jurjew e Marina Tsvietáieva. Tem publicado distintas formas de escrita, desde 1968, que passam por poemas, contos e daquilo que chama de textos processuais. Erb incorpora a seus poemas comentários, descrições, datas, fazendo de alguns de seus livros fortes proposições estéticas de anotação, como se fosse uma “observadora exata das coisas cotidianas”.

A autora de Das dritte Auge: Pünktierungen [O terceiro olho: pontuações] vasculha em quais pontos das coisas mínimas, sutis, pode-se extrair suas latências: ver é uma ação, enquanto a escrita nos leva a ver a coisa como é, e sobretudo, o que ela faz, o que pode fazer. De novo o retorno do poeta como um corpo vidente. Mas de que espécie de vidência se trata? De ver não o que virá, mas aquilo que deve vir, e por isso mesmo, cabe ao poeta forçar a língua para que ajude a instaurar esses possíveis.  Daí a recorrência das questões filosóficas, do poema como intervenção política e do humor surgirem como linhas de força que atravessam sua poética. Através desses procedimentos estabelece E. Erb outra relação com o verso, aparentemente suspenso no poema, para subitamente reaparecer forte diante de nós, seus leitores. Pelo conjunto de sua obra, a artista ganhou o Prêmio Büchner 2020, uma das mais respeitadas homenagens a uma poeta de expressão alemã. Elfriede Jelinek, Ingeborg Bachmann, Alexander Kluge e Gottfried Benn são alguns dos nomes presentes na lista de premiados.

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O poema é aquilo que ele faz
Por onde começo?
Tenho dois pequenos arranjos de palavras aqui com o título

……………………………………………………………………………..<<poesia>>.
O primeiro é de abril de 2017. Outro do século anterior, 07/04/1979.
Até mesmo chamado de poesia pura.

Das Gedicht ist, was es tut
Wie fange ich an?
Ich habe da zwei kleine Gebilde aus Worten mit der Überschrift

………………………………………………………………………………….>> Poesie<<
Das eine ist vom April 2017. Das andere aus dem vorigen
Jahrhundert, vom 4.7.1979.
Es heisst sogar >>Poesie Pur<<

Poesia pura

 

Faz tempo, um galo e asno
Começaram uma amizade
E foram passear juntos no parque.

 

Poesie Pur

 

Ein Esel und ein Hahn,
Die Freundschaft geschlossen hatten,
Gingen einst miteinander spazieren in einem Park

1970

 

Poetas vivem esse século.
E esse naquele e aquele nesse, alguém ultrapassa
enquanto isso, como o restante, um outro vive no meio disso.
Bom e agradável. Endler fica dos 50 aos 90 no mesmo canto.
Aliás os poetas vivem em apartamentos como esse,
Que por exemplo Endler possui, um quartinho no quinto andar, Sem banho, com privada na parte externa, mas ensolarado. Quando o poeta Endler enfia a cabeça na janela,

confere se as latas de lixo estão vazias.

Adolf Endler, poemas, ensaios e outros textos em prosa, nascido em 1930, morreu em 2009, portanto, anos depois, como diz o poema. Ficamos dez anos casados, de 1968 a 1978. Li o poema em voz alta num evento contra a associação de escritores da Alemanha Oriental. Ali mesmo onde eles, do Partido Socialista Unificado Alemão, declararam-se como >>O cérebro da Classe<< (isto é, da classe dos trabalhadores) os mesmos camaradas obedientes que desejavam e pretendiam nos governar.

 

1970

 

Die Dichter wohnen in den Jahrhundert,
Dieser in jenem, jener in diesem, einer lappt über
Der andere mittendrin wie der andere, der auch mittendrin wohnt.
Schön und gut. Endler erstreckt sich von 50 bis 90 in seinem.
Sonst wohnen auch die Dichter in Wohnungen wie dieser,
Die z.B. der Endler besitzt, Quartierchen fünfter Stock,
Badlos, hinterhaus, Aussenklo, aber mit Sonne.
Wenn der Dichter Endler seinen Kopf zum Fernster raus-

………………………………………………………………………………….Streckt,
sieht er nach, ob die Müllkübel leer sind.

Adolf Endler, Gedichte, Essays und andere Prosa, geb. 1930, gest. 2009, also viel später, als in Gedicht steht. Wir waren 10 Jahre verheiratet, von 1968 bis 1978. Das Gedicht habe ich vorgetragen bei einer oppositionellen Veranstaltung gegen den Schriftstellerverband der DDR. Die der Partei, der SED, sie nannte sich das >>Hirn der Klasse<< (nämlich der Arbeitsklasse) gehorsam Genossen im Verband sollten und wollten uns beherrschen.

 

17.9.2015

 

Não pretendo dizer demais. Trago um poço na cabeça. Num pátio. Amoras Tudo bem.

 

17.9.2015

 

Ich will nicht zuviel sagen. Ich habe einen Brunnen im Kopf. Im Hof. Brombeeren. Ahso.

 

14/10/2014

 

Origem do poema: diário.

Coração doendo, só

Um bom conselho sai caro fora daqui.

Ninguém ali.

Este nada é inevitável.

 

14.10.2014

 

Gedichtherkunft: Tagesbuch.

Herzweh, einsames

Da ist guter Rat teuer.

Niemand ist da.

Dieses Nichts ist unausbleiblich.

 

12/4/2000

 

Poesia é uma necessidade vital. Ela cumpre um trabalho social, e não há outro modo a se fazer se não poeticamente.

 

12.4.2000

 

Poesie ist lebensnotwendig. Sie leistet gesellschaftliche Arbeit, und sie kann sie auf keine andere Weise tun als poetisch.

 

O poema é aquilo que ele faz

 

Hei de ler um poema no livro >>Sonanz<< em que se pode dizer, poema é aquilo que acontece dentro dele. Parece um feito, desses à toa, que por alguma razão, aproveitamos tarde. Período de escrita: 2002 a 2006.

Das Gedicht ist, was es tut

 

Ich lese noch ein Gedicht aus dem Buch >>Sonanz<<, von dem man sagen könnte, das Gedicht ist, was in ihm geschieht. Wohl auch ein Tun, doch ein freieres, von dem die späteren gewiss profitiert haben. Seine Schreibzeit: 2002 bis 2006.


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