Vinte anos depois, poeta publica tradução de ‘tweets’ do Império Romano

Vinte anos depois, poeta publica tradução de ‘tweets’ do Império Romano
(Arte Revista CULT)

 

A escrita sintética pode parecer típica das redes sociais, mas existe, como gênero literário, há mais de dois mil anos. Durante o Império Romano, o poeta Marco Valério Marcial (40 – 104) especializou-se nos chamados epigramas – micropoemas de viés satírico, pornográfico ou injurioso que, ao versarem sobre o cotidiano em uma linguagem simples e provocativa, lembram bastante os tweets de hoje em dia.

Traduzidos direto do latim pelo poeta paranaense Rodrigo Garcia Lopes – que levou, entre pausas e recomeços, mais de 20 anos para concluir a tarefa -, os escritos de Marcial foram reunidos na coletânea Epigramas, lançada em janeiro pela Ateliê Editorial. São 219 poemas retirados de 12 de seus 15 livros, escritos entre 86 d.C. e 103 d.C. 

“O epigrama já existia muito antes de Marcial, mas o poema conciso, crítico e satírico social, com um punchline no último verso, foi uma invenção dele, por isso é tido como o pai do gênero”, explica o tradutor. No Brasil, segundo ele, a poesia do romano foi pouco editada: apenas alguns de seus poemas constam em antologias de Décio Pignatari e José Paulo Paes. “Quis preencher essa lacuna editorial.”

O que atraiu Lopes para a longa tradução foi a atualidade da escrita de Marcial, perceptível tanto na sua forma rápida quanto em seu conteúdo. Entre os epigramas selecionados para a coletânea, há textos sobre a política do Império Romano, sobre boemia, amor e amizade, além de reflexões mais específicas acerca da filosofia, escravidão, vida social e urbana em Roma. “Ele já reclamava, naquela época, da cultura de celebridades, do barulho da cidade grande, e até de não conhecer seus vizinhos”, afirma Lopes.

Em um dos epigramas da coletânea, por exemplo, Marcial provoca o chefe militar e ditador Júlio César: “Se acaso, César, topar com meus livrinhos/ Deixe essa cara séria de dono do mundo/ O riso é liberado até em seus triunfos/ Ser tema de piada não envergonha um líder”. Outro deles, mais adiante, trata da fama póstuma: “Por que a fama é negada aos vivos / e raros leitores amam os contemporâneos? / Isso, Régulo, é bem típico da inveja, / Desprezar os modernos, preferir os antigos”. 

Para além do humor e da crítica político-social, Marcial escreveu diversos micropoemas obscenos, fez crônicas sobre os espetáculos do Coliseu e aplicou, pela primeira vez, a palavra “plágio” na arte – até então, o termo plagium só havia sido usado para descrever roubo de escravos. “Ele adotava linguagem informal, o latim vulgar, e muito antes de Baudelaire dirigia-se a seu lector [leitor] de forma metalinguística. Era um visionário”, diz o tradutor.

Ao longo da vida, o poeta romano compôs mais de 1500 epigramas, gênero ao qual se dedicou desde o início da carreira – mesmo sendo considerado, à época, menos importante do que a poesia lírica ou épica. Aos poucos, construiu sua fama no Império e transformou o epigrama em um “instrumento preciso e portátil de crítica social”, nas palavras de Lopes. “Não vai achar aqui Centauros, Górgonas e Harpias: minha página tem o sabor dos homens”, escreveu o poeta, deixando claro que não faria textos épicos, mas satíricos – e sempre sobre a condição humana.

Por conta de seus poemas obscenos, sua obra foi proibida durante a Idade Média e quase se perdeu. “Marcial era detestado na Inglaterra Vitoriana, mas retornou à fama no Renascimento e no Barroco, quando era muito usado no ensino do latim, inclusive entre os jesuítas. Hoje, voltou com força total em muitos países, como a Inglaterra, a Itália, os Estados Unidos e, espero, o Brasil”, detalha o tradutor.

A explicação do retorno aos holofotes está estaria na “antiga novidade” contida na escrita de Marcial, fruto da combinação dos temas sociais com o humor e o formato conciso que, hoje, são encontrados em abundância nas redes sociais – características que o tradutor buscou preservar mais do que a métrica poética latina ou a tradução ao pé da letra. 

“Ao ler sua poesia”, comenta o tradutor, “vemos que, em séculos, o ser humano não mudou tanto na essência. Temos as mesmas paixões, os mesmos defeitos, rimos das mesmas coisas; ainda enfrentamos a corrupção a hipocrisia e questões sociais muito semelhantes”, afirma. “Então, faz sentido que ele retome seu sucesso nos dias atuais”.

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