Reflexões sobre a parentalidade negra

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Reflexões sobre a parentalidade negra
Imagem restaurada pelo projeto Retratistas do Morro, coordenado por Guilherme Cunha (Foto: Afonso Pimenta)
  Uma figura de cuidado parental bastante visível em nossa cultura é a da mulher negra. Com grande frequência, ela ocupa um lugar que remonta ao modelo de exploração escravista e de objetivação de corpos negros e que é o da mãe preta. Muito comum, se pensarmos no que Suely Gomes Costa chamou de “maternidade transferida”, no texto “Proteção social, maternidade transferida e lutas pela saúde reprodutiva” (2002). Transferência que se fazia inclusive relegando ao desamparo os filhos e filhas biológicos dessas mulheres que, muitas vezes, nutriam a prole de seus patrões em detrimento de sua própria. Essa realidade está retratada de forma contundente em um quadro do artista plástico piauiense Lucílio de Albuquerque (1877--1939) que faz parte do acervo do Museu de Belas Artes de Salvador: Mãe preta, de 1912. Nele, uma mulher negra amamenta um bebê branco enquanto olha melancolicamente para uma criança negra, certamente seu próprio filho, repousada em uma esteira ao lado. Muitas interpretações de cenas assim falharam ao não enxergar e ressaltar a extrema violência a que estavam submetidos mães e filhos e filhas negros nesse tipo de relação tão comum em nossa sociedade. Comum por força do modelo de exploração do trabalho escravo, que tornava tal função inerente ao papel dessas mulheres, mas que ultrapassou as fronteiras da sociedade escravista vindo habitar nosso cotidiano – tendo em vista a predominância de mulheres negras no trabalho doméstico no Brasil – e nosso imaginário – uma vez que muitas memórias afetivas trazem a

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