A tia lésbica da história da psicanálise

  1. Érica Espírito Santo, Flávia Ripoli Martins, Laura Marosin de Oliveira e Sarah Rocha dos Santos disse:
A tia lésbica da história da psicanálise
Anna Freud em foto de 1914 (Freud Museum)

Uma piada conhecida na cultura sapatão afirma: “Se você não sabe quem é a tia lésbica da sua família, é porque ela é você”. Difundida com certa ironia, essa sátira tira o véu do esquecimento que muitas vezes recobre as existências lésbicas, até muito pouco tempo atrás invisibilizadas no seio familiar, na sociedade e também no campo da psicanálise.

Freud, no texto sobre o chiste e seus mecanismos psíquicos, publicado em 1905, põe os ditos espirituosos como uma das formas de manifestação do inconsciente, que se caracterizam por suspender as barreiras da censura para fazer emergir no laço social um desejo recalcado ou algo que está esquecido. Cabe então perguntar: o que a piada sobre a tia lésbica acusa e satiriza? É possível ouvi-la também como uma denúncia sobre a dificuldade da psicanálise em reconhecer a lesbianidade da filha caçula de Freud?

Ao apontar um não saber sobre a tia lésbica, a piada interroga a emissora, a receptora e a audiênacia sobre as condições de reconhecimento das experiências lésbicas que não podem ser lidas apenas como produto da desinformação ou da discriminação individual. Como Butler analisa em Problemas de gênero, de 1990, a invisibilização das figuras que rompem com a norma de gênero e sexualidade está enraizada em uma estrutura discursiva que produz, organiza e regula o que pode ou não ser reconhecido como legítimo.

Em diálogo com Kristeva, Butler propõe que, ao desafiarem as exigências de linearidade e estabilidade de gênero, e exporem os limites da matriz de inteligibilidade, as lésbicas são lançadas à zona da abjeção. O abjeto, produto de uma exclusão constitutiva, é aquilo que a norma expulsa para manter sua ficção de coerência e naturalidade. No entanto, sem ser totalmente expulso, ele ronda o campo normativo, desestabiliza a sua coerência e expõe o custo psíquico e político da conformidade. Por isso, se a norma fabrica o sujeito, o abjeto marca a ferida que essa fabricação exige, tornando-se a força que perturba os limites do inteligível.

Ouvir o que mulheres tinham a dizer abriu caminhos para a psicanálise desde seu início. Contudo, naquele tempo, só era possível que essas vozes fossem ouvidas se repetidas pelos homens que, na construção do edifício teórico psicanalítico, trocaram a centralidade da fala pelo falo. Assim, o que poderia ter sido uma escuta radical dos desejos marginalizados também se deslocou para uma teoria comprometida com uma representação masculina do desejo, organizada segundo as lógicas da falta, da castração e da referência fálica, silenciando outras inscrições do desejo na teoria e na clínica.

Na ausência de uma inteligibilidade possível, a psicanálise clássica interpretou o desejo lésbico como uma sexualidade imatura, histérica, remetida à masculinidade ou traduzida em cumplicidade fraterna, amizade intensa e identificação maternal, como podemos ver na historiografia hegemônica das duplas Anna Freud e Lou Andreas-Salomé, Dora e Sra. K., Anna Freud e Dorothy Burlingham.

Em sua “codificação” das lesbianidades, a psicanálise não apenas encobre sua dimensão erótica, como a torna ininteligível, transformando-a no abjeto da teoria. Isto é, naquilo que insiste, mas que não pode ser nomeado e reconhecido sem desestabilizar os pressupostos que sustentam a própria matriz psicanalítica: o regime heterossexual compulsório.

E aqui voltamos à piada sobre a tia lésbica. O efeito de humor causado pelo desfecho (“é porque ela é você”) ironiza o apagamento e ainda interpela a receptora, convocando-a a saber de si mesma antes de precisar ser avisada por um terceiro sobre a sua própria sexualidade. Daí deriva a insistência, com toques de humor, em afirmar que, mesmo à margem da família e da sociedade, e independentemente de ser reconhecida e se reconhecer, a tia lésbica existiria em qualquer família.

Ainda hoje, o familismo é uma ideologia difundida tanto na construção de hipóteses e interpretações psicanalíticas quanto nas suas escolas e instituições organizadas a partir de laços de irmandade e filiação. E, como uma família tradicional, a psicanálise insiste em esconder a lesbianidade de Anna Freud, a lésbica mais importante de sua história.

Psicanalista desde os anos 1920, a filha caçula de Freud compartilhou mais de meio século de sua vida com a também psicanalista Dorothy Burlingham. E, como ditam os casos mais clássicos de amor sapatão, Anna e Dorothy ficaram juntas desde que se conheceram, em 1925. Moraram no mesmo prédio em Viena, adquiriram uma linha direta de telefone, dividiram o trabalho, compartilharam a parentalidade dos quatro filhos de Dorothy e compraram uma cabana para cultivar a terra e levar amigos e familiares aos finais de semana.

Em 1938, Anna e Dorothy se mudaram para Londres junto com a família Freud. Foram vizinhas até a morte de Martha Bernays – a mãe de Anna –, quando concretizaram sua vida conjugal, indo morar juntas na casa onde hoje é o Museu Freud de Londres. Escreveram livros em coautoria, fundaram a casa de acolhimento infantil Hampstead Clinic, viajaram e, desde que se conheceram aos 30 anos de idade, nunca se separaram. Dorothy faleceu em 1979, e suas cinzas foram depositadas no Freud Corner, onde também estão as cinzas de Anna, que morreu três anos depois.

A despeito desses fatos que evidenciam como Anna e Dorothy compartilharam, ao longo da vida, a casa, o trabalho e a família – considerados os pilares da conjugalidade heterossexual tradicional –, grande parte da historiografia psicanalítica ainda insiste em negar com veemência o erotismo presente na relação entre as duas mulheres. Nesse sentido, Élisabeth Roudinesco, Elisabeth Young-Bruehl e Michael John Burlingham – respectivamente biógrafos de Sigmund Freud, Anna e Dorothy – defendem, cada um à sua maneira, que Anna e Dorothy foram amigas por toda a vida, invisibilizando o caráter lésbico do relacionamento entre elas. A contraprova, por sua vez, só poderia existir caso fossem encontradas declarações explícitas de amor e desejo sexual nas cartas trocadas entre as duas, ainda não disponibilizadas para pesquisadores.

Contudo, o aspecto mais interessante dessa discussão aponta uma pergunta que os historiadores da psicanálise parecem ter dificuldades em responder. Afinal, o que fazer com a sexualidade dissidente de Anna Freud? A resposta: sublimá-la. Tomá-las como lésbicas no sentido intelectual, da forma como é discutida no livro sobre Dorothy Burlingham. No que é biografado sobre as duas, há uma espécie de busca pelo que seria more likely (mais provável, para não dizer desejável) em detrimento do que é óbvio. A psicanálise trata a relação sexual de Anna e Dorothy como se fosse uma mãe que não quer enxergar a sexualidade da filha e acredita que ela se tranca todas as tardes com a “amiga” para estudar. E mesmo ao abrir a porta do quarto e encontrar as camas das duas juntas, continua querendo achar mais provável que elas são só amigas.

É necessário admitir que a filha que se tranca no quarto com a “amiga” não apenas se esconde do olhar materno, como também se diverte atrás da porta fechada. Ela pode fazer isso justamente porque, em certa medida, o caráter erótico da relação passa despercebido aos observadores enviesados pela lupa da heteronormatividade. Eis a dicotomia que atravessa as experiências lésbicas: a invisibilidade possibilita a invenção de outras formas de viver, transar, estar no laço social, festejar e criar cultura. Como ilustra Preciado na crônica “Viagem a Lesbos”, na qual narra os verões na ilha de Safo da década de 1990, ou pelo vegetarianismo, ou pelo apelo à revolução, ou pelos jogos de vôlei entre butchs e femmes, ou pelas leituras da obra de Monique Wittig, ou pelo ato de dividir um pedaço de terra e mar com centenas de lésbicas nuas, há diversão em estar ilhado do olhar vigilante da heteronorma.

E será que não podemos chegar à mesma conclusão no que se refere a Anna Freud e Dorothy Burlingham? Afinal, escolher dividir a vida, cultivar a terra e rodar o mundo foi para elas uma forma de resistência política e subversão. Além disso, a incapacidade de enxergar o fato de que elas eram lésbicas foi também a condição de possibilidade para que Anna e Dorothy ocupassem o posto de autoridade ideológica da Associação Psicanalítica Internacional – a instituição de psicanálise mais importante de sua época – e para que Anna Freud fosse alçada ao lugar de principal herdeira e guardiã do legado de seu pai. Ao observarmos todos esses fatos a distância, nossa risada ecoa diante da ironia de que a invisibilidade da sexualidade de Anna e Dorothy foi o que possibilitou que elas ocupassem o alto escalão do poder psicanalítico, em uma época em que o exercício da psicanálise era proibido aos homossexuais.

No entanto, é necessário insistir na ideia de que, se do ponto de vista subjetivo e político a invisibilidade pode ter uma potência, os parâmetros que cerceiam o erotismo lésbico ainda são uma questão para a teoria e a clínica psicanalíticas. E isso se dá pois querer entrar no quarto de Dorothy e Anna para descobrir que tipo de sexo essas mulheres faziam comporta o risco de se estabelecer uma espécie de norma biológica, um julgamento sobre que tipo de relação sexual seria suficiente para determinar não só a lesbianidade dessas psicanalistas, como também os parâmetros de validação dos diversos tipos de laço conjugal. Nesse sentido, esperar ainda uma espécie de coming out revelador é também se recusar a ver o que não precisa de confissão ou prova irrefutável, diante do excesso de dados para olhos que queiram ver a realidade de um relacionamento cotidiano e conjugal.

Ao tratarmos desse cenário, também estamos falando da “tia lésbica” que, ao tentar sair do armário, percebe que o armário já não existe, pois tudo já foi dito e ela era a única que ainda não sabia sobre si. Esse ponto nos interessa pois é necessário perguntar que resistência de reconhecimento é essa que ainda persiste na psicanálise. Por que, diante do companheirismo de uma vida inteira de Anna e Dorothy, ainda se exige que deveria haver uma prova correlata ao sangue que comprove o rompimento do hímen? Anna Freud precisa seguir virgem ou dar prova do contrário?

Permanecer à procura de algum tipo de prova irrefutável de que Anna e Dorothy transavam é uma forma de trazer à tona os fantasmas de uma teoria que, apesar de tão afeita a reconhecer e mapear todos os destinos idiossincráticos e polimórficos da sexualidade humana, continua com dificuldade em reconhecer uma relação lésbica como sexual. Posição que, em 2025, ainda assombra as tantas formas de se relacionar e transar fora do padrão heterossexual.

É por isso que a presença silenciada e ausentada da lesbianidade revela um sintoma estrutural do corpo teórico psicanalítico: sua coerência se sustenta sobre exclusões fundadoras. A lesbianidade não é apenas o que a psicanálise não diz, mas precisamente o que ela não pode dizer para continuar dizendo o que diz. Ou seja, é aquilo que a teoria não pode admitir sem se transformar, sem pôr em xeque sua fundamentação epistêmica no modo de ler o desejo, o laço e o sujeito.

Para concluir, cabe reafirmar que Anna Freud, consciente ou não de sua lesbianidade, conivente ou não com essa psicanálise que prefere fazer o papel da família que não reconhece as suas “tias lésbicas”, ocupou o topo da hierarquia psicanalítica. Assumi-la, mesmo que tardiamente, rompe a ciranda de invisibilização fundada no pacto entre quem não é reconhecido e quem não se reconhece. Afinal, Dorothy e Anna até poderiam dizer que havia lugar para lésbicas na psicanálise, mas apenas sob a condição de que a lesbianidade não fosse escancarada. Desde que fossem discretas, quase imperceptíveis, partilhando os códigos da norma. É porque Anna e Dorothy, nossas tias lésbicas, estiveram aqui antes de nós que podemos agora usar a nossa língua para abrir caminhos na psicanálise, retirando a lesbianidade do lugar de abjeto e reafirmando-a como um dos operadores de sua reinvenção.

Érica Espírito Santo é psicóloga e psicanalista, doutora em estudos psicanalíticos pela UFMG, supervisora e professora no coletivo Travessias – Percursos em Psicanálise, idealizadora do Travessias Lésbicas

Flávia Ripoli Martins é psicanalista, graduada em psicologia e mestre em psicologia clínica pela PUC-SP. Autora de Histórias da margem: Lésbicas, gays e os primeiros psicanalistas (Blucher, 2023)

Laura Marosin de Oliveira é psicóloga e pesquisadora. Mestranda bolsista em teoria psicanalítica na UFRJ e integrante do coletivo Intervenção: Por uma Psicanálise Clínico-Política

Sarah Rocha dos Santos é psicóloga, psicanalista e pesquisadora de dissidências. Mestra e doutoranda em teoria psicanalítica pela UFRJ

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