Ana, Marcela, Renata: no hay nada estable ou pequenos precipícios da carne

Ana, Marcela, Renata: no hay nada  estable ou pequenos precipícios da carne
As poetas Ana Carolina Assis, Marcela Maria Azevedo e Renata Flávia (Fotos: Divulgação)

Nada quedará de nuestros corazones.
Roberto Bolaño

Acaba de ser publicada no Brasil uma reunião dos poemas de Roberto Bolaño (1953-2003), A universidade desconhecida (Cia. das Letras), traduzida pela poeta, sempre singular, Josely Vianna Baptista, que também traduziu, por exemplo, Jorge Luís Borges. O rasgo de Bolaño, escritor de passaporte chileno, está num prisma de construção da frase que comparece, muito mais, nas alucinações viscerais, como ele inferia, em torno da respiração alongada do que ainda se projeta como prosa. Lendo, minimamente, o genial Amberes (2002), já se consegue perceber a força descomunal de composição que parte da ideia de que “no hay nada estable”. E aí, nenhuma escapatória, se diante da pergunta de Jacques Derrida, em italiano, numa língua que lhe é estranha, Che cos’è la poesia?, sem resposta, aparece a dificuldade imensa a quem imagina derivar as imagens esticadas dos vai-e-vem prosaicos até a síntese da imagem, sem literatura e sem construções poéticas, do poema. Quase algo como se, ironicamente – com uma ou outra frase sempre impressionante largada no meio de um poema ou outro –, “um único poema salva” Bolaño. Mas vale o escrito, o documento, a memória.

A questão é como ler o gesto impensado e impossível que vem na proposição interrogativa de Derrida expandindo-a ao minuto mais próximo, antes e depois, do minuto de agora, este, em que estamos, atolados até o pescoço e com as goelas invadidas por um sufoco produzido por um crime diário de lesa vida, expostos, sem explicação palpável, a uma circunstância perversa produzida por uma sociedade politicamente doente a todos os lados e sem espaços de fuga? Assim, num ao redor mais ao extremo, os livros recentes de Ana Carolina Assis, Carinhoso (7Letras); Marcela Maria Azevedo, Todas as mães são tiranossauras (Urutau); e de Renata Flávia, Lustre de carne (Moinhos); imprimem por subtração pequenos deslocamentos e sustentações moventes à ideia de que “não há nada estável” sugerida por Bolaño. Ana é da Zona Norte do Rio de Janeiro, outra língua e posição com a vida frente à dicção social de porcelanato, imperiosa, imperativa e opressiva da cidade, a da Zona Sul; Marcela nasceu em Petrolina (PE), vive em Belém, no Pará, daí que seus poemas cumpram, a partir de títulos imensos, o que ela mesma chama de “alguns métodos metafísicos”; Renata é de Teresina (PI), onde vive, com formação entre história e educação, trabalha numa biblioteca pública federal, entre livros, e tem posições políticas muito assertivas e diferidas do que pauta “a agenda” invariavelmente rasa e ordinária.

Se por um lado há um pensamento que se apressa, são poetas muito jovens, há também um cuidado extensivo, inespecífico, lento e atento, com o poema e com os livros que fazem. É o segundo de Ana, o primeiro de Marcela, o segundo de Renata. É nesse descompasso ordinal que se pode imaginar alguns vínculos entre os métodos e procedimentos dessas poetas, o que têm a ver com o desmoronamento que provocam na autofagia plena de incensórios, em que pares e ímpares leem quase as mesmas coisas, se cultivam, se conservam, se protegem, se guardam e querem, invariavelmente, habitar um centro, ponto único, repetitivo e modelar, lasso e frágil. Porém, o procedimento dessas poetas se vale do caráter da anotação quando anotar é também tocar a causa do outro. Aquilo que Jean-Luc Nancy (que faleceu no último dia 24) imagina, a anotação como um fora de si mesmo, que, por sua vez, nada mais é do que a exposição de outra realidade, outra singularidade – a mesma, porém sempre outra. O filósofo adverte que “escrever para o outro significa em realidade escrever a causa do outro”, ou seja, desejar um desejo de alteração, destruir a destruição, quando desejar é reconstruir o sentido do sentido, agitar máscaras e provocar a “interrupção do mito e do sacrifício”, e isso seria, para ele, uma tarefa do pensamento, do ser-no-mundo.

O livro de Ana Carolina é uma delicadeza de superfícies refinadas, volume magro, como já foi o seu anterior, A primavera das pragas [7Letras], apenas 19 poemas, entre gestos de imagens mínimas, como em “Altruísmo”  – “melhora pra ficar comigo / mas faz por você” – e toda uma disposição convicta e corajosa do corpo, primeiro numa espécie de mundo natural e, em seguida, nas artificialidades da cidade e da língua e numa recuperação sensível da vida e do mundo através das pequenezas que são e movendo as palavras, a linguagem, para aproximá-las ao máximo – limite e infinito – do desequilíbrio acidental das coisas, como se lê em “Cavaleiro de copas”: “raios por baixo / da pele / entre a pele e a carne / dos peitos / direita esquerda e de novo / das bases às pontas / e arde / não é leite ainda é / algo de nosso // são os 30 que chegam / e se chega o sangue / ou não chega / é no fundo das calcinhas / que a gente se resolve / um dia da caça / outro da caça também”. E isso já é um simples e sereno redesenho do tato e da fratura do uma/um, politicamente, alterada em uma/um outra/o, quando o poema se esgarça no espaçamento das forças diferidas e amalgamadas da existência contra o poder. E quando se diz “o poder”, se diz também qualquer poder ou ideia que persiga “o poder”, desde o termo e suas derivações, porque “o poder” é um só.

O livro de Marcela entranha e emprenha uma imagem radicalmente forte dessa ideia de um ser-no-mundo a partir da anotação, a das mães como tiranossauras, o que Nancy chamaria de “universo cuja unidade não é mais que a unicidade em si aberta, distendida, distanciada, difratada, desmultiplicada, diferida”, a das mães, no caso, com poemas muito impressionantes e articulados que se engendram, tal como ela anota, numa baba espessa para encharcar o mundo. As preocupações de Marcela são outras, logo, nunca previsíveis, os assuntos são rachaduras de sentido desde os títulos até os poemas; coisas como elucubrações sobre a origem da devastação florestal, sobre o uso de alvejantes em salas de museu, explicações sobre a bioluminescência ou um ensaio sobre a saudade etc. O que aparece e parece que vem também da presença de assombro de poetas como Max Martins ou Mário Faustino ou, depois, vá saber, da linha reconfigurada de Antônio Moura. As fotografias de um suposto autorretrato espalhadas pelo livro e o espanto, entre o inesperado e a contingência, de cada poema, são a esperança de uma narradora que se apaga, o tempo inteiro. Em “considerações aprofundadas sobre a geografia de petrolina”, ela escreve anulando mapas, documentos, territórios, simbologias, fronteiras e quaisquer outras impertinências de medida e controle: “como faz pra devolver os mapas / esquecer os documentos / adentrar territórios / sem ladeiras símbolos máquinas // como faz pra apagar os rastros / rasurar as linhas geográficas / dissolver a memória / da pele / esculpida num rosto // como faz pra se reescrever um nome / meu nome / encobrir monumentos / nossa velha casa / reerguer um corpo / esse corpo / de hoje décadas / e nomear esse não saber / que estive aqui”.

Renata escreve um corpo entre a cifra e a sede, “encarar / com o pouco que se tem / a sede” e “corpo de areia / de pedra pés”, e isso faz de seu livro, objeto exposto em carne e sangue, um conjunto de peças que podem nos remeter à ideia das confissões críticas de Mishima, noutro prisma, mas podem, e muito, tanto no gesto revolto do pesadelo, entre o que treme e tritura, porque todo pesadelo, nos poemas que ela monta e remonta, são pequenas feridas, cicatrizes ou distensões do real; como na maneira de anotar o sentido exasperado e grave de cada palavra que vem também desse real sem distanciar-se dele nem um segundo ou centímetro. O que lhe interessa é a pobreza humana, nossa miséria coletiva, os segredos de um ser-no-mundo entre bicho e gente, o apontamento de garras prontas para devolver qualquer ataque a uma aparente insegurança ou fragilidade, as cidades que morrem num país e num terceiro mundo desgraçados, um cotidiano que se deflagra quando “cada passo é uma ameaça”, lapsos de microscópicas histórias de amor e andar sem nome, estranhar-se: “cabelos espalhados pelo chão / coletando canções de frio / esperando que um lustre parta meu pensamento em pedaços / que caia longe / que caia firme / … / estou aqui e você não pode ver / até onde meus cabelos se deitam / até onde se misturam aos restos jogados no vão / estou movendo peças no teto / desenhando você em música / montando peles e unhas / arranhando o chão / …”.

Escrever com o corpo sempre é escrever com força. Arranhá-lo no mundo, deixar-se em alguma aderência tátil da pele no tempo, no espaço, ou seja, consentir ao corpo que se lance aos precipícios da carne desde um “sexo de ler”, como sugere Maria Gabriela Llansol, até, noutras circunstâncias, às imagens que se descolam dele para o universo e vice-versa, como indica Henri Bergson. Ou, retomando Nancy, quando escrever, anotar, com o corpo, é lançar a imaginação à força original da natureza e, numa ficção do poema, restaurar alguma origem do mundo, este, o único que é diante do que conseguimos inventar, criar, morar, viver etc. É assim que se pode ler também esses mínimos e imensos livrinhos de Ana Carolina Assis, Marcela Maria Azevedo e Renata Flávia: não há nada estável. É quando o poema, num salto, se inscreve na pele, que é sempre outra, sem salvação e com o risco de fazer; é o corpo procurando cumprir a anotação, apressada ou lentamente, do encantamento absurdo que a vida é e do quanto, num psiu, a vida some, a gente morre.

Manoel Ricardo de Lima é professor de literatura na UNIRIO. Publicou O método da exaustão (Garupa, 2020), Avião de alumínio (Quelônio, 2018, com Júlia Studart e Mayra Redin), Falas Inacabadas (Tomo, 2000, com Elida Tessler), entre outros. Organizou recentemente Uma pausa na luta (Mórula, 2020) com a participação de 70 pessoas.


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