Os ‘moradores de rua’ e a banalização do inconcebível

Os ‘moradores de rua’ e a banalização do inconcebível
'Morar' remete justamente ao contrário daquilo para que servem as ruas, lugar de passagem, encontro e troca (Foto: Divulgação)

 

Nunca me acostumei nem me acostumarei a ver as pessoas que “vivem” nas ruas das grandes cidades. Toda vez que leio a expressão “pessoas em situação de rua” ainda me espanto, muito, com a possibilidade de que “morar” numa calçada seja banalizado – para a vida de tanta gente, diante dos olhos de tanta gente. Dói alguma coisa aqui entre as costelas. Nas últimas semanas passei por cidades bem diferentes – além da região metropolitana de São Paulo, em que vivo e circulo bastante, estive no Rio de Janeiro e Goiânia – e em todos esses lugares a paisagem está repleta de pessoas espalhadas pelas ruas: homens, mulheres, idosos, crianças, brancos, negros, índios, com seus cachorros, disputam um lugar à sombra dos prédios em que a vida segue.

Não é uma questão de quantidade, claro, mas a impressão que tenho, em São Paulo, é de um aumento significativo nos últimos anos. Ou talvez uma maior concentração nos bairros em que passo com mais frequência. Não sei dizer. Em grande parte, todas essas pessoas, que são visíveis para quem tem alguma sensibilidade, são invisíveis para muitos “gestores” públicos e institutos de pesquisa. Contra isso, há uma campanha para que o IBGE inclua no censo a população em situação de rua. Uma pesquisa do IPEA de 2015 apontava 100 mil pessoas sobrevivendo nas ruas do Brasil, com uma projeção, para os próximos anos, de aumento no ritmo do desemprego e dos cortes em políticas de inclusão. Deve ser o que tenho encontrado por aí.

No entanto, diante de uma ou de cem pessoas deitadas em colchões molhados ou camas de papelão, nosso espanto, nossa revolta e nossa solidariedade devem ter a mesma intensidade. Não podemos admitir que existam “moradores de rua”: entre tantas expressões problemáticas que usamos para nos referirmos a quem não tem casa, essa me parece ser a mais representativa da falta de lógica e da banalização do inconcebível em que incorremos frequentemente, porque “morar” remete justamente ao contrário daquilo para que servem as ruas, lugar de passagem, encontro, troca, em que a intimidade se desfaz. Se é importantíssimo do ponto de vista político ocupar as ruas, usar as ruas, disputar os usos das ruas, isso não se confunde com relegar uma parcela imensa da população a ter a rua como lugar em que vai dormir, comer, viver.

Eu sei que está longe de ser um traço novo dessas cidades. Bem sei, também, que entre a “situação de rua” e a moradia digna há um abismo gigantesco, em que se escondem dos olhos menos atentos outros milhões de pessoas que vivem em péssimas condições em todos os cantos dessas cidades. Há e sempre houve muito a fazer para superar esse abismo. No entanto, percebi que, nos últimos dias, tem sido ainda mais dolorosa e angustiante a experiência de encontrar “moradores de rua”.

E eu acho que eu sei o porquê: a intensidade do que sinto diante das pessoas em situação de rua decorre diretamente das minhas posições políticas. O sentido que atribuo e a dor que me causa resultam de uma forma de ver o mundo que não admite que a sociedade, em sua composição “normal”, tenha pessoas e famílias inteiras vivendo ao relento, comendo as sobras dos pratos alheios, expostas a toda sorte de violência contra sua dignidade, contra seu corpo, contra sua existência. Sem dúvida, há outras tantas representações de nossa desigualdade brutal que nos são cotidianas, mas o “morador de rua” me parece ser a representação mais radical da irracionalidade dessa sociedade que tudo inventa, tudo produz, tudo resolve, mas que é incapaz de garantir o básico do básico para tantas pessoas. A propósito, não é só o Brasil: se aqui falamos em 100 mil “sem-teto”, os EUA já contam mais de 550 mil homeless; na Europa, mesmo nos países mais ricos, os números também explodiram nos últimos anos.

Aqui ou lá, em 2019, creio que encontrar um “morador de rua” se tornou uma experiência ainda mais violenta, para quem não se conforma com a desigualdade social, porque estamos atravessando um período em que o debate político, em todos os campos, passa a ouvir, com bastante clareza, uma defesa da desigualdade como algo saudável para a sociedade. É impossível que não levemos para as ruas, deixando nossos olhos ainda mais sensíveis, tudo que desaba sobre nós na nova atmosfera ideológica que se instalou no Brasil, nos EUA, nas grandes economias da Europa. Ouvimos os discursos dos mandatários da vez, bem como de seus apoiadores e ideólogos, louvando a liberdade, a competição, o empreendedorismo, o “cada um por si”, a lei do mais forte, e o que encontramos nas ruas são corpos incapazes de se erguer sozinhos.

Por trás de lemas bem-humorados como “mais Mises, menos Marx”, o que está em jogo é muito sério. Estamos recebendo como uma proposta política como qualquer outra um ideário que, na verdade, é a afirmação de um modelo de sociedade mais desigual, mais violento, mais injusto (o que, no caso brasileiro, é ainda mais inadmissível se pensarmos no que diz claramente a Constituição sobre justiça social e seus diversos instrumentos). Está bem longe de ser uma escolha teórica entre Mises e Marx, mas é, sim, a escolha entre uma sociedade em que a desigualdade é um problema a ser resolvido por todos, para melhorar a vida de todos, ou uma sociedade repleta de mecanismos – muros, blindagens, armas, elitização, gentrificação etc. – que afastam de nossos olhos tudo que não queremos ver, tudo que ameaça nosso caríssimo sossego e nossos adorados privilégios. Apenas neste caso, por exemplo, se pode defender que “a universidade é para poucos”, como fez o atual ministro da Educação.

Historicamente, a esquerda se distingue entre as posições políticas pela importância que atribui à igualdade entre as pessoas. Reuniram-se à esquerda, nas mais diferentes formas que esta já assumiu, as pessoas que são atingidas pelas diversas desigualdades que a sociedade capitalista causa e multiplica, mas a elas sempre se juntaram todos aqueles que, mesmo privilegiados ou, digamos, protegidos das desigualdades e preconceitos mais brutais, não aceitam uma sociedade em que qualquer pessoa esteja submetida à violência, à miséria, à opressão. Toda a demonização das ideias, dos partidos, dos políticos de esquerda não pode apagar essa história, muito menos a importância que tal posição tem na sociedade capitalista.

Os discursos da direita, por sua vez, querem nos fazer olhar para cada um dos mais de 100 mil “moradores de rua” deste país como se fossem nossos adversários. Pior (ou melhor) que isso: ex-adversários, porque já não têm mais qualquer chance de competir, que se tornam problemas nossos quando ameaçam nossas propriedades. Desprezando as diversas razões pelas quais alguém sobrevive nas ruas, a mentalidade neoliberal quer convencer que todos são individualmente responsáveis pelo seu destino e que está tudo bem se muitas pessoas estiverem mal, desde que não desvalorizem os imóveis, não interrompam o almoço, não mexam com o que não é seu.

A meu ver, a existência de “moradores de rua” alerta para verdades revoltantes sobre o significado político, econômico e cultural desse sistema que, de tantas maneiras, despreza a vida. Ou enfrentamos essa lógica perversa, denunciando insistentemente o absurdo dessa sociedade da indiferença e da competição (que vale para nossa relação com “moradores de rua”, como vale para todas as outras relações sociais) ou não teremos condições de perceber e combater outros tantos absurdos que nos empurram junto com a promessa de que seremos mais “livres”. Deparar-se com pessoas lançadas à “liberdade” da vida nas ruas deveria, no mínimo, estragar nosso sossego e, no mesmo ato, incendiar as nossas lutas. Há muito combustível bem aí, ao seu redor.

TARSO DE MELO é poeta e advogado, doutor em Filosofia do Direito pela USP. É um dos coordenadores do ciclo de leituras de poesia Vozes Versos (Tapera Taperá) e do selo Edições Lado Esquerdo.

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