A carta e piano: O amor lésbico e a transmissão em psicanálise
“Untitled 6” (década de 1970), fotomontagem de Tee Corinne, parte da mostra “The Great American Lesbian Art Show”, 1980 (Lesbian Herstory Archives/Dcmny)
Um dia piano nos contou que as cartas de amor são a própria noção de um amor bem vivido. Desses que nos possibilitam retomar a nós mesmas quando se instauram as novas ruínas vivenciadas pelo risco de quem ama. Numa dessas, piano desidentificado de si recorre a um amor antigo e pergunta: “Quem sou eu? Você se lembra de mim quando estávamos juntas?”. Nada é mais desconcertante que amar alguém de perto.
Do outro lado do mundo chega a piano uma fotografia de uma carta enviada há muitos anos. Ao olhar sua letra no papel e reconhecer o momento em que a escreveu, acessa algo sobre si e sobre a forma como aquele bom amor refletia também a boa amante. Ali piano se toca de que sua tentativa bem-sucedida era requerer um documento próprio, que estava sob a guarda de um amor antigo e disse em voz alta: “Mensagem dada, mensagem recebida”. E entendeu sua paixão por escritoras.
Só alguém apaixonada pelas palavras teria a capacidade de ocupar tantos lugares: ser remetente, ser destinatária, ser guardiã. O que encobre essa cena diz como uma carta pode atravessar o tempo e revela a piano como os restos de um amor antigo a salvou de seu despedaçamento, reconhecendo sua inteireza. Num eu, outrora despedaçado, piano e a carta se encontram pelos afluentes do tempo, revelando a atemporalidade das cartas e do amor. Trata-se de um contrato com a experiência, uma resposta ao momento em que ela ressurge.
As cartas podem, nos bons amores, ser devolvidas à remetente original pela destinatária. Como se nas andanças do risco do amor fôssemos deixando rastros par
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