Em novo livro, autora questiona noção de ‘sororidade’ dentro do feminismo

Em novo livro, autora questiona noção de ‘sororidade’ dentro do feminismo A escritora Vilma Piedade durante lançamento de Dororidade na Blooks Livraria

 

Quem procurar por “dororidade” no dicionário não encontrará nenhuma definição. Se a busca for pela internet, o Google questionará se a pessoa não quis dizer “sororidade”. Em editores de texto o termo aparece sublinhado em vermelho, marcando sua inexistência ou inadequação ortográfica.

Mas não se trata de um erro de digitação ou confusão de palavras. O conceito é uma criação de Vilma Piedade, pós-graduada em Ciência da Literatura pela UFRJ, integrante da organização feminista PartidA Rio e da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB). Ou, como ela mesma resume, “mulher preta, brasileira e feminista”.

No livro Dororidade, recém-lançado pela editora Nós, Piedade questiona a ideia de sororidade enquanto exercício de irmandade entre todas as mulheres: “É um conceito muito antigo e importante para o feminismo, mas parece não dar conta da nossa pretitude”, diz à CULT.

É a dor que irmana as mulheres, defende a autora, mas é preciso levar em conta que a dor das mulheres negras é agravada pelo racismo. E o feminismo precisa de ferramentas conceituais que explicitem essas diferenças.

“A dororidade nos faz olhar para as três questões juntas. Obriga a olhar para a dor que o racismo provoca, e essa dor é preta”, afirma. “Não é que a dor das pretas seja maior. Dor é dor, e ponto. Dói muito ser mulher atacada pelo machismo, e dói muito ser mulher atacada pelo racismo.”

Segundo a autora, o conceito tem circulado não só em debates e pesquisas acadêmicas, mas em sites e grupos feministas e antirracistas; em aldeias indígenas, comunidades quilombolas e ribeirinhas. “Em um encontro feminista no Rio, uma mulher quilombola me disse que sua avó adorou o conceito e que o chamou de ‘doridade’. É isso que é importante: que seu uso seja entendido e espalhado.”

Forma de combate

A linguagem do livro, coloquial e fluida, é baseada na livre escrita do “pretoguês”, categoria linguística criada pela historiadora Lélia Gonzalez (1935-1994) para abranger, em seus textos, a linguagem falada da população negra.

Isso porque, para Gonzalez, a fala negra carrega traços e registros de dialetos africanos – e usar esses pedaços de ancestralidade na academia significaria não só registrá-los para a posteridade, como também desafiar formas de comunicação cristalizadas, baseadas em uma concepção eurocêntrica do que é conhecimento.

Embora não seja exatamente escrito em “pretoguês”, Dororidade simplifica sua forma com o mesmo fim. “Tá tudo na Língua que sustenta a Linguagem que alimenta e retroalimenta o imaginário social no cotidiano… E, lembrando Roland Barthes, se a Língua pode ser entendida como a arena da luta de classes… dançamos”, escreve Piedade, que com isso também busca atrair mais mulheres, principalmente aquelas que estão fora dos muros das universidades.

Para Piedade, o feminismo só é uma luta possível se dialogar com todas as mulheres, sejam elas “pretas, brancas, quilombolas, caiçaras, ribeirinhas, indígenas, lésbicas, trans ou qualquer uma das infinitas classificações possíveis em que as mulheres se enquadrem”. “Acho importante que nós tenhamos um espaço para falar e que seja uma fala que agregue no coletivo. Eu só quero todos os tons de preto dentro do feminismo.”

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