Jessé Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero

Jessé Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero
O sociólogo Jessé Souza, autor de 'A elite do atraso', lançado pela editora Leya (Divulgação)

 

Em A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato, Jessé Souza quer fazer o que, em sua opinião, nenhum intelectual da esquerda jamais fez: explicar o Brasil desde o ano zero. Isso porque se ideias antigas nos legaram o tema da corrupção como grande problema nacional – conforme defende no livro -, só mesmo novas concepções sobre o país e seu povo poderiam explicar, de uma vez por todas, que as raízes da desigualdade brasileira não estão na herança de um Estado corrupto, mas na escravidão.

Para tanto, o sociólogo confronta uma das principais obras do pensamento social brasileiro, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda – responsável por utilizar pela primeira vez a ideia de patrimonialismo para definir a política nacional. Jessé compreende que o conceito – segundo o qual o Estado brasileiro seria uma extensão do “homem cordial” que não vê distinções entre público e privado – serve para legitimar interesses econômicos de uma elite que manda no mercado, este sim a real fonte de corrupção e poder.

Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor da UFABC, Jessé Souza é autor de 27 livros, incluindo A ralé brasileira: quem é e como vive (2009), A tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do golpe (2016). Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2015 e 2016, coordenou pesquisas de amplitude nacional sobre classes e desigualdade social. Em entrevista à CULT, o sociólogo critica a existência de uma interpretação dominante sobre o Brasil e aponta os motivos pelos quais a sociedade brasileira em 2017 não passa de uma continuidade da sociedade escravocrata de 500 anos atrás.

No livro você afirma que Sérgio Buarque de Holanda inaugurou uma forma de pensar o brasileiro como negatividade que se estende ao Estado, visão que teria influenciado de Raymundo Faoro a Sergio Moro. Por que essa chave de leitura tem tanta força?

Essa ideia foi montada para defender interesses econômicos. Às vezes me espanto como não se percebeu isso antes. Quando a elite paulistana perde o poder político para Vargas em 1930 – e perde para um movimento de classe média, que estava se formando no país naquela época -, ela começa a organizar um poder ideológico para condicionar o poder político a atuar conforme as suas regras. Isso foi dito, articulado, pensado. Esse pessoal já tinha fazendas de café, as grandes indústrias em São Paulo, já tinha controle sobre a produção material e aí constroem as bases para o poder simbólico – e a sociedade moderna vive desse poder simbólico. Essa elite cria a Universidade de São Paulo, que vai formar professores de outras universidades e que vai produzir conceitos importantes para que essa elite, tirando onda de que está fazendo o bem, faça efetivamente todo mundo de imbecil para que seus interesses materiais e políticos sejam preservados.

Que conceitos são esses?

São duas ideias que nos fazem de imbecis. Uma delas é a do patrimonialismo, em que há uma distorção da fonte do poder social real,  como se o Estado fosse montado para roubar, vampirizar e fazer o mal – e como se nada acontecesse no mercado. Embora seja uma instância de poder importante, no capitalismo quem comanda o poder é o mercado. Há uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até hoje professam esse tipo de coisa. Sérgio Buarque inaugura [esse pensamento no Brasil], depois Raymundo Faoro dá uma profundidade histórica e Fernando Henrique Cardoso transforma isso em teoria; o programa político do PSDB é todo retirado de Raízes do Brasil. Mas também influenciou a esquerda. Sérgio Buarque foi um dos fundadores do PT, fez todo mundo de imbecil, da direita à esquerda. E como a esquerda não tem uma concepção autônoma de como a sociedade funciona, de como o Estado funciona, ela chega ao poder com um plano econômico alternativo, mais inclusivo, e acha que as pessoas por alguma mágica vão perceber que aquilo é bom pra elas. A esquerda nunca fez o que a direita e a elite fizeram.

Por que a esquerda nunca articulou uma narrativa contrária a essa?

Porque foi incapaz. Porque não foi inteligente, porque se deixou imbecilizar. Porque o tema do patrimonialismo é tratado como crítica social: “Olha, estamos descobrindo quais são as mazelas brasileiras, um gene da corrupção de 800 anos que nos toma a todos”. Isso significa que o Estado [teoricamente] vampiriza e não deixa as forças “emancipadoras” do mercado agirem – como se o mercado, em algum lugar do mundo tivesse sido emancipador por si próprio. Os países campeões do liberalismo como Inglaterra e Estados Unidos têm uma estrutura de Estado extremamente forte, foram protecionistas – e depois dizem a outros países serem o que eles mesmos nunca foram. Isso deu esse charme – o “charminho crítico”, como eu chamo – a esse tipo de ideia como o patrimonialismo, que muitas vezes a esquerda comprou.

O segundo conceito chave, também inventado na Usp, foi o populismo, que torna suspeito e criminaliza tudo aquilo que vem das classes populares – inclusive qualquer liderança associada a elas, que são também estigmatizadas e suspeitas de estarem manipulando a tolice “inata” dessas classes. Eu estudei por décadas os muito pobres e eles são muito mais inteligentes do que a classe média. Eles veem a política como o jogo dos ricos em que todo mundo rouba enquanto a classe média se deixa engambelar por esse tipo de coisa. A classe média foi montada para ser idiotizada, é uma espécie de capataz da elite entre nós.

Na história do pensamento social brasileiro nenhum intelectual chegou perto de romper com essas duas ideias, na sua opinião?

Florestan Fernandes saiu um pouco disso porque estudou dilemas e conflitos de classe; Celso Furtado foi outro genial que percebeu coisas importantes que não têm nada a ver com esses esquemas. Mas esses caras não reconstruíram a história do Brasil como um todo. Foi essa a ambição que eu tive nesse livro porque eu percebi que, para atacar esse negócio e dar nele um nocaute, é preciso fazer o que eles [a elite] fizeram: explicar o Brasil desde o ano zero. O que foi, como foi, por que somos hoje o que somos e o que isso implica para o nosso futuro. Eu tentei fazer o que esses caras não fizeram, apesar de termos tido críticos que discutiram aspectos parciais de modo extremamente importante. Mas se não reconstruirmos o todo, as lacunas do que construímos apenas parcialmente serão invadidas pela teoria dominante, daí Florestan usar o patrimonialismo e essa bobagem toda.

Esse pessoal diz que nosso berço é Portugal e que de lá vem a nossa corrupção – uma coisa que me dá raiva de tão frágil, já que corrupção é um conceito moderno que implica a noção de soberania popular que é coisa de 200 anos. O nosso berço é a escravidão, que não existia em Portugal a não ser para os muito ricos. Não era fundante, era marginal, nunca foi mais de 5%, enquanto nós fomos montados nela. Essa teoria sobre o Brasil, que se põe como científica, no fundo não vale um centavo furado. É montada a partir de ilusões do senso comum, como se a tradição cultural fosse transmitida pelo sangue. São instituições concretas que nos moldam, é a forma da família, da escola que faz com que sejamos o que somos.

No livro você comenta que um dos principais problemas do Brasil é que aqui não houve nenhum tipo de reflexão acerca da escravidão. Quais são os efeitos práticos disso na sociedade brasileira, hoje?  

Literalmente tudo. Primeiro há a naturalização da miséria e do sofrimento alheio. Todas as sociedades já foram um dia escravocratas, apenas a Europa, no Ocidente, quebrou com a herança escravista do mundo antigo. Isso significa que embora a pessoa seja socialmente inferior a você, ela não será tratada como uma coisa, mas como um ser humano. E com as lutas sociais por igualdade, são produzidos processos coletivos de aprendizado na qual a dor e o sofrimento do outro podem ser revividos em cada um. Nós, por outro lado, mantivemos essa subhumanidade. Nós não nos importamos com a dor e com o sofrimento dos pobres, as evidências empíricas são claríssimas como a luz do sol, inegáveis para qualquer pessoa de boa vontade. A polícia mata pobres indiscriminadamente – e faz isso porque a classe média e a elite aplaudem. Houve recentemente essa coisa completamente absurda e bárbara das matanças nos presídios, e a classe média aplaudiu. São provas de que temos, como sociedade, ódio aos pobres. Isso veio da escravidão, em que havia uma distinção muito clara entre quem é gente e quem não é. Por isso, não nos importamos com o tipo de escola e de hospital que essa classe vai ter, por exemplo, o que é uma enorme burrice porque estamos criando inimigos, ressentimento. A Alemanha fez um esforço extraordinário para incorporar os 17 milhões que viviam na Alemanha Oriental, tornando seu mercado mais forte, mas aqui a gente simplesmente joga no lixo esse tipo de coisa porque nunca criticamos a nossa herança escravocrata, porque acreditamos nessa baboseira de herança portuguesa da corrupção. Raymundo Faoro tratava a existência de senhores de escravos como algo banal, quando na verdade o senhor de escravo deve estar no centro [da análise], já que todas as outras instituições vão se montar a partir daí. É uma continuidade absurda de 500 anos e nós somos cegos a isso.

Como essa continuidade aparece?

A família dos muito pobres repete há 500 anos a família dos escravos e eles ainda fazem o mesmo tipo de serviço que faziam antes, são escravos domésticos. Fazem parte de famílias desestruturadas, uma vez que na escravidão não se estimulava que o escravo tivesse família porque era preciso humilhá-lo, abatê-lo. Exatamente como acontece hoje. A escravidão só prospera com o ódio ao escravo e o Brasil de hoje é marcado por uma coisa central que só um cego não vê, o ódio ao pobre. A humilhação do pobre. O PT caiu não por causa da corrupção – que pode ter existido, é bom ver as provas -, mas porque tocou no grande pecado de ter diminuído um pouquinho a distância entre as classes. A distância desses 20% para os 80% é a pedra de toque para esse acordo de classes absurdo no Brasil.

O único país que se assemelha a nós no planeta é a África do Sul. Vivemos um apartheid aqui. Governos de esquerda caem, acontecem golpes de Estado toda vez que tentam diminuir essa distância entre as classes. Com isso você constrói dois planetas dentro de um mesmo país, é isso o que temos hoje. Como a classe média não pode transformar esse seu ódio ao pobre em mensagem política – porque isso seria canalhice e temos essa influência cristã -, ela utiliza o pretexto da corrupção já dado pelos nossos intelectuais no tema do patrimonialismo. Todas as elites estudaram em todas as universidades essa mesma bobagem, todo jornal repetiu e repete em pílulas essa mesma imbecilidade, fazendo com que as pessoas internalizem isso como uma verdade absoluta.

Você afirma no livro que a crise atual do Brasil é “também e principalmente uma crise de ideias”. Partindo disso, quanto dessa crise a gente pode colocar na conta da própria esquerda, já que ela nunca se mobilizou para produzir outra interpretação do Brasil?

Ela nunca se mobilizou, isso é uma fraqueza e eu acho que temos que mudar isso. Eu decidi transformar a minha vida nisso, por exemplo. Tem que começar em algum momento. Eu tive sorte porque morei muito tempo fora do Brasil e de algum modo peguei um olhar externo. Tem um grande filósofo que diz que o que propicia o conhecimento é o fato de você conhecer aquele lugar, mas estranhá-lo, ou todas as coisas viram naturais. E se tudo é natural você não interroga, não há dúvida.

Um estudo recente do Instituto Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha mostra que, numa escala de 0 a 10, a sociedade brasileira chega num índice de 8,1 na predileção por posições autoritárias, principalmente entre jovens de 16 a 24 anos. Como interpreta esse dado?

É de fácil explicação. A partir de 1980 há um partido que nasce de baixo para cima. Nunca havia existido isso entre nós, um partido que congrega trabalhadores rurais e urbanos – eu tenho muitas críticas ao PT, mas é inegável que ele foi uma inflexão importante nessa história da escravidão. E ele passa a representar uma demanda por igualdade nessa sociedade perversamente desigual. Quando você afirma que esse partido é uma organização criminosa – usando no fundo aquela ideia do populismo, de que tudo o que vem das classes populares é estigmatizado – você está afirmando que a igualdade não é um fim, mas um mero meio, uma estratégia de assalto ao Estado. Ora, para onde vai a raiva justa dos 80% dos excluídos se ela não pode ser expressa de modo político e racional? Vai ser expressa de modo pré-político, ou seja, violência pura. A Globo e a Lava Jato criaram Jair Bolsonaro, só o cego ou o mal intencionado não vê. Esse namoro com o autoritarismo tem a ver com o ataque midiático, esse conluio entre Rede Globo e Lava Jato, e eu espero que esse pessoal pague por isso um dia.  

No limite, essa chave de leitura inaugurada por Sérgio Buarque serve para justificar golpes de Estado e a Lava Jato, por exemplo?

Sim, a Lava Jato não tem nada a ver com acabar com a roubalheira. Até porque a roubalheira aumentou, isso é visível agora que temos no governo uma turma da pesada. É claro que a corrupção dos políticos existe, mas é uma gota no oceano. Esses caras são meros lacaios do mercado, os office-boy, é o que o nosso presidente é. Se você disser que o sistema inteiro é corrupto e que ele foi montado assim para que o mercado pudesse comprá-lo, aí você estaria esclarecendo alguma coisa, mas quando se diz que apenas um partido, aquele das classes populares, rouba, isso é uma mentira e um crime.

Vê saídas para essa tendência autoritária observada na sociedade brasileira?

Não tem nenhum outro modo, os seres humanos precisam ter ideias, sem ideias não dá para ir a lugar algum. É claro que isso tudo pode ficar ainda pior, a gente pode chegar a formas fascistas, mas o que a elite quer é dinheiro, se for por uma ditadura militar, se for matando gente, não tem nenhuma importância. Fato é que nesse instante de crise estamos com as vísceras à mostra e isso é uma oportunidade de vermos a podridão desse esquema que foi montado por essa elite usando e imbecilizando não só a classe média, e retirando a possibilidade de levarmos a vida de modo reflexivo. O que esse pessoal nos tirou foi a possibilidade de aprendizado da sociedade brasileira baseado na reflexão. E isso é impagável.

(50) Comentários

  1. A análise de Jesse Souza é ousada: desmonta as interpretações ja oficiais de nossa formação social e envereda por uma compreensão que nos permite redirecionar nosso roteiro histórico. Gosto da coragem que a aventura e a disciplinada reflexão de Jessé nos proporciona: tira-nos das estantes empoeiradas e nos lança o desafio de enfrentar a escravidão e o mercado que se esconde por detrás da opacidade do Estado. Parabéns, Jessé Souza, temos por ora um bom debate para sacudir a pasmaceira dos contentes.

  2. Excelente artigo. Pena que em termos práticos não vou cause, em curto prazo, transformações na sociedade brasileira imbecializada até as entranhas.

  3. Concordo com parte, pois cresci acreditando e tendo as mesmas convicções do partido, o que. Me faz analisar hj com outro ponto de vista é que, tudo o que era pra ser se perdeu, e nos ultimos anos de governo via o mesmo modelo de qqer outro partido no poder (propinas, negociatas, mentiras p/ se manter no poder). E nos o povo assistindo como sempre. Ta tudo errado, vamos comecar do zero por favor. Existe sempre coisas boas tanto esquerda qto da direita. Radicalismo tb leva a loucuras.

  4. Jessé é um autor central na pesquisa que realizo sobre as relações entre desigualdades de classe e consumo de mídia. Entretanto, ele, por um lado, simplifica demais as alianças entre a classe média e as elites; por outro, tem uma visão pouco acurada das relações entre mídia e classes sociais. É preciso estudar o consumo da televisão, da internet, etc para poder afirmar coisas tão categóricas. A hegemonia se entende estudando também a mídia e o seu consumo porque as ideologias estão entre nós, nas práticas.
    No mais, concordo inteiramente com o brilhante sociólogo. Ele renova o conservador pensamento da intelectualidade brasileira!

  5. PASSAR o Brasil a limpo desde o ano zero. Como o referencial é nosso, nós o usaremos onde pretendemos, assim sugere-se que transportemos o ponto zero no ano de 1960 e desde ai possamos passar a limpo todas as manifestações até aos anos atuais.

  6. “Cultura não se transmite pelo sangue,a roubalheira continua e o que falta são idéias ” . Ainda não havia lido nada tão verdadeiro neste ano.

  7. Gostei muito da entrevista mas, dizer que a Lava Jato não tem nada a ver com “acabar com a roubalheira”, que o Bolsonaro foi cria da Lava Jato e da Globo (da Globo até concordo) e ainda afirmar que a mídia “diz” que somente o PT rouba é ser muito radical – aja vista onde a mídia (ler-se) Globo está colocando o PMDB o que já havia ocorrido com o PP. Inteligência e cultura não casam com radicalismo!

  8. Muito interessante.preciso aprofundar mais,pois como psicóloga o dominado e o dominador vivem juntos,segundo alguns teoricos são produções ideologicas plantadas no ser , a questão é a escolha,a maioria escolhe o dominador,pq se ver como dominado (embora seja ) não é aceitâvel.

  9. O sujeito vive numa bolha com o salário pago pelo estado, e não enxerga o que acontece à sua volta. Cria um mundo falso para se encaixar em suas teorias marxistas de luta de classes e tenta desclassificar quem não se adapta a seu pensamento.

  10. Análise perfeita.Se aplicarmos o bom senso, habilidade que escola alguma desenvolve, não interessa à essa intituiçao, vamos ter que admitir que numa base acéfala não se pode construir ações concretas e válidas

  11. E fazer o quê então professor Jessé? Se está tudo corrompido segundo sua análise? Pensar diferente? O sujeito vai se lascar nessa sociedade do consumo…Os pobres deveriam fazer alguma coisa? Mas não há os pobres enquanto classe autoconsciente…

  12. Vergonha alheia… O homem é um ressentido que perdeu a boquinha no Ipea e fica agora gritando barbaridades aos quatro ventos… É doido varrido.

  13. Com todo o respeito, meus caros. Esse sujeito é PT declarado, e quer, de forma dissimulada incutir que a queda se originou porque se tentou diminuir a distância econômica social. Só faltou dizer que foi golpe (grande retórica). Francamente. O sujeito tem o disparate de dizer que pode ter havido crime praticado pelos ladrões envolvidos no maior escândalo que se teve notícia; a se provar. Demais. Ademais, a maioria desses sociólogos brasileiros são vendedores de ideologia e, a dele, está evidente. Tendenciosa entrevista. Aliás, neste país tudo é tendencioso…

  14. Escolher a origem de todos os nossos males é um exercício retórico como tantos na literatura nacional. Há, porém, a interessante conclusão sobre tal intuito: entender quando a formação sócio-econômica do Brasil cedeu seus fundamentos às pretensões do mercado. O equívoco, a meu ver, é atribuir à escravatura o papel central de deformação, esquecendo-se que esta foi instrumento crucial, mas não o principal, para a lógica latifundiária agro-exportadora, que prospera desde sempre entre nós. Se o estado brasileiro é inepto para consolidar a sociedade brasileira em verdadeira e pujante democracia, é deliberadamente excelente para manter elites entronadas – numa perene tática de dividir o povo para conquistar o país.

  15. Essa leitura é indispensável e inadiável. A esquerda precisa refletir sobre seu fracasso. Não legitimou um avanço sequer!

  16. Ouvi há poucos minutos uma entrevista do escritor Jessé Souza na rádio Inconfidência e corri pra internet pra sondar o cara. Finalmente, alguém com ideias claras e fundamentadas na nossa triste história de país dominado pela ignorância. Vou comprar e ler o livro! “sem ideias não dá para ir a lugar algum”!

  17. Cara, essa entrevista lavou minha alma. Sou um sessentão, magro, desdentado e feio e senti na carne o que Jesse expõe. E o sofrimento maior foi intuir o que ele diz mas não conseguir verbalizar. Se possível transmitam à ele meu mais profundo agradecimento.
    Um grande abraço

  18. Simplesmente espetacular. O maior intelectual e cientista social Brasileiro que eu já li em toda minha vida. Parabéns e obrigado, Jessé.

  19. Percebo esse tal ódio na pele todos os dias. Não entendia da onde vinha Agora mais atenda penso que saberei lidar com esse sentimento de forma a me defender. Obrigada

  20. Eduardo Galeano, a 4 décadas, já alertava sobre a cruel lógica da economia de mercado no mundo capitalista. Nenhuma dúvida sobre o poder das grandes corporações. Mercadorizaram até a fé. Colocam e tiram governos conforme seus interesses. Embebedam a classe média e mantém a escravidão simbólica das classes pobres. Essa elite minoritária que controla vidas é impiedosa e desuma.

  21. Jessé Souza diz que nossa elite não tem identidade nacional, por isso nosso patrimônio público vai sendo vendido logo e a preço de banana, é como se fosse uma “ave de rapina” nas palavras dele. Por que nossa elite não tem identidade nacional? Ele diz que veio da escravidão, mas não desenvolve suas causas.

  22. Concordo com o fato de que nosso passado escravocrata não repensado é uma das causas fundamentais das mazelas de nosso país, porém nao8 acho que se deve minimizar o problema da corrupção, mesmo porque a esquerda na oposição seria veemente na condenação a eventual adversário corrupto no governo.
    Quanto à demonizacao generalizada das “ELITES” e o “FORA REDE GOBO” que substituiu o antigo “FORA TIO SAN” já não está por demais manjado, desgastado? Será que quem repete isso realmente acredita no que diz, ou é falta de melhores argumentos?

  23. lendo a entrevista, uma questão ficou me rodeando: se o ponto zero começou na escravidão, pq nós ainda não tivemos a coragem de romper com esse sistema que perpetua depois de centenas de anos. A responsabilidade do que vivemos hoje não dos portugueses ou espanhóis, A responsabilidade é nossa que atuamos, de uma maneira ou outra, para que tudo siga igual. Enquanto colocarmos a responsabilidade do que vivemos hoje no Brasil nas mãos de uma outra época (onde tudo começou, é verdade), continuaremos olhando para o outro lado.

  24. Prezado Jessé Souza.
    Pela primeira vez na vida estou tendo contato com suas idéias, reflexões, livros. Só agora encontrei um autor que expressa exatamente o que penso e acredito.Está sendo emocionante, vou enriquecer e muito minha página Aposta do Brasil.

  25. É uma matéria escrita de uma forma ,como culpar a escravidão ,mas não se pode esquecer,que o pt teve em suas mãos o poder por 13 anos e nem sequer teve a coragem de mostrar mudança,mostrou um rombo que o país vai sofrer anos para se agrupar novamente,,,nisso pode se enquadrar toda a tropa de políticos sem tirar nem um sequer,todos tem um lado pra corrupção….temos um presidente preso ,um atual em envolvimento com a corrupção e outros dois expulso do maior cargo nacional,,,elite do atraso

  26. Muito boa a análise do sociólogo Jesse, não adianta só criticar o sistema politico, temos que ir nas raizes do problema, só assim encontraremos uma saida.

  27. “A Globo e a Lava Jato criaram Jair Bolsonaro, só o cego ou o mal intencionado não vê”. Tirando as outras baboseiras do autor, temos um grande exemplo de Falácia da Falsa Dicotomia. Esperava mais de um dito sociólogo.

  28. Adquiri o livro de Jessé Souza e ainda não terminei sua leitura. Faz sentido esta abordagem e, inclusive corrobora com Coutinho (parcialmente), quando este afirma sermos pressupostos como nação baseiam-se no processo de acumulação primitiva do capital, cujo centro era a Europa ocidental. E assim por mais de três séculos foram (de) formadas as relações culturais, no livro Cultura e Sociedade do Brasil-p.35-, (capital/escravidão/servilismo/etc), nas quais temos nosso berço. A obra de Jessé é corajosa ao expor sem rodeios argumentos que expõem o “o jeitinho” de certa intelectualidade brasileira.

  29. Muita inconsistência e muita coisa sem pé nem cabeça, além de nao respeitar entendimento diferente:
    Que a Globo e a Lava Jato criaram Bolsonaram??? E que só o cego ou mal intencionado nao ver.

    Que a Lava a Jato nao tem nada a ver com a roubalheira.

    Que o PT caiu nao por causa da corrupção, mas por ter diminuído a distância entre pobres e ricos.

    Ou seja, muita baboseira a olhos vistos.

  30. O pensamento do Jessé é como uma ilha de excelência imerso em um mar caótico ou uma luz no final do túnel. Obrigada.

  31. Fiquei perplexo e ao mesmo tempo reflexivo com a teoria do professor Jessé Souza. É Justamente isso que ele quer de nós… Parabéns professor pelo belo trabalho que certamente irá contribuir para a formação de uma nova sociedade brasileira. A partir dessa contribuição o Brasil pode vir a ser outro.

  32. A leitura deste livro mostra duas partes: uma que levanta o véu da força oculta da corrupção e que merece reflexões e ação mesmo que morosas; outra, mostra uma posição clara de um defensor de idéias marxista e tenta incutir que o PT (nas entrelinhas) não tem nenhuma culpa em toda a parafernália atual de fomento ao ódio entre classes e a omissão em lutar contra o sistema, uma vez que os maiores lucros da mídia e bancos foi durante os 13 anos em que estiveram no poder.
    Faço uma pergunta: por que não publicou este livro na era petista?
    Realmente, muitos setores são influenciados e o da intelectualidade não foge da regra.

  33. Como estrangeiro no Brasil se ouve muito que o trato diferente da coisa pública seja uma questão “cultural”, quando na verdade é como foi dito na caça ao Al Capone “siga a grana” e assim se chega às raízes do problema. A impressão que tenho é apesar de avanços o mecanismo que rege o Brasil ainda é o da colônia para ser explorada e movida por escravos. Os poderes oficiais são uma engrenagem única, feita para mudar e deixar tudo como está. O que se faz de concreto sobre os milhões de eleitores sob o jugo de quadrilhas e milicianos? Nada, porque facilita o controle.

  34. Tá ai uma visão funcional dos interesses entre poderes seculares, culturais e mercadológicos, através de produtos financeiros, vivendo de rendas, nas elites e sem trabalhar.

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