Gramsci: O olhar móvel e ingênuo da hegemonia

Gramsci: O olhar móvel e ingênuo da hegemonia
(Arte Andreia Freire)

Em um artigo publicado em 1924 na revista Rivoluzione Liberale, o jovem intelectual liberal piemontês Piero Gobetti descreveu Antonio Gramsci como o mais destacado do grupo de jovens socialistas que havia tomado parte no movimento de greves e ocupações de fábrica de Turim no biênio vermelho de 1919 e 1920. Gobetti era amigo e também adversário político e intelectual de Gramsci e, por esse motivo, sua admiração era acompanhada de certo desdém pela figura do dirigente socialista e, também, por boa dose de perplexidade:

“Gramsci tem a cabeça de um revolucionário, seu retrato parece construído pela vontade, talhado rudemente e fatalmente por uma necessidade íntima que deve ser aceita sem discussão: o cérebro sugou o corpo. O líder dominante sobre os membros doentes parece construído segundo relações lógicas necessárias para um plano social e retém deste esforço uma rude e impenetrável seriedade: somente os olhos móveis e ingênuos, contidos e escondidos pela amargura, interrompem por vezes, com a bondade do pessimista, o vigor firme da sua racionalidade.”

Gobetti conhecera Gramsci durante a Primeira Guerra Mundial em Turim. A idade insuficiente de um e o corpo doente do outro haviam impedido o alistamento e a ida para a trincheira para ambos. Por este motivo, os dois viviam e intervinham nos conflitos do chamado front interno, no ambiente de transformações e complicações múltiplas – econômicas, políticas, culturais – geradas pelo conflito na Itália.

Os desdobramentos trágicos da guerra haviam provocado uma crise profunda nas correntes políticas e intelectuais europeias, sentida também na Itália. Liberais, católicas, socialistas e nacionalistas não eram capazes de interpretar e resolver de fato os problemas gerados pela guerra no país; estes se avolumavam: as tragédias humanas da morte e da miséria, bem como o fantasma da revolução.

Naqueles anos de guerra, Gramsci iniciou sua atividade como cronista da imprensa socialista de Turim. Seus artigos nos jornais Avanti! e Il Grido del Popolo miravam a hipocrisia e o cinismo de articulistas e acadêmicos da época. A origem sarda e os problemas de saúde que o acompanharam desde o nascimento pareciam impulsionar Gramsci com mais fervor crítico ainda contra o comodismo e o elitismo subjacente às análises de muitos dirigentes e intelectuais sobre a vida popular, particularmente a periférica. A frágil condição pessoal dava o tom do desenvolvimento de sua personalidade política.

As crônicas do jovem jornalista sardo miravam com frequência dois antagonistas: neutralistas – para quem a Itália não deveria se posicionar politicamente diante do conflito mundial – e interventistas – que defendiam a participação militar dos italianos na guerra contra os alemães. Em seus artigos, Gramsci procurou desconstruir a polarização aceita como óbvia pela opinião pública desde antes da guerra entre estes dois círculos intelectuais: nas polêmicas entre neutralistas e interventistas, Gramsci via muito estardalhaço midiático e pouca atenção para uma certa sincronia. O comodismo dos primeiros parecia, em sua opinião, fortalecer o militarismo dos segundos.

A agressividade nacionalista dos interventistas sustentava o massacre dos soldados no exterior, enquanto o pacifismo comodista dos neutralistas operava a decapitação política das classes subalternas na Itália. Intervencionismo e neutralismo, apesar da aparência contrastante, atuavam na política como complementares. Neste difícil cenário, em que a aparência confundia a compreensão da essência, Gramsci investigava o mecanismo que operava para que duas visões de mundo díspares fossem capazes de atuar em confluência perversa.

Um marxista ocidental?

Em 1926, Antonio Gramsci – então um importante dirigente comunista – foi preso e passaria mais de uma década como prisioneiro de Mussolini. Neste intervalo, obteve permissão para escrever e preencheu, durante aproximadamente seis anos, 19 cadernos de tipo escolar com apontamentos sobre os temas mais diversos, sendo alguns mais presentes que outros, algumas notas mais organizadas e encadeadas que outras, muitas anotações reescritas. Gramsci sofreu um derrame e faleceu em abril de 1937, poucas semanas depois de ter sido transferido da prisão para uma casa de saúde. Não viu a Segunda Guerra Mundial, portanto, e nunca teve controle sobre a publicação do que escreveu na prisão, suas cartas ou sobre as coletâneas de seus artigos jornalísticos.

Com o fim da guerra, a partir do final dos anos 1950, muitos dos escritos de Gramsci passaram a ser publicados e traduzidos em outras línguas. Com as primeiras análises deste material, tornou-se comum entre os intérpretes de seu pensamento o argumento de que haveria uma profunda descontinuidade entre aqueles artigos jornalísticos do período da Primeira Guerra até meados dos anos 1920 e os Cadernos do cárcere (1929-1935). Essa interpretação partia da ideia de que Gramsci teria sido, no primeiro momento, tributário das ideias neoidealistas de Benedetto Croce e Giovanni Gentile, mas que, em seguida, teria rompido drasticamente com esta perspectiva para se tornar verdadeiramente marxista nos Cadernos.

Essa leitura constituiu o núcleo de uma operação cultural protagonizada pelos intelectuais vinculados ao Partido Comunista Italiano (PCI), que tinha por objetivo afirmar uma “supremacia” comunista diante do pensamento liberal. Para estes, ao longo dos anos, Gramsci teria caminhado do polo idealismo/liberalismo/socialismo no sentido do materialismo/marxismo/comunismo. Por meio desta elaboração, todo o pensamento político da resistência ao fascismo poderia ser reorganizado dentro de um espectro formado pela distância entre os dois opostos: a tradição idealista-socialista e a tradição materialista-comunista.

Os principais problemas dessa operação cultural são dois: primeiro, a linearidade com que o pensamento de Gramsci foi tratado, como se os escritos carcerários representassem uma espécie de testamento a ser interpretado como palavra final, bem-acabada e única; e a arbitrariedade com que se propôs que Gramsci teria desenvolvido suas ideias a partir de uma oposição lógica e linear entre liberalismo e marxismo.

As raízes dessa elaboração retrospectiva estavam fincadas na necessidade sentida pelos dirigentes do PCI nos anos 1960. Por um lado, era preciso justificar de alguma maneira a unidade política ampla que derrotara o fascismo no final dos anos 1940 sem rever abertamente as polêmicas da década 1930 ao redor do problema do “social-fascismo”. Com o fim da guerra, era preciso mostrar que comunistas haviam se aliado aos liberais e católicos sem perder o controle da situação, pois, como Gramsci teria mostrado “claramente”, os marxistas seriam, por natureza, superiores às demais correntes. Por outro lado, e ainda mais importante, era preciso justificar as alianças eleitorais que se projetavam no horizonte sem com isso abrir espaço para questionamentos sobre a viabilidade destas. Os comunistas poderiam aliar-se no governo aos católicos ou liberais no governo, pois, como Gramsci teria demonstrado, os marxistas seriam, naturalmente, dominantes.

Não por acaso, quando os dilemas dessa experiência política do compromisso, arquitetada e coordenada pelos comunistas italianos no pós-guerra, passaram em revista crítica nos anos 1970, as ideias e mesmo a história de Antonio Gramsci foram interpretadas como responsáveis pelos erros políticos. Em uma inversão curiosa, já que sustentada sobre a mesma estrutura argumentativa dos teóricos do PCI, os críticos passaram a dizer que Gramsci teria tentado, mas nunca conseguido, se tornar um marxista radical. Quando muito, como sustentou Perry Anderson, Gramsci teria chegado perto de um marxismo confuso ao elaborar o conceito de hegemonia, mas seu apego ao neoidealismo nunca teria sido completamente superado. No limite, Gramsci teria permanecido um reformista, um “marxista ocidental”.

Uma voz na margem

Também nos anos 1970, um conjunto de intelectuais situados na margem das discussões dos marxismos oficial e antioficial passa a prestar atenção em Gramsci e a ler seus escritos. Alguns – como é o caso do crítico literário Raymond Williams – deixaram de lado as supostas “confusões” para incorporar de maneira criativa o conceito de hegemonia na pesquisa sobre a vida cultural das classes populares. Outros – e aqui um bom exemplo é o historiador indiano Ranajit Guha – passaram a se interessar por passagens menos discutidas e aparentemente inofensivas dos escritos carcerários gramscianos, como as que tratavam das possibilidades de uma história das classes subalternas.

A aproximação desinteressada e criativa destes e de outros intelectuais, tais como Stuart Hall, E. P. Thompson, Gayatri Spivak e Pierre Bourdieu, para citar alguns, com as ideias de Gramsci fez com que muitos de seus conceitos e noções se dissolvessem e penetrassem de maneira invisível parte importante do pensamento político e das ciências sociais do final do século 20. Em comum, esta difusão teve a ambição de explorar as dinâmicas da vida popular sob ângulos analíticos menos burocráticos e mais sensíveis às complexas dimensões que estruturam a política na periferia e na margem.

Em paralelo, a pesquisa filológica que, nos últimos trinta anos, se dedicou a renovar a pesquisa especializada italiana dos escritos pré-carcerários e dos Cadernos do cárcere operou uma transformação aguda na maneira como as ideias de Antonio Gramsci passaram a ser recebidas pelas novas gerações de leitores e pesquisadores de seu pensamento. A queda do Muro de Berlim foi também a queda do monopólio dos “herdeiros de Gramsci”.

As ideias de Gramsci puderam se manter vivas e renovar a caixa de ferramentas do pensamento, portanto, porque, num primeiro momento, foram traduzidas de maneira livre e herética nas línguas de diferentes experiências intelectuais críticas e engajadas e, em segundo, porque estas ideias foram religadas ao universo e trajetória singulares de seu autor.

Quando, em 1924, Gobetti retratou o amigo e adversário político não deixou de notar com certa surpresa que Gramsci despontava como líder dominante sem ser um “líder dominante”. Gramsci não fora soldado e tampouco se tornaria um general. Pensando nisso, Gobetti o aproximava não da figura do estadista, mas da imagem do profeta. As palavras e ações de Gramsci, de fato, nunca viriam a dirigir baionetas e canhões vitoriosos no campo de batalha. Mas elas se manteriam vivas para gerações e gerações de “olhos móveis e ingênuos”, pois Gramsci era já um legítimo representante da revolução derrotada que amaldiçoa os vencedores. Como disse Romain Rolland pouco depois de sua morte em abril 1937: “Nosso Gramsci não está morto e não foi derrotado”.

Daniela Mussi é pós-doutoranda e Ciência Política na USP. Autora do livro Política e literatura: Antonio Gramsci e a crítica italiana (Alameda, 2014)

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