Das subjetivações rastejantes: efeito cascata do Brasil golpeado

Das subjetivações rastejantes: efeito cascata do Brasil golpeado
Um presente sombrio é uma convocatória aos que insistem na ideia de que a vida não se reduz meramente a sobreviver (Arte Revista CULT)

 “Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe que irrevogavelmente lhe pertence, sabe que não pode fugir de seu tempo
– Giorgio Agamben (2009)

Uma espécie de conformidade mórbida parece ter tomado conta de boa parte de nós brasileiras e brasileiros, mesmo daqueles que até bem pouco tempo atrás se sentiam engajados e idealistas por seguirem na expectativa de construírem um mundo melhor e mais vivível. As antigas estratégias de engajamento político parecem já não surtir efeito e deixam meio órfãs gerações de militantes cansados de esbravejar nas ruas e não serem ouvidos, se desgastar em greves e não melhorarem suas condições de trabalho, assinar petições públicas que em nada demovem representantes do poder público de seus privatistas e privadíssimos interesses.

Antigos combatentes por um mundo mais fraterno e menos movido pelos narcisismos de quaisquer diferenças começam a se recolher em grupos cada vez menores, engambelar seus impulsos transformadores com posts coléricos compartilhados entre aqueles que ainda não foram bloqueados de suas redes sociais e trocar as manifestações coletivas nos espaços públicos por discussões restritas aos seletos grupos de Whatsapp cujos efeitos têm o alcance, no máximo, de uma lista de contatos que caibam no celular. Isto quando não aderem ao solitário recolhimento niilista.

Parece que as sucessivas golpeadas que se seguiram ao golpe sofrido pelo Brasil em 2016 vão deixando suas marcas não apenas na economia em derrocada, não somente na soberania nacional surrupiada. É também no plano das subjetividades, no modo como as pessoas se relacionam, se sentem e falam de si, entre si, trocam com amigos e se encontram com os diferentes, conversam em família ou circulam na esfera pública que o país da jovem democracia violentada mostra suas feridas.

Penso, por exemplo, na justificativa que tanto tenho escutado para que pessoas, mesmo das mais lúcidas e cientes da gravidade do que vem ocorrendo no país, abram mão de espaços de participação política dizendo “não vou porque não vai adiantar, o jogo é de cartas marcadas” ou coisas  do tipo. Pergunto-me pelo paradeiro de manifestantes como a senhora Taís Helena Galon Borges que surtou num posto de combustíveis, esbravejando contra o governo Dilma por ter que pagar  R$2,80 o litro da gasolina para abastecer seu carro. “Onde anda Taís Helena?”, pergunta um post debochado na semana em que a gasolina sobe a R$5 em vários locais do país. Penso no silêncio das panelas…

Talvez seja necessário entendermos um pouco melhor que modo de subjetivação é capaz de produzir tamanha capacidade de resignação. Pois é bom lembrar que a tão falada “crise” não é um fato circunstancial, ou evento sazonal, como uma peça que o destino colocou a ser enfrentada por diferentes povos. A crise é um modo de governar, necessário à produção de subjetividades frágeis que, uma vez vulneráveis e suficientemente despotencializadas em suas possiblidades de sobrevivência autônoma, tornam-se presas fáceis de provedores de migalhas de vida. A crise é o terreno próprio à liderança dos salvadores da pátria, figuras públicas vis, que se alimentam da fragilidade alheia como se viessem a apoiá-las quando na verdade são eles que as produziram assim, mendicantes.

Por este motivo, talvez seja mais do que nunca imprescindível mantermo-nos alinhados à contemporaneidade e cientes de que o Brasil da pós-verdade, que retroage às lógicas escravocratas e se vende a preço de banana – sem, ainda, que isto provoque uma convulsão social -, é o mesmo Brasil dos quilombos, de Canudos, dos Inconfidentes e da Coluna Prestes, das Diretas Já, das revoltas de 2013 e das ocupações dos secundaristas de 2016. O Brasil do presente, dominado pelo que muitos têm chamado de imperialismo judiciário, no período vigente de suas seis constituições federais já teve seis vezes seu Congresso Nacional fechado, 13 presidentes que não concluíram o mandato e seis golpes de Estado.

Temos um dos judiciários mais caros do mundo (que corresponde a cerca de 1,3% do PIB) e o pouco honroso segundo lugar em um ranking mundial de desigualdade, com 27% da renda do país concentrada em 1% dos brasileiros mais ricos. Trata-se, pois, de uma história que nada tem de linear ou pacífica por qualquer índole do povo como muitas de nossas aulinhas de história oficial nos fez crer. É, muito antes, uma história de sucessivas manipulações pelas elites políticas, pelos “doutores da lei”, habituadas a negligenciar as demandas da ampla maioria da população, naturalizar seus privilégios e sentir-se confortável em usufruir deles sem qualquer consciência moral pelo aprofundamento das desigualdades sociais que alimentam.

Presente obscuro

O filósofo italiano Giorgio Agamben tem uma expressão interessante para designar “O que é ser contemporâneo” (título de um de seus ensaios, publicado em 2009). Ele chama de “escuridão do presente” esta visão nebulosa e distópica de um mundo que já não parece passível de qualquer transformação, que nos faz meros sobreviventes esvaziados da capacidade de projetar um futuro melhor.

Contudo, esta mesma escuridão de um hoje assombrador carrega em si a potência de um futuro possível, latente, ainda que disforme. Ele afirma: “Daí vem que ser contemporâneos é, antes de tudo, uma questão de coragem: porque significa ser capazes não apenas de manter o olhar fixo na sombra da época, mas também perceber nessa sombra uma luz que, dirigida até nós, se afasta infinitamente de nós. Isto é: chegar pontualmente a um encontro ao qual só é possível faltar”.

Tal compreensão me remete à lembrança do que escutei de uma pessoa leiga, cidadão comum e fiel telespectador de nossa mídia rendida ao capitalismo tupiniquim, que fez o esforço de assistir na íntegra os depoimentos dos três desembargadores que ampliaram a pena de Lula no julgamento em segunda instância da pena outorgada pelo juiz Sérgio Moro pelo suposto crime do triplex.

Atento à palavra dos homens da Lei e com firme disposição de formar opinião própria com autonomia e imparcialidade que entende cabível ao momento político de seu país, o brasileiro comum concluiu que deveria também recorrer à justiça e buscar seus direitos de trabalhador assediado por uma chefia do setor público anos a fio. Diverso aos destemperos emocionais que julga impróprios para avaliação da conjuntura atual, o cidadão em questão escutou as nove horas de leitura de sentenças estranhamente pré-elaboradas para concluir que “assim como os juízes arrolaram indícios que ao serem somados provam a culpa do réu, eu também tenho anos de inícios que posso juntar e comprovar que fui levado ao adoecimento por injustiças que meu chefe me fez.”

O que chama à atenção da linear conclusão tirada pelo bom ouvidor da mídia local não é tanto a formação delirante que o impede de refletir que a justiça a julgar os crimes de seu chefe não é a mesma que condenou o Lula (no campo da psicopatologia, aliás, não é nada infundado um delírio que o confunda com uma figura emblemática como a do Lula). O mais estarrecedor que encontro em tal construção é o desejo arraigado que aí se expressa de uma instituição judicial que cumpra suas funções. A fantasia perseverante de que contamos com um judiciário que nos trata iguais perante a Lei e ao qual podemos recorrer.

É neste campo, portanto, das distorções perceptivas, da perversidade que se opera com a manipulação das informações, com o jogo de cena que tem se montado para parecer que o ex-presidente está sendo julgado em um processo legal, que o Brasil golpeado apresenta sua faceta mais cruel.

De forma menos ingênua e talvez mais assustadora, estes mesmos efeitos aterradores no plano da produção de subjetivações temerárias e rastejantes, fazem proliferar nas redes sociais mensagens de ódio, ataques pessoais a figuras públicas, ameaças diretas a adversários políticos que ousem meramente expor posições divergentes e formar opinião pública não hegemônica.

O modo como as pessoas têm se autorizado a atacar pública e intimamente àquele que não é espelho mostra, também, que as sombras de um presente angustiante demandam atenção vigilante para não cairmos em estado de paralisia e conformidade desesperançosa. Como alegou em generosa carta aos democratas brasileiros o sociólogo português Boaventura dos Santos: “As emoções fortes são preciosas se forem parte da razão quente que nos impele a continuar, se a indignação, longe de nos fazer desistir, reforçar o inconformismo e municiar a resistência, se a raiva ante sonhos injustamente destroçados não liquidar a vontade de sonhar.”

É bom, por isto, ficarmos muito alertas para evitar que uma análise crítica e realista da realidade que hoje nos cerca e compõe este dificílimo quadro em que o Brasil se encontra sirva apenas a fomentar posturas fatalistas e apocalípticas. Um presente sombrio, como nos ensina Agamben, é uma convocatória à disposição militante das subjetividades insurgentes que insistam na ideia de que a vida não se reduz meramente a sobreviver.

Contra a resignação corrosiva, nossa melhor arma é a imaginação inventiva. A mesma imaginação que levou milhares de estudantes a fincarem pé em seus bancos escolares, quando todos insistiam em dizer que eles já não queriam estar ali e eram mera massa de manobra de lideranças perversas a lhes incutirem esta subversiva ideia de que um país decente se faz com educação de qualidade. A mesma capacidade criativa que, em outros tempos, levou um “cavaleiro da esperança” a atravessar continentes angariando companheiros em marcha por um mundo mais igualitário. Ou a disposição de um retirante nordestino a permanecer em pé no país que, aos olhos de juristas do mundo inteiro, forjou uma farsa processual para meramente impedir que ele volte a governo que pautou a justiça social.

Contra a desistência mórbida há que se aprender, como nos ensinou Calvino, a distinguir o que no inferno não é infernal e fazer resistir o que há de potência e que ainda faz brotar vida nos mais impensáveis desertos.


SIMONE PAULON é psicóloga especializada em Psicologia Social e professora da Universidade Federal do Rio grande do Sul (UFRGS).

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