Dororidade: a possibilidade de lutar dançando

Dororidade: a possibilidade de lutar dançando
'Miroir, Miroir', de Carrie Mae Weems, 1987-88 (Reprodução)

 

Com a marca de uma Mulher Preta, de Axé, da área de Letras e Aquariana, Vilma Piedade nos oferece com o livro Dororidade um novo conceito e uma forma tão potente quanto provocativa de pensar em pretoguês a imbricação entre lutas antisexismo, antirracismo, descoloniais e anticapitalismo.

Herdeira de uma tradição que desafia a miopia binária do projeto moderno-colonial de base escravista, patriarcal, heteronormativa e classista, a autora traz para o Xirê conceitual (p. 23) das lutas por liberdade de seu tempo noções como circularidade, ubuntu, branquitude e Dororidade.

O conceito de Dororidade busca oferecer novos termos e pressupostos para o enfrentamento de violências herdadas da colonialidade que marca ausências, produz silêncio histórico, o não-lugar, a invisibilidade do “não ser, sendo” (p.17). E, reposiciona a postura a partir da qual a construção de uma democracia real pode ser, efetivamente, construída. Trata-se de um conceito que “carrega um mundo de significados e significantes” (p.15), que pressupõe “Reflexão … Crítica … Discursos” (p.16), além de Transformação e Movimento.

Nas palavras de Vilma Piedade, Dororidade contém “as sombras, o vazio, a ausência, a fala silenciada, a dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta” (p.16). Interpela a noção de sororidade que pretende unir, irmanar, mas que “Não basta para Nós – Mulheres Pretas, Jovens Pretas” (p.17).

A Dororidade se instaura e percorre a trajetória vivenciada por Nós, População Preta e, aqui, em especial, Nós – Mulheres – Mulheres Pretas. Brancas, de Axé, Indígenas, Ciganas, Quilombolas, Lésbicas, Trans, Caiçaras, Ribeirinhas, Faveladas ou não. (p.19)

Com sua escrita, escuta e fala aposta no diálogo interseccional, a partir do feminismo. Mobiliza a dor experimentada pelas aberrações que o racismo imprime e “empurra goela abaixo”. Uma dor que não é maior ou menor, uma dor que “dói e ponto” (p.18). Aquela que sentimos … “a Dor e a nem sempre delícia de se saber ou de não se saber quem é … quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial” (p.18).

Com Lélia Gonzalez, Achille Mbembe, Frantz Fanon e Du Bois, Vilma Piedade enfrenta algumas manifestações contemporâneas do racismo (genocida, sexista, homofóbico, religioso, entre outras), transitando – como Iansã – entre lá e cá, entre o Orun e o Aye, entre o princípio e o fim. Dando seguimento a uma tradição de pensadoras e pensadores da diáspora africana que denunciam com, para e através da luta os mecanismos através dos quais a “Raça-construção ideológica fabricada pelo modelo econômico capitalista Branco” (p. 21) molda a maneira pela qual experimentamos relações desproporcionais e violentas, intersubjetivas e institucionais, de gênero, classe e sexualidade.

Assim como a referência à campanha “devolvam o nosso sagrado”, reivindica a devolução de nossa humanidade negada, de nossa memória, de nossas experiências de organização política que não se constituíram através da produção de acúmulo, dominação e manutenção narcísica de privilégios. Enquanto só forem ouvidos os choros de Marias e Clarices, Dandaras- Luanas e (Mães) Gildas continuarão a representar as violências não registradas pela branquitude e as categorias de opressão que marcam nossas desigualdades seguirão produzindo pactos políticos frágeis e mantidos pelo medo e pela violência.

Tudo isso para oferecer aos feminismos e demais lutas por liberdade a possibilidade de lutarem dançando. Um corpo que dança é um corpo liberto, um território livre, que apreende, aprende e ensina de maneira muito mais ampla, apesar das marcas de violência que carrega. Para além dos binarismos que não dão conta da negra-vida e do negro-vida (RAMOS, 1995), o axé se espalha, abandona a visão eurocêntrica que constituiu as formas de opressão que conhecemos e oferece novas possibilidades de proteção das diversas formas de ser e estar na natureza.

Cumé qui é?

Só lendo para descobrir!

THULA PIRES é mulher preta de axé, mãe da Dandara, professora de Direito Constitucional da PUC-Rio


 

 

 

 

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