Uma prosa do tempo

Uma prosa do tempo
(Arte Andreia Freire / Foto Instituto Hilda Hilst)

 

Cara Cavada, Cão de Pedra, Porco-Menino, Máscara do Nojo, Grande Coisa Obscura, o Incognoscível – as imagens de Deus que permeiam a obra de Hilda Hilst são tão impactantes quanto enigmáticas, impenetráveis e desafiadoras. Suas narrativas se ocupam dessa procura blasfema de uma imagem terrena e corpórea do divino, mas também de um estado de Deus.

Não se trata de uma adoração ao Altíssimo, mas de uma investigação baixíssima, sensual, erotizada, escatológica e animalesca do que ainda se pode experimentar como fervor, transcendência e sentido do vivido. “Blasfemando somos um pouco santos”, se lê em Estar sendo. Ter sido (1997). O divino, em Qadós, “cospe pra lá e pra cá sem consultar a direção do vento”.

Não é uma escrita abstrata ou filosofante, ainda que o impulso filosófico esteja sempre presente. O fluxo narrativo se aterra, vai do sagrado ao profano, do sublime ao abjeto, do espiritual ao carnal, do poético ao chulo. E os personagens, apesar da solidão, vivem situações de tensão com a comunidade, com os serviçais, com a família, com Deus e até com seus editores, no caso dos escritores.

Os romances e novelas da autora são narrativas em que indagações profundas aparecem de forma concreta na vida de personagens marcantes: Hillé (A obscena senhora D); Ruiska e o anão (Fluxo-Floema); Matamoros; Lori Lamby; Agda (Qadós); o professor de matemática Amós Keres (Com os meus olhos de cão); o mendigo escritor, o escritor Karl e sua irmã Cordélia (Cartas de um sedutor), Lucius Kod (Rútilo nada), entre outros.

As perguntas recorrentes de sua obra são as fundamentais: o tempo, a vida, a solidão, o envelhecimento, o corpo, o desejo, a morte e o alcance da escrita. Essa prosa que se volta para si mesma e enreda o leitor em um fluxo hipnótico é uma sondagem sobre o que a linguagem pode compreender e comunicar.

Encontro com a obra

Tomei contato com a obra de Hilda Hilst em 1993, quando cursava minha graduação em jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi ali, no círculo da revista Azougue, que os textos de Cassia Borsero e Claudio Willer me despertaram definitivamente para a beleza dessa escrita, especialmente para sua prosa de ficção, sem paralelo na literatura brasileira. Nos poemas, escrevia com sotaque português (como ela própria declarou), mas sua prosa trazia uma combinação de oralidade, profundidade, banalidade e blasfêmia que a língua ainda não conhecia.

No começo dos anos 1990, lançava a novela Rútilo nada, numa edição que trazia também dois textos publicados anteriormente: Qadós (cuja grafia foi atualizada para Kadosh, na reedição atual de suas obras completas) e A obscena senhora D. O livro saía alguns anos depois da série de livros obscenos.

A tão propalada guinada ao pornográfico fora, na verdade, uma reorientação mercadológica, cheia de ironia: uma tentativa, muito perspicaz, por parte da própria autora, de recolocar sua literatura no campo do erótico para chamar atenção e atrair um público mais amplo, sem abrir mão do estilo e dos temas que sua obra já desenvolvia.

A trilogia O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnioTextos grotescos e Cartas de um sedutor (uma tetralogia com os poemas de Bufólicas) retoma e tensiona alguns temas que sempre fizeram parte de sua literatura. Por exemplo, as relações ásperas entre escritor e editor, que aparecem em Lori Lamby, já estavam em “Fluxo”, o texto que abre o seu primeiro livro em prosa, Fluxo-Floema. E um texto posterior à fase dita pornográfica como Rútilo nada é pornográfico a seu modo: uma novela sobre o escândalo do desejo no seio de uma família endinheirada e conservadora.

Conversa de 20 anos

Na época em que a entrevistei, Hilda voltava a ser publicada com regularidade pela editora Nankin, sob os cuidados do poeta e editor Fabio Weintraub, que viria a reeditar depois, no ano 2000, também a obra dramatúrgica da autora. Pela Nankin, saíram o romance Estar sendo. Ter sido e as crônicas de Cascos e carícias (1998), textos que Hilda escreveu para o jornal Correio Popular, de Campinas. As crônicas trazem a primeiro plano alguns traços pouco comentados de sua obra: o humor, a atenção ao tempo presente, a preocupação com o político e os contrastes da realidade brasileira. Uma Hilda que já se conhecia, ainda mais aguda.

Ao ingressar como redator e repórter da Revista CULT, depois de ter feito algumas matérias, sugeri a pauta de entrevistar a autora, que vivia reclusa na Casa do Sol, em Campinas, e continuava escrevendo e publicando. A revista era editada por Manuel da Costa Pinto e tinha Mauricio Domingues como diretor de arte. Para completar a equipe da pauta, Manuel sugeriu o fotógrafo Juan Esteves, que faria as belas fotos que ilustram a entrevista publicada na edição de número 12 da CULT, em julho de 1998 [leia mais no Editorial].

A presença do fotógrafo era uma das nossas preocupações. Como Hilda reagiria? De fato, ela inicialmente resistiu. Dizia que estava muito velha para fotos, mas a habilidade e a cortesia de Juan Esteves terminaram por conquistá-la.

Na conversa, regada a muitos copos de vinho do Porto, rodeados por seus muitos cachorros, falamos do Baixíssimo, e ela afirmou não buscar um Deus material: “Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo”.

Demos risadas com os temas de suas crônicas, e ela incorporou o dr. Fritz, um médico que falava com sotaque alemão nos textos escritos para o jornal. Concordou que a esquizofrenia do pai e a morte dele, quando ela tinha apenas três anos, marcaram sua escrita: “O fato de ele ficar louco me impressionou muito; eu não cheguei a conhecer meu pai, mas eu fiquei sempre sonhando com esse homem”.

Reclamou dos leitores, que não a liam, e dos críticos, que escreviam “coisas dificílimas” sobre ela. Autografou minhas primeiras edições com um singelo “Bruno Amor. H Hilst/98”. Um relógio na parede dizia: “É mais tarde do que supões”.

Eu voltaria a vê-la uma única vez, em 2001, na abertura de uma exposição sobre sua obra, no Sesc Pompeia em São Paulo. Estava radiante, feliz com a homenagem.

Apesar de os encontros pessoais não terem se repetido, a leitura de sua obra, especialmente de sua prosa, ainda é uma das minhas formas preferidas de oração – oração laica e muitas vezes blasfema, que repito sempre em busca de algo que não sei nomear.


BRUNO ZENI é doutor em Letras pela Usp, escritor e editor

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