“Afropessimismo”, de Frank B. Wilderson III, e outras sugestões de leitura

“Afropessimismo”, de Frank B. Wilderson III, e outras sugestões de leitura
Para Wilderson, a construção social da escravidão é um mecanismo atuante na construção da opressão dos negros

 

[não ficção]

Misturando filosofia e memórias pessoais, o autor tece reflexões sobre a racialização dos debates políticos e questiona a experiência do negro definida pela violência. Para Wilderson, professor da Universidade da Califórnia, a construção social da escravidão é um mecanismo ainda atuante na construção da civilização e da opressão dos negros. Define o afropessimismo como uma metateoria que rebate a posição do negro em outras teorias, e afirma que os “negros não são sujeitos humanos, sendo, em vez disso, estruturalmente suportes inertes, ferramentas para a execução das fantasias e dos prazeres sadomasoquistas dos brancos e dos não negros”. Para o autor, o negro não é considerado um sujeito político pois “uma agenda negra radical é apavorante para a maior parte das pessoas à esquerda”, “emana de uma condição de sofrimento para a qual não existe estratégia imaginável de reparação”.

Histórias de cinquenta países que deixaram de existir. Colecionador de selos postais, o arquiteto norueguês rastreou e relatou a trajetória de diversos países que, em comum, produziram selos antes de desaparecerem do mapa. Através de relatos ficcionais e de testemunhas oculares, vai-se da Carélia Oriental, país que existiu durante algumas semanas da Guerra Russo-Finlandesa de 1922, ao Estado Livre de Orange, que permaneceu por cinquenta anos como um Estado independente, em finais do século 19, na África Meridional. Biafra, New Brunswick, Labuão, Tannu Tuva e Inini são outros dos países inusitados que aparecem na obra.

A tese do livro, como a filósofa declara já nas primeiras linhas do prefácio, é da humilhação enquanto uma “ação que é, ao mesmo tempo, uma produção mental, teórica e linguística, emocional e afetiva”. Pensa a colonização como um mecanismo atual de institucionalizar esse processo e, assim, sustentar a desigualdade social. À ideia do “complexo de vira-latas”, a autora articula o “complexo de Colombo”, “a impotência para o diálogo” que “constitui a colonização, nossa infeliz matriz subjetiva”.

Civilização Brasileira, 2021, 196 páginas


[ficção]

Em quarenta fragmentos poéticos, o escritor português, especialista em literaturas africanas, explora cenas rápidas e sutis de encontros e desencontros eróticos. Percorre os poemas a energia de Eros que espraia-se à natureza e ao reino ferino, no “turbilhão de prazer” do rio ou no voo baixo do pássaro que sorve a vida. As ilustrações de Luís d’Orey reforçam as sugestões dos poemas e jogam com a revelação proporcionada pela sombra em relação ao encoberto pela luz.

Reedição do livro de estreia do poeta carioca, originalmente publicado em 2004. Para o crítico Italo Moriconi, que assina a apresentação, os 22 poemas da obra podem ser divididos em três tempos. No conjunto inicial, há uma espécie de apresentação da poética do autor, sua concepção de poesia. Depois vem o núcleo ardente do livro, tal qual o sol que o intitula: a aproximação estarrecedora da palavra e sua modulação no fazer poético. Por fim, “na contracorrente da poética da depuração”, surge um cenário de matiz apocalíptico, com aproximações com a morte e a finitude.

Primeiro volume da reedição da obra poética produzida pelo escritor francês até 1993. Em edição bilíngue, traz uma poesia que, “sem perder a sua esperança do ‘lugar verdadeiro’”, aceita “que o espaço da palavra seja o entre-dois-mundos, e mesmo numa dupla aceitação: entre o mundo árido de nosso exílio e o jardim de presença”, nas palavras do crítico Jean Starobinsk. Apesar de não ser um formalista, percebe-se o rigor estilístico na construção de sua poesia. Como o próprio Bonnefoy declara, poeta é aquele que “cria relações, não entre ideias, mas entre palavras, pela via da beleza de uma escrita que faz intervir as sonoridades, os ritmos, e toma a aparência de imagens”.

Reunião de toda a “Viagem a Andara” do poeta paraense. Em dezoito livros, o leitor adentra o universo criado pelo autor, em que a Amazônia torna-se AmazoOnia, região cósmica e onírica, de manifestação do sagrado e dos sonhos na vida. Entre a prosa e a filosofia, assim Cecim define a obra: “Se uns me perguntam o que foi o livro visível que se gerou em mim Ó Serdespanto, desvio a resposta do dedo que aponta para o Livro e aponto diretamente para a Lua de Sermos homens. Um ser de espanto ainda é o homem, que nos acostumando a ser, perdemos o espanto de sermos. Nesse sentido, eu sou Serdespanto. Em vida e livro. Que mais do que escrevo se inscreve em Mim”.


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