Arcas de Babel: Adalberto Müller traduz Friedrich Hölderlin

Arcas de Babel: Adalberto Müller traduz Friedrich Hölderlin
Adalberto Müller: 'Hölderlin transgrediu e superou a fronteira entre o clássico e o romântico' (Fotos: Manuel Müller/Reprodução)

 

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras. Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Hoje o escritor, tradutor e professor Adalberto Müller transcria e apresenta “Festa da paz”, longo poema de Friedrich Hölderlin, um dos mais importantes poetas alemães de todos os tempos. Ele aproxima aspectos da poesia de Hölderlin e a concepção da linguagem do povo Mbya-Guarani, numa reflexão instigante e original.

Adalberto Müller é professor da UFF, escritor e tradutor. Foi pesquisador visitante na Universidade de Münster (WWU) e no Instituto Leibniz/ZfL Berlin. Publicou recentemente o livro de contos O traço do calígrafo (Editora Medusa) e a tradução anotada da Poesia Completa de Emily Dickinson (Editora da UnB/ Editora Unicamp). No prelo, além do 2o. volume de Dickinson, está a sua retradução de Partido das coisas, de Francis Ponge (Iluminuras).

***

 

À SOMBRA DOS DEUSES EM FLOR
(Hölderlin e os Mbya-Guarani)

I

FRIEDRICH HÖLDERLIN
FRIEDENSFEIER (1801)
FESTA DA PAZ

Adalberto Müller

Ñande Ru Papa Tenonde
gueterã ombojera
pytũ ymágui. 

Ñande Ru Tenonde, unser Uralter,
war noch am Entfalten seines werdenden Körpers
aus der Nacht der Zeiten.

(Ayvu Rapyta, tradição Mbya-Guarani
ver tradução abaixo)

 

A poesia estranha e sinuosa de Friedrich Hölderlin, grande poeta alemão (ou melhor, suábio) da virada do século 18 para o 19, foi objeto de grandes debates no século 20, um dois quais registrado num célebre ensaio de Theodor W. Adorno (“Parataxis”), que critica a leitura “mistificadora” e descontextualizada de Martin Heidegger. Além dos filósofos, Rainer Maria Rilke e Paul Celan beberam nas águas da sintaxe tortuosa – mas iluminante – de Hölderlin. Veja-se, por exemplo, a presença de Hölderlin no poema “Tübingen, Janeiro”, de Paul Celan, na recente tradução de Maurício Cardozo (A Rosa de Ninguém, 2021)

Antes de Heidegger e de Adorno, Walter Benjamin dedicou um de seus primeiros ensaios filosófico-críticos a Hölderlin, no qual argumenta que a relação entre homens e deuses em Hölderlin representação “plástica” da vida, na qual o universo não é simplesmente algo “dado de presente” aos homens”, muito menos criado para eles, mas é onde há um encontro na “virada do tempo”, no qual homens e deuses estão lançados – e “destinados” (sigo a tradução de Susana Kampf Lages, em Escritos sobre mito e linguagem, Ed. 34).

As interpretações da poesia, da filosofia e das traduções de Hölderlin (ele traduziu a tragédia grega num alemão incompreensível, helenizado) levantam grandes discussões, inclusive no terreno da filosofia. Hölderlin foi amigo e companheiro de trabalho dos idealistas alemães, e chegou a assinar textos com o jovem Hegel. Com este, ele compartilha uma concepção da história como uma força de transformação da criação divina, uma manifestação do próprio divino no tempo (ideia que aparece no poema que traduzimos). Helenista de grande talante, Hölderlin se aproximou tanto dos gregos, que começou converter-se ao paganismo antigo. Digo começou, porque, na verdade, vivendo num mundo cristão, ele jamais poderia deixar de lado a tradição cristã. O mundo dos deuses, ele disse, é “belo ao desaparecer”.

O longo hino “Friedensfeier” é testemunho de uma tentativa um pensamento sincrético, no qual os deuses antigos entram em convergência com mundo cristão, formulando-se um pensamento místico capaz de situar a religião na história, e, de forma dialética (pois Hölderlin manejava tão bem quanto Hegel a dialética, sobretudo a dos pré-socráticos), a história na religião. Logo no início do poema vemos uma cena de “teoxenia”: tal como na Odisséia (17, 485) os deuses se disfarçam e descem para inquirir sobre os humanos após um banquete, os deuses de Hölderlin se encontram num banquete noturno para pensarem os humanos.

Há quem considere que a “paz” no poema se refira ao tratado de Lunéville (1801), no qual os austríacos assinaram uma rendição pacífica com Napoleão. A partir daí, pode-se alinhar Hölderlin com seu contemporâneo Ludwig van Beethoven, que escreveu a sinfonia n. 3 (“Heroica”) penando em Napoleão. Como Beethoven, Hölderlin transgrediu e superou (numa Aufhebung hegeliana) a fronteira entre o clássico e o romântico. Mas também herdou do longo e frutuoso barroco alemão uma linguagem conceptista, que se expressa sobretudo na nas inversões sintáticas, nas volutas de imagens e conceitos. Os contemporâneos de Hölderlin observaram que ele estava “helenizando” o alemão. Na primeira estrofe, e alhures, tentei manter esse efeito helenizante, por vezes recorrendo ao helenismo macarrônico do grande Manoel Odorico Mendes, mas também ao latinismo sintático que aparece no nosso Hino Nacional. O resultado poderá soar um tanto parnasiano, na forma. Mas o conteúdo não é.

Seria ingenuidade prolongar aqui a interpretação do poema. Só chamo a atenção para um de seus motivos recorrentes, o da relação entre natureza e história. Talvez o caráter místico de sua poesia seja este: o de elaborar uma teologia negativa, em que a herança antiga e a cristã convergem rumo a uma filosofia da natureza em que os deuses parevem estar sempre “escapando” da razão. Ao mesmo tempo, o mundo divino parece encantar-se na relação com a natureza.

Se assim for, “Friedensfeier” pode ser lido, hoje, em confronto com o Ayvu Rapita, essa série de cantos teogônicos da tradição oral Mbya-Guarani. Os Mbya-Guarani, cujos remanescentes vivem ainda na fronteira do Brasil e do Paraguay, preservam esses cantos cosmogônicos há pelo menos de dez séculos, e eles só foram transcritos nos anos 1940, por Leon Cadogan e depois estudados por Pierre Clastres. No Brasil, há uma excelente tradução de Josely Vianna Baptista (em Roça Barroca, 2011).

O trecho citado na epígrafe narra a origem de “Ñande Ru Papa Tenonde”, o primeiro dos deuses da cosmogonia, e o modo como ele “desabrochou” em meio a uma “escuridão primitiva”. À medida que lemos o Ayvu Rapita descobrimos que os deuses possuem atributos vegetais e animais, eles vão se desdobrando, e ao mesmo tempo vão sendo observados e auxiliados por outros animais. Assim, retraduzido (e com a licença poética e antropológica) a partir da minha tradução ao alemão, a primeira estrofe que está citada na origem seria:

 

Nãnde Ru, nosso ancestral,
ainda desdobrando o corpo em devir
da noite dos tempos.

 

A chave da teo-cosmogonia mbya-guarani está nessas duas palavras, “gueterã” (gue+tete+rã, um corpo que ainda está para vir) e “ombojera”, forma passiva e impessoal de “(je)ra”. Nessa forma sintética, o que se expressa é nada mais nada menos do que uma criação sem criador: o deus é criado criando-se. Ao mesmo tempo, o verbo está num presente histórico, ou seja, o deus estava se criando (a partir de uma “escruridão primitiva”–  pytû yma”), e continua a se criar, como uma planta que todo ano floresce. Trata-se, portanto, de uma “teogonia do processo”, para lembrar a “filosofia do processo” de Alfred N. Whitehead.

Ao mesmo tempo, a criação do mundo converge com a criação da linguagem (ayvu, a palavra, o verbo, a alma do mundo). Assim, tanto o Ayvu Rapita quanto “Friedensfeier” podem ser tomados como textos “eco-místicos”, matrizes para um pensamento místico-revolucionário para quiçá ajudar a conter o atual desastre ambiental do Antropoceno.

Ao tentar traduzir o primeiro canto Mbya-Guarani para o alemão – por uma necessidade pessoal de fazer falar em mim uma ancestralidade dual, teuto-guarani –, intuí que a dicção mais próxima do antigo guarani estava na poesia de Hölderlin. De fato, a linguagem florescente-arborescente de Hölderlin, além do seu sincretismo, ajudam a reler o guarani por uma ótica alemã. Também vale destacar que o guarani e o alemão compartilham algumas características sintáticas, uma certa tendência à síntese entre imagem e pensamento, que tem em Walter Benjamin – talvez o maior seguidor de Hölderlin – o grande artífice.

Ao longo do poema, anotei algumas referências importantes, que podem abrir novas dimensões de leitura. Agradeço a Patrícia Lavelle as sugestões. Para uma leitura mais acurada do texto alemão, recomendo o livro de Jochen Schmidt: Hoelderlins geschichtsphilosophische Hymnen “Friedensfeier”– “Der Einzige” – “Patmos”, Darmstadt, 1990.

Espero, sobretudo, que a leitura do poema agrade.  

 

FRIEDENSFEIER
FESTA DA PAZ

 

 

(leia o original alemão)

Só lhes peço que leiam esta página de forma bem humorada. Assim, não será certamente incompreensível, ainda menos ofensiva. Se, no entanto, alguns considerarem sua linguagem mui pouco convencional, devo confessar-lhes: não o posso fazer de outra forma. Num belo dia, quase todos os tipos de cantares podem ser ouvidos, mas a natureza, de onde eles provêm, volta a levá-los.

O autor pretende apresentar ao público toda uma recolha de tais páginas, e esta será apenas uma amostra das mesmas.

 


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