Debater misoginia na psicanálise evita ‘má interpretação’ de Freud, dizem psicanalistas

Debater misoginia na psicanálise evita ‘má interpretação’ de Freud, dizem psicanalistas
‘O revolucionário de Freud é que ele se colocou a escutar os desejos dessas mulheres’ (Arte Andreia Freire)

 

 

Religiosa, recatada e tímida, Anna O. era uma típica mulher europeia do século 19, até que passou a desenvolver sintomas estranhos, como depressão, impulsos suicidas, paralisias e até algumas alterações visuais. A jovem foi diagnosticada como qualquer mulher fora dos padrões na época: histérica. Em vez de ser esquecida em um manicômio, porém, acabou passando por um tratamento diferente e inovador: conversar sobre o que sentia com um médico, Josef Breuer. Depois de dois anos, Anna apelidaria o tratamento de “cura pela fala”, definindo de certa forma o que seria consagrado como psicanálise.

Anna O., nome usado por Breuer para proteger a identidade de Bertha Pappenheim, não foi a única mulher que participou ativamente do início da psicanálise: na virada do século 19 para o 20, os primeiros psicanalistas encontravam nas “histéricas” – mulheres com sintomas como os experimentados por Bertha – o desejo de falar e de serem ouvidas. 

Foram nomes reais, como Sabina Spielrein, e fictícios, como “Dora” e “Elizabeth von R.”, que deram tom de análise às conversas com Jean-Martin Charcot, Pierre Janet, Josef Breuer e, claro, Sigmund Freud. “Elas davam o caminho. Pediam que os analistas se calassem enquanto falavam, que as ouvissem. E assim, aos poucos, foram cunhando a psicanálise”, afirma a psicanalista Renata Rampim, autora da dissertação “A histeria no discurso capitalista: a insatisfação do desejo e a falta-a-gozar”.

Há, no entanto, quem coloque o embrião da clínica psicanalítica como um momento de intensa misoginia. A psicanalista norte-americana Judith Herman, no livro Trauma and recovery (1992), defende que as “histéricas” não passavam de objetos de estudo, e que só participavam das análises como “cobaias” de psicanalistas homens, cuja colaboração com suas analisadas ia apenas até onde fosse “necessário para a ciência” – sem jamais levar às últimas consequências suas descobertas sobre os altos números de mulheres abusadas sexualmente na infância, por exemplo.

Deste ponto de vista, a psicanálise teria surgido como forma de torná-las “conformadas” com os padrões femininos impostos pela sociedade do século 19 – uma forma de “consertar” mulheres não femininas e “rebeldes”.

Embora seja sedutora, em especial dentro da atual militância feminista, muitos psicanalistas consideram a visão “perigosa”. “Vejo com reservas. O que não significa que componentes muito arraigados do patriarcado não estivessem presentes na construção da clínica. A psicanálise é um fazer muito fortemente vinculado à história, tanto singular de indivíduos quanto da história social”, diz Daniel Guimarães, da Clínica Pública de Psicanálise da Vila Itororó.   

A discussão será apresentada no encontro Misoginia na psicanálise – histeria: história, atualidade e política, que acontece nesta quarta (30), em São Paulo. O evento é o segundo de quatro encontros focados em debater a questão a partir de temas diversos – como as primeiras psicanalistas mulheres e a questão do “falo” na psicanálise. O evento conta com a participação dos psicanalistas Mauro Mendes e Tatiana Assadi, além de Renata Rampim.

Segundo as representantes do Grupo de Estudos e Trabalho em Psicanálise e Feminismo, que organizaram os encontros, a ideia é provocar, mas também sair da superficialidade: “Existe um rigor teórico dos conceitos, como o ‘falo’, por exemplo. As pessoas acham que significa ‘pênis’, mas na psicanálise não são sinônimos. Se esses conceitos forem lidos de forma superficial, podem mesmo soar preconceituosos”.

Tatiana Assadi concorda e ressalta a importância de evitar a leitura anacrônica dos textos fundadores da psicanálise: “Quando lemos os primeiros psicanalistas, e quando vemos toda a questão da histeria ligada ao feminino na época, não podemos esquecer do contexto histórico. Ali, Freud faz uma ruptura que até então jamais tinha sido pensada. Só se pensava em uma diferença entre os sexos. Ele fez um corte no discurso cotidiano, que já abala os discursos de época vitoriana. E é isso que é necessário levar a público”, diz.

Anna O., paciente de Freud considerada “histérica” (Reprodução)

As histéricas e a fundação da psicanálise

Hoje, mais de um século depois de Freud, a “histeria” é compreendida na psicanálise como uma das formas que o sujeito tem para lidar com a falta que define a condição humana – algo que independe do gênero. Historicamente, porém, o termo tem muito mais a ver com as mulheres: tem origem no grego, hystéra, “útero”. É um termo que existe pelo menos desde os tempos de Hipócrates, o “pai da medicina”, para designar uma forma de “loucura” que teria ligação direta com doenças do útero.

Ainda assim, foi só no século 19 que as mulheres “histéricas” se tornaram objetos de estudo da ciência, não mais tanto como “loucas” incuráveis que precisavam ser trancafiadas em manicômios, mas como seres humanos que poderiam alcançar a cura de suas aflições – e a “histeria”, aos olhos da ciência, se tornou um grande mistério que precisava ser solucionado pelo bem da incipiente sociedade burguesa.

No livro Deslocamentos do feminino, a psicanalista Maria Rita Kehl explica que a histeria, naquele contexto, emergiu como “a salvação das mulheres justamente porque é a expressão (possível) da experiência delas, em um período que os ideais tradicionais de feminilidade (ideais produzidos a partir da nova ordem familiar burguesa) entraram em profundo desacordo com as recentes aspirações de algumas dessas mulheres”.

Segundo Kehl, as mulheres oitocentistas desenvolviam uma série de sintomas físicos como “anemias, prisões de ventre, fobias”, sempre “em consequência de sua luta cotidiana para controlar os próprios impulsos”, quando eles não estavam em conformidade “com a ordem familiar” burguesa; uma ordem que havia sido criada recentemente, depois da Revolução Francesa – da qual, aliás, as mulheres participaram ativamente, de acordo com Kehl.

Porém, uma vez excluídas da vida pública, a elas foi relegado apenas o cuidado do lar e a função reprodutora. O que estava em jogo, portanto, quando as mulheres demonstravam “histeria”, era a noção recém-criada e recém-imposta da “feminilidade” burguesa, pela qual essas mulheres não conseguiam (e ainda não conseguem) se deixar aprisionar, mesmo que a recusa se desse de forma inconsciente: “Não haveria psicanálise sem elas, ainda bem que elas gritaram. Ainda bem que elas tinham sintomas, que não suportavam mais aquela vida confinada e que queriam poder desejar”, completa Assadi.

Quem começou a ouvir as histéricas, ainda no século 19, foi o médico francês Jean-Martin Charcot, interessado especialmente na cura da histeria pela hipnose. Nessa busca, ele encontrou pela primeira vez homens histéricos, e deu os primeiros passos na direção da quebra do significado de “histeria” como uma “doença do útero”.

Mais tarde, um de seus discípulos mergulhou ainda mais fundo na tarefa de escuta, em busca não só da cura, mas também das origens da histeria – seu nome era Sigmund Freud. A partir desta busca, Freud cunharia, décadas mais tarde, sua teoria mais conhecida sobre o desenvolvimento da sexualidade: o complexo de Édipo. “Alguns psicanalistas dizem que Freud deu voz às mulheres. Eu tendo a discordar. Ele não deu voz. Ele escutou a voz que já estava lá. As mulheres sempre falaram por si. O revolucionário de Freud é que ele se colocou a escutar os desejos dessas mulheres”, coloca Rampim.

Judith Herman, entretanto, defende que, antes de teorizar sobre o Édipo, Freud teria chegado à conclusão de que a histeria era causada nas mulheres por traumas sexuais, como abusos e estupros, muitos deles perpetrados ainda na infância. Esta primeira tese foi publicada em 1896 sob o título Estudos sobre a histeria – mas, segundo a psicanalista, seu criador não teria tido “coragem” de mergulhar mais a fundo nas implicações dessa descoberta.

Herman diz que a histeria era “tão comum entre as mulheres” que se sua teoria estivesse correta Freud seria forçado a concluir que o que chamava de “atos de perversão contra crianças” eram endêmicos, “não só entre o proletariado parisiense, onde ele estudou a histeria em primeiro lugar, mas também entre as respeitáveis famílias burguesas de Viena, onde realizava sua clínica”. Frente a este dilema, Freud teria parado de ouvir suas pacientes e, principalmente, de dar crédito a elas.

Para Daniel Guimarães, a leitura é superficial. Ele explica que Freud realmente trabalhou por muito tempo sobre o conceito de uma “situação disparadora” da histeria, “algo que pudesse ser lembrado, um evento traumático, um acontecimento factual na ordem do abuso”, mas que desistiu da teoria depois de muitos anos de estudo e observação clínica – e que, aliás, revisitou e modificou as próprias teorias inúmeras vezes, não só nessa ocasião. 

“Freud não era um feminista, e escreveu muitas frases que não nos deixam dúvidas sobre isso. Coisas que simplesmente não se consegue mais defender nem teórica, nem clinicamente. Ao mesmo tempo, contribuiu bastante para a ampliação das liberdades sexuais das mulheres e dos homens”, diz o psicanalista. Tatiana Assadi complementa, explicando que em nenhum momento Freud abandonou sua teoria do trauma: “O que ele diz é que os abusos sempre produzem marcas, mas que cada um carrega essa marca de forma diferente. Ele descreve um sujeito que não é definido pelo trauma, mas marcado por ele”.

Para evitar esse tipo de leitura equivocada, os psicanalistas defendem que o tema da misoginia na teoria psicanalítica seja sempre debatido em eventos abertos ao público leigo, como o desta quarta-feira – tanto para aprofundar os conhecimentos históricos sem anacronismos quanto para desmistificar os conceitos psicanalíticos que, segundo Guimarães, “ajudam o trabalho terapêutico” no sentido de possibilitarem o debate, por meio da linguagem, sobre os diversos sofrimentos humanos. Além disso, o especialista aponta que hoje existem “muitas psicanálises diferentes”, assim como muitas leituras posteriores dos textos originários: “Não parece muito psicanalítico encerrar em esquemas as possibilidades de se tornar sujeito”, resume.

Rampim, porém, chama atenção para o fato de que os conceitos e textos base da psicanálise, em especial os fundamentais do século 19 – que deram o caminho para a prática atual -, servem apenas como um ponto de partida para a clínica, e não como um agrupamento de regras rígidas que não podem ser quebradas ou flexibilizadas para o benefício dos pacientes (ou, mais especificamente, das pacientes): “Vivemos no quinto país que mais mata mulheres no mundo. Um psicanalista tem que estar atento a isso. Se uma paciente chegar em meu consultório dizendo que foi violentada, dizendo que tem medo de andar na rua à noite, vou ter de levar este dado em conta. E ter a sensibilidade de escutar um medo material, uma realidade”.

Guimarães concorda: “Cabe às e aos psicanalistas produzirem novos parâmetros de organização psíquica, quando for necessário, para que a psicanálise siga contribuindo para que as pessoas possam compreender melhor sua experiência neste mundo e este mundo em si”.

(2) Comentários

  1. Gostei desse formato dialético da escrita, com as teses sendo apresentadas e confrontadas. Parabéns, ficou muito bom.

  2. Gostei muito do artigo as histéricas e a fundação da psicanálise. Estou fazendo o meu TCC sobre a misoginia, só que de uma perspectiva diferente, estou abordando o interesse das mulheres por esses homens misóginos o que as leva à submissão. O meu interesse é apresentar essa mulher à sociedade, que o fato dela estar numa relação misógina não a torna conivente, e se ela for o que a faz conivente com essa situação/relação. Se vocês tiverem algum material que possam compartilhar comigo fico bastante agradecido

Deixe o seu comentário

Setembro

TV Cult