“Extraquadro”, de Ricardo Aleixo, e outras sugestões de leitura

“Extraquadro”, de Ricardo Aleixo, e outras sugestões de leitura

 

[ficção]

Reunião de poemas que o escritor mineiro escreveu e publicou nas redes sociais entre 2013 e 2020. Pela disposição gráfica dos textos, lembrando o concretismo, coloca-se a proposta artística de Aleixo, que sugere a dança e a performance, alçando a palavra às suas múltiplas dimensões. O trabalho gráfico do artista e designer Mário Vinícius, com intervenções em cima de uma fotografia de infância do autor, pontua todo o livro, e ecoam seu próprio título: “extraquadro, aquele procedimento técnico-formal tanto da fotografia quanto do cinema para falar do que não está na foto. Os poemas não estão falando sobre a foto, estão falando sobre o entorno da foto da nossa infância e dos anos que se seguiram”, como o autor disse em recente entrevista ao Jornal Estado de Minas.

Crítica bem-humorada à Semana de Arte Moderna de 22, a peça centra-se no encontro de quatro personagens — Faustino Sucupira, Diego Mercúrio, Conceição e Doutor Otto Salgado — que elaboram uma mostra artística paralela à de Mário e Oswald de Andrade. Definida como “uma tragédia de costumes modernistas em dois atos”, encena uma crítica ao projeto modernista e as suas implicações futuras. Nos diálogos das quatro personagens, repletos de discussões sobre arte, cultura, estética e política, entrevê-se o “obituário da modernidade” rumo ao “supermodernismo” do futuro.

Em seu novo livro de poemas, a escritora mineira Constança Guimarães faz da memória uma visitante insistente. Como escreve o poeta Tarso de Melo no posfácio, deparamo-nos, em seus poemas, com o duplo movimento parcial da memória: sempre é a permanência de apenas uma parte do que aconteceu e, ao mesmo tempo, a parte vivenciada por quem se recorda. O livro, assim, forma uma espécie de “teia narrativa que não apenas recomponha o que a memória mastigou, mas em que o eu-lírico possa se reconstruir”, nas palavras de Melo.

A narrativa parte do desaparecimento de Cecile nas águas do rio Jari, “gigantesca serpente que corta os limites do Amapá e do Pará”. Dois anos após o ocorrido, seu companheiro, Bruno, parte em busca da mulher, certo de que foi levada pelo boto cor-de-rosa. Sua investigação leva-o ao vilarejo de Guaiapis, onde rastreia os mitos e lendas envolvendo o delfim rosa. Na comunidade ribeirinha, descobre um local que servira de assentamento nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Entre o misticismo brasileiro e os horrores nazistas, o protagonista empreende um mergulho em seus próprios traumas e mistérios.


[não ficção]

Dividida em onze seções, a biografia da autora de O segundo sexo parte de acontecimentos significativos de sua vida para, como escreve a biógrafa Huguette Bouchardeau, “descrever os círculos progressivos que constituem a trama de uma existência”. A autora, assim, evoca diversas cenas inusitadas – a revolta infantil para não ir mais à missa, o reencontro com Sartre após a guerra, a felicidade em comprar o primeiro carro – para apreender a vida de Simone de Beauvoir em consonância com o respeito que sempre nutriu por sua figura. “Simone de Beauvoir foi, para a minha geração, a teórica do feminismo. Mais que isso, foi quem inventou, face a nossos medos e nossas reticências, outras maneiras de viver. Tratava-se para nós de fazer recuarem os limites do possível, do proibido e do impensável”, escreve.

Primeira edição da nova revista de artes e literatura que surge no mercado editorial brasileiro. Em formato impresso e digital, pretende resenhar e divulgar novos autores, nacionais e internacionais. Além de autores estreantes, pretendem “lançar um piparote sobre o túmulo para reavivar a gênese dos mortos”, como escrevem no editorial. A primeira edição traz uma adaptação teatral de Orlando, romance de Virginia Woolf, escrita por Roberto Cordovani; textos de Plínio Fernandes e Júlio Bonatti; poemas de Rui Tinoco; monólogo de Christine Röhrig; e um panorama da literatura infantojuvenil.

 

Apontamentos sobre as críticas à psicanálise surgidas com teóricos e militantes ligados aos debates sobre gênero e aos estudos queer. Refletindo sobre o que denomina como “psicanálise inclusiva”, o autor argumenta como as pessoas e experiências trans têm sido tratadas como dissidentes de gênero pela psicanálise, reforçando um discursivo que patologiza e julga os “corpos desviantes”. Segundo o autor, essas pessoas são interpretadas pelo discurso psicanalítico a partir do tripé neurose/psicose/perversão, quando, em fato, colocam em perspectiva a produção de múltiplas formas de existência, que se insurgem contra o binarismo de gênero. O termo “transidentidade”, nesse sentido, procura abarcar as diversas formas de viver o gênero que não se delimitam pela divisão homem/mulher.

Evocando no título o livro de Nietzsche, a obra reúne dezenas de textos publicados nos últimos anos por Fernando Conceição, doutor em Ciências da Comunicação pela USP, professor da UFBA e autor, entre outros, da biografia de Milton Santos. Envolvido na militância desde a adolescência, Conceição passa por diversos temas em seu livro: discussões literárias e culturais, relações raciais, a política nacional e na Bahia, onde nasceu, os embates que travou e suas experiências de viagem entre África, Europa e as Américas.

 


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