Hoje ainda é dia de assalto

Hoje ainda é dia de assalto
Rodrigo Caetano e Fabio Santarelli em cena do espetáculo 'O assalto' (Foto: Bob Sousa)

Texto de José Vicente ganha montagem moderna que amplia a discussão proposta pelo autor há 50 anos

 

“O império torna-se próspero, urbanizado, completamente dependente das coisas materiais, e surgem então os novos movimentos subterrâneos. Todos eles são subversivos. A mensagem que todos eles pregam é ligar, sintonizar, abandonar”
Theodore Roszak, Para uma contracultura

O assalto, de José Vicente, é daqueles textos dramatúrgicos que mantêm praticamente intacta sua vibração original, mesmo tendo desaparecido as condições históricas que lhe deram sustentação, há cerca de cinco décadas. Dirigida com muito vigor criativo por Gustavo Trestini, a mais recente encenação da peça em São Paulo, que ora cumpre temporada regular na Cia. da Revista, promove pequenas atualizações no texto, sem sacrificar em momento algum a força de seu discurso. A montagem conta com dois excelentes intérpretes – Fabio Santarelli e Rodrigo Caetano –, responsáveis não somente por evocar a genuína dramaticidade de que o dramaturgo mineiro se serviu tão bem, como ainda por expressá-la em linguagem absolutamente contemporânea, para a qual as metáforas de outrora assumem impressionante sincronismo. Seguem, então, algumas considerações a respeito do texto de José Vicente, que este crítico teceu em “Contestação e desvario: tentativas de experimentação do drama brasileiro pós-68”, tese de doutorado defendida na FFLCH-USP, em 2006, sob a orientação do Prof. João Roberto Faria, adaptada para o capítulo “O teatro da marginalidade e da contracultura”, da História do teatro brasileiro: do modernismo às tendências contemporâneas (Editora Perspectiva/Edições Sesc-SP, 2013).

Nota biográfica

José Vicente de Paula nasceu, em 1945, na fazenda Angola, localizada na pequena cidade de Ventania – distrito de Alpinópolis – na zona rural do estado de Minas Gerais. Assolados por dificuldades financeiras, seus pais, que eram lavradores pobres, logo venderam a propriedade, passando a peregrinar, com os oito filhos que tiveram, por algumas cidades mineiras como pequenos comerciantes. Dividido entre a vocação religiosa e a preocupação de não acarretar gastos para a família, o futuro dramaturgo viveu dos 11 aos 17 anos como interno em um seminário de Guaxupé, alimentando um desejo de se ordenar padre. Entretanto, desiludido com a vida religiosa, ele se mudou para Ribeirão Preto, onde trabalhou como representante comercial de um laboratório farmacêutico, durante cerca de três anos. Na mesma cidade, conheceu Antonio Bivar, que acabaria se tornando seu grande amigo. O primeiro contato que se deu entre eles foi assim registrado pelo autor em sua autobiografia Os reis da terra: “Antes é preciso que eu conte como conheci um amigo meu: Antonio Bivar. Ele era irmão de Leopoldo Lima, o pintor, e Leopoldo me prometeu um dia: você vai conhecer meu irmão que mora no Rio… Nas férias Bivar apareceu… Era um jovem que conhecia a fundo a época que estávamos vivendo. Citava Sartre, todos os existencialistas e era apaixonado pelos beatniks. Ele veio comigo até São Paulo e me levou à casa de alguns amigos seus, que, como ele, viviam uma vida nômade. Eram beatniks brasileiros. Viviam a dor do século e eram pessoas que abominavam a sociedade estabelecida. Andamos juntos por São Paulo, Bivar e eu, depois ele voltou ao Rio, onde estudava teatro”.

Em Ribeirão Preto também, José Vicente estudou Direito, mas abandonou o curso aos 21 anos, ao ser aprovado em um concurso do Banco do Brasil – o que o levou a mudar-se para São Paulo. No mesmo ano, ingressou no curso de Filosofia da USP, abandonando-o alguns anos depois. Estimulado por Bivar a frequentar a agitada cena teatral carioca e paulista de fins da década de 1960, José Vicente estreou como dramaturgo em 1968, com a peça Santidade. Entretanto, a obra acabou sendo proibida. Na ocasião, “o Presidente Costa e Silva comenta na televisão a imoralidade de Santidade e distribui pessoalmente exemplares da peça aos donos dos principais jornais do país, pedindo que se manifestassem a respeito”, declara Yan Michalski em O palco amordaçado: 15 anos de censura teatral no Brasil.

No ano seguinte, surge sua segunda peça, O assalto, que logo se tornou um grande sucesso de crítica e de público. Dirigida por Fauzi Arap, a obra estreou em 10 de abril de 1969, no Teatro Ipanema do Rio de Janeiro, tendo no elenco Ivan de Albuquerque e Rubens Corrêa. No dia 9 de agosto do mesmo ano, outra montagem, igualmente dirigida por Arap, estreia em São Paulo, no Teatro Bela Vista, com Francisco Cuoco e Paulo César Pereio como intérpretes. Em 1969 ainda, José Vicente escreve seu terceiro texto, Os convalescentes, cujo título original foi modificado para evitar problemas com a Censura – Che: paixão e morte de um apóstolo da desordem – uma tentativa de falar sobre o terrorismo e a militância de esquerda sob uma ótica sartriana, segundo o próprio autor.

Rodrigo Caetano e Fabio Santarelli em cena do espetáculo ‘O assalto’ (Foto: Bob Sousa)

Por O assalto, José Vicente foi agraciado com o Prêmio Molière de melhor autor de 1969, viajando para a Europa no ano seguinte, onde travou contato direto com as mais variadas manifestações da contracultura do período. Em Londres ele começou a escrever, em parceria com Antonio Bivar, uma nova peça, intitulada Wight (uma alusão à ilha inglesa que abrigou o último dos grandes festivais de música pop da Europa, em 1970), logo deixada de lado por ele, que resolve interromper sua estada na capital inglesa e viajar para Paris: “No fundo eu gostava mais de Paris do que de Londres. Era mais quente e mais acolhedora e tinha, como eu, uma base na razão e na consciência”, afirmou em sua autobiografia.

Sem o parceiro, Bivar desiste de continuar trabalhando no texto. Outro projeto da dupla, igualmente abandonado, foi a participação no elenco do filme Laranja mecânica, dirigido por Stanley Kubrick. Os dois foram aprovados nos testes de seleção, mas acabaram desistindo da empreitada. De volta ao Brasil, ele escreve para o Teatro Ipanema do Rio de Janeiro o que talvez seja a maior experiência teatral da contracultura brasileira: o espetáculo Hoje é dia de rock (1971), dirigida por Antonio Abujamra, com Rubens Corrêa à frente de um numeroso elenco. Suas peças posteriores permanecem ainda inéditas ou ganharam montagens de pouca repercussão. São elas: A última peça, Ensaio selvagem, História geral das Índias (ou A chave das Minas), A loja do ourives (escrita em parceria com Antonio Bivar), Diário íntimo, O povo de Deus, Satã, A idade do ouro, Fim de século, Rock and roll e Virtuose. O dramaturgo escreveu também um teledrama para a TV Cultura de São Paulo, Nosferatu, e dois casos especiais para a TV Globo: Gângster e O zelador. Este último – uma homenagem ao Harold Pinter de The caretaker – foi rebatizado pela emissora de A feiticeira.

O assalto

A segunda peça de José Vicente é um drama em dois atos – escrito para dois personagens: Vitor e Hugo. Ambos trabalham em uma agência bancária, mas há entre eles uma profunda diferença social. Vitor é um funcionário da contabilidade, assim caracterizado pelo autor: “N. 5.925.800 de uma organização bancária, neurótico, estranho, fuma muito, pinga colírio no olho nervosamente, como se duma hora para outra fosse ficar cego. Tem 25 anos, é branco, sem vitalidade, frágil, está à beira da loucura, da loucura que leva ao hospício”. Já Hugo trabalha no setor de limpeza e é “exuberante, mas não vulgar, usa um macacão sujo e fedido, suado, aberto no peito e tamancos também sujos. O varredor ao contrário de Vitor possui os sinais espontâneos da presença erótica da vida”.

O cenário é uma sala do banco, desarrumada e suja, por conta do fim do expediente, da qual deve fazer parte “um pequeno despertador que fica funcionando o tempo todo e uma dessas cadeiras de escritório gasta, enorme, que deve encerrar a eloquência de um trono”. Como complemento, vê-se uma mesa de escritório, “fria, mas grande, que vai, no final, desempenhar o ofício mórbido de câmara mortuária”. A rubrica do autor determina também que “o cenário pode ser o mais simples possível”.

Rodrigo Caetano e Fabio Santarelli em cena do espetáculo ‘O assalto’ (Foto: Bob Sousa)

O assalto baseia-se em uma situação parcialmente autobiográfica, uma vez que José Vicente transferiu-se de Ribeirão Preto para São Paulo, nos anos 1960, por ter sido aprovado em um concurso do Banco do Brasil, onde entrou em contato com o ritmo burocrático e “absurdo” de um trabalho que o marcou profundamente, conforme se pode depreender deste depoimento do autor: “Trabalhei três anos para o laboratório [farmacêutico]. No final consegui passar num concurso do Banco do Brasil e abandonei então a deliciosa profissão de vendedor. Eu digo deliciosa porque no final das contas eu já havia me acostumado com o on the road dela e transformara o que é maçante em agradável. Comecei a trabalhar no Banco do Brasil, cumprindo um horário rígido. Ali era Kafka. Tinha a atmosfera de um livro de Kafka”. E é por meio deste ódio visceral que Vitor dirige a seu trabalho que podemos compreender melhor também a amarga dedicatória que José Vicente credita ao texto: “Esse espetáculo, no que ele tem de meu, dedico aos funcionários anônimos do Banco do Brasil, onde eu recebi o aprendizado da inutilidade, do suicídio interrompido, cada mês, cada ano, da impossibilidade de escapar, do horror, da ‘loucura que leva ao hospício’ e da vontade asfixiante de devorar”.

Entretanto, tal como Santidade, a peça ultrapassa o tom testemunhal, ampliando a discussão a respeito do trabalho em um banco e de outros assuntos correlatos. Importante testemunho de uma época, O assalto procura empreender uma grande crítica ao mundo da tecnocracia: é muito bem urdida, fazendo o texto oscilar entre duas esferas básicas de investigação. De um lado, as personagens assumem a vocação de estarem representando “funções” sociais, o bancário e o faxineiro, o que leva a peça a tangenciar um modo de atuação propriamente épico. Vale notar que a apresentação das falas indica “Vitor” e “Faxineiro” como as figuras do drama, o que, embora não implique repercussão prática, revela certa disposição do dramaturgo em neutralizar a “personalidade” de Hugo. De outro lado, entretanto, Vitor e Hugo são tratados como indivíduos particularizados, de cuja relação estreita se extrai a grande carga dramática da peça.  Embora nunca tenham trocado uma palavra, Vitor e Hugo já sabem algumas coisas um do outro antes de a peça começar. A fim de que a conversa entre os dois, inicialmente protocolar, comece a evoluir para o confronto direto, uma situação de tensão altamente simbólica é criada, quando Hugo percebe que Vitor trancou a porta da sala (“Não cria problema, ô meu, me abre a porta aí…”). Alegoricamente, Hugo é submetido à violência do cárcere privado. Este clima de sufoco, ainda que reversível, cuja intenção parece querer indicar que “não há saídas”, contaminou boa parte da produção dramatúrgica da chamada geração de 1969.

O assalto não é uma obra propriamente de temática homossexual, mas envereda por esse caminho de modo muito sinuoso. Há entre Vitor e Hugo um jogo codificado de interesse sexual. Vitor “compra” o tempo do faxineiro a fim de que este se interesse por sua figura e por sua história, em um lance de irônica subversão, já que o dinheiro oferecido – sem que Hugo o saiba – é do próprio banco, que ele resolveu assaltar. Estabelece-se, então, um insinuante jogo entre eles, pautado ora pela repressão, ora pela perversão. Um pouco mais adiante, há uma bela cena em que Vitor entroniza Hugo, fazendo-o sentar em sua própria cadeira de bancário. No imaginário místico-erótico de Vitor, o faxineiro ganha ares de um pharmakós, o mais ilustre entre todos os seres desprezíveis. Tal imersão no universo da religiosidade de tradição cristã é ampliada e passa a dialogar com outros valores sobre os quais se assenta o mundo tecnocrático que Vitor quer desesperadamente combater. Estruturado sobre a perda da conexão profunda do homem moderno com as instâncias inefáveis da vida (lida, aqui, em chave de religiosidade e misticismo), o texto, então, lança-se à abordagem de alguns caros assuntos que integraram a pauta da “nova sensibilidade” que boa parte da juventude dos anos 1950 e 1960 perseguiu com obstinação. Vitor, o bem-sucedido, é quem se revolta e se insurge contra a opressão do sistema, ao passo que ao desvalido Hugo somente cabe o papel de se conformar. Nesta inversão de perspectiva reside a grande carga expressiva do texto. O ponto de vista da peça não se comove com a vida de Hugo ou concede a ele tratamento heroico. A grande personagem é mesmo Vitor, responsável por subordinar a dimensão social que pontua todo o texto ao caráter de aventura espiritual de que se reveste sua jornada. Sob esta perspectiva, o conflito de classes que há entre as personagens é visto pelo ângulo do projeto da contracultura, e não do ideário marxista. José Vicente não utiliza o articulado discurso de quem quer analisar a condição das personagens. Antes, ele prefere invadir os domínios de um “expressionismo confessional”, como identificou Anatol Rosenfeld, utilizando-se de uma linguagem rude e bruta que devassa a intimidade destas figuras. “Zé utiliza o palco como se fosse a parede de um mictório público”, afirmou o diretor Fauzi Arap à época da peça.

A partir deste escopo que se abre, passamos a perceber que há dois tipos de assalto sendo engendrados por Vitor. O primeiro tem um sentido concreto e é anunciado sarcasticamente pelo bancário. (Vale ressaltar a ousadia de abordar este tema, justamente em um momento da história política do país em que os assaltos a bancos passaram a constituir a grande estratégia de financiamento de inúmeras ações dos grupos de esquerda que enveredaram pela luta armada contra o regime ditatorial). O segundo “assalto” de que trata a trama tem conotação simbólica e organiza a grande concentração poética do texto. Por carência, solidão e humanismo (?), Vitor quer devassar o mistério de um indivíduo tão emblemático para ele quanto um simples faxineiro que “possui os sinais espontâneos da presença erótica da vida”. Por um momento, o bancário acredita ter se irmanado com Hugo na luta contra o mundo execrável que ele chama simplesmente de “eles”. Desesperadamente ele quer reconhecer no faxineiro um igual. Mas Hugo reduz toda a experiência vivida ao denominador financeiro, o que faz com que Vitor compreenda amargamente a frustração deste “assalto”. A Hugo somente resta a função de perpetuar o staus quo, tocando o alarme do banco e gritando “Assalto!”.

Rodrigo Caetano e Fabio Santarelli em cena do espetáculo ‘O assalto’ (Foto: Bob Sousa)

O assalto oscila entre um registro realista, que propõe uma confrontação crua e direta entre as personagens, e uma visada lírica, de cunho existencial. Na crítica publicada no Jornal do Brasil, em 24/4/69, Yan Michalski destaca: “Partindo de uma simples dramatização naturalista de uma amarga realidade social, José Vicente projeta aos poucos o seu estudo para o terreno de um desabafo existencial e um exorcismo místico. Essa mistura de registros, conquanto contribua para o aspecto algo confuso da obra, confere-lhe também um fascínio muito especial e uma dimensão difícil de pressentir enquanto a peça se desenrola, aliás, com notável competência e acuidade de observação, no terreno do realismo”. Segundo Fauzi Arap, que dirigiu as duas montagens da peça em 1969, o teatro de José Vicente “tem quebras poéticas, quebras literárias, sobre uma base de realismo alucinado”. O diretor procurou ainda definir a filiação desta atmosfera híbrida que exala do texto: “Pode-se em O assalto, talvez, em algum momento, lembrar do Albee do Zoo… Mas Zé, na minha opinião, não é só um dramaturgo excepcional, mas como Brecht, também um poeta. Talvez, num grau bastante profundo, pode-se falar num parentesco com Genet (não influência)”, declarou o diretor na Revista de Teatro da SBAT.

Legítima representante de seu tempo, O assalto articula os conceitos de trabalho, repressão e civilização desenvolvidos por Herbert Marcuse em Eros e civilização. A pulsão erótica de Vitor sinaliza sua luta contra uma civilização que “se esforça por encurtar o atalho para a morte”, como defende o pensador alemão. O bancário se desespera ao descobrir que, mesmo sendo muito jovem, não consegue desfrutar um modo de vida criativo, tolerante e não enquadrado. Entretanto, seu grau de interferência no mundo real é praticamente nulo. Para a personagem, prevalece a visão extática da vida, às voltas com as noções de tempo, eternidade, loucura, visão, céu e espírito que tão bem embalaram o sonho da geração beatnik. Vitor recusa o discurso da justiça social, preferindo mergulhar em monólogos repletos de uma delirante poesia que trocam a “investigação” em torno do real por uma “visão” acerca da natureza humana. Mas sua fantasia dura pouco.

A impossibilidade da purificação

O assalto faz parte de um tipo de proposta teatral disposta a veicular assuntos “perigosos” e “reveladores”, com certa propensão ao exagero, ao grotesco e ao selvagem. No texto, José Vicente procura uma nova atitude em relação à plateia que não passa pelo entendimento racional do teatro épico tampouco pelo choque dos sentidos de Artaud ou da “crueldade à brasileira” do Teatro Oficina, por exemplo. Por meio de uma situação basicamente dialógica, que aos poucos abandona o tom de concílio e entendimento e se transforma em um embate violento, a dramaturgia de José Vicente busca o envolvimento emocional e psíquico do espectador na experiência real que se descortina diante de seus olhos e que ganha, ambiguamente, uma dimensão fantasiosa, mística, visionária. A peça faz um profundo ataque ao mundo convencional da família, do trabalho e da sexualidade, visto como mantenedor de uma sociedade opressora e hipócrita. Os diálogos preservam o tom vertiginoso de uma metralhadora giratória que dispara questionamentos contra os diversos valores morais, espirituais e materiais daqueles que se reprimem ou se conformam muito facilmente. Mantendo a postura transgressora, sem perder de vista certa compaixão pela incoerência que marca o convívio humano, O assalto valoriza o aspecto ritualístico de situações que só tendem a crescer de intensidade quando encenadas. Na peça, a homossexualidade, mais do que um simples elemento de contestação dos padrões burgueses, constitui um espaço de alta carga lírica e dramática ao revelar uma comovente solidão que conduz ao questionamento do mundo.

José Vicente dá uma outra dimensão política a seus textos, voltada às questões do corpo, da sexualidade e de uma angústia existencial que nasce da inconciliação com o outro. Autoproclamado anarquista como Antonio Bivar, o dramaturgo nunca cortejou a esquerda militante: “Mas eu vivia à noite… Saía com novos amigos, boêmios, frequentava o down town, bebia e voltava de madrugada para casa. Havia descoberto uma nova vida, cheia de humor e novos valores populares. Cultivava-se o samba. Na faculdade também fiz novos amigos. Eram em geral marxistas. Alguns chegavam mesmo a ser engajados politicamente. Era-se contra qualquer forma de repressão e ditadura. Cultivava-se Che Guevara e os grandes guerrilheiros. Os intelectuais profetizavam o tempo em que o Brasil seria proletário e comunista. Eu participava como anarquista apenas. Se era contra a ordem vigente é porque ela me oprimia existencialmente. O golpe militar de 64 havia praticamente matado a ideologia dos intelectuais no Brasil. Mas mesmo assim para ser bem visto pelos estudantes, artistas e intelectuais de São Paulo, era preciso ser de esquerda. Assim tanto na noite como na faculdade eu tinha passe livre. Na noite porque era alegre e gostava dos artistas brasileiros. E na faculdade porque não tinha valores americanos”.

Rodrigo Caetano e Fabio Santarelli em cena do espetáculo ‘O assalto’ (Foto: Bob Sousa)

Mas este distanciamento das formas de arte engajada, no entanto, não o levou à alienação e ao escapismo. Nas palavras dos editores da publicação Arte em Revista, Antonio Bivar e José Vicente são os autores que “propõem uma outra virada” na dramaturgia brasileira, em fins da década de 60 e início da de 70, “solidarizando-se tanto com a vanguarda internacional quanto com a marginalidade”. Fundindo certas conquistas dos angry young men e de Jean Genet, José Vicente retratou em sua dramaturgia algumas das angústias vividas pelos habitantes de uma cidade cosmopolita como São Paulo. Abrindo mão dos elementos cultistas e racionais, a obra de José Vicente investe no mal-estar e na disposição em arrombar compartimentos solidamente fechados de onde saem abjeções e podridões comuns a todos os homens, disfarçadas, porém, de arroubos confessionais. Nas palavras de Yan Michalski, o talento do autor apresenta “uma noção de generosa entrega, de uma auto-imolação através do ato de escrever, possivelmente sem precedentes na dramaturgia brasileira”.

Cerca de uma década depois de Santidade e O assalto terem sido escritas, Caio Fernando Abreu, em seu acerto de contas literário e biográfico com os tempos da contracultura – o livro Morangos mofados – cunhou uma frase que soa absolutamente adequada ao universo do ex-seminarista consciente da impossibilidade da purificação: “Escrever é enfiar um dedo na garganta”.

 O assalto
Quando: 
Até 27 de abril; de terça, quarta e quinta às 21h
Quanto: R$ 30,00
Onde: Cia. da Revista – Alameda Nothmann, 1135 – Santa Cecília

(1) Comentário

  1. Mais do que uma crítica, lúcida e qualificada, um tratado sobre a peça, o autor é o contexto da época em que a mesma foi concebida. Ficou claro que o espetáculo ficou à altura da história do autor, do texto e das montagens que a antecederam, sem em nenhum momento querer se acomodar em suas sombras

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