O convite do sexo lésbico: Uma travessia entre fronteiras
“Untitled 4” (década de 1970), fotomontagem de Tee Corinne, parte da mostra “The Great American Lesbian Art Show”, 1980 (Lesbian Herstory Archives/Dcmny)
“Como vocês transam?” Não há uma lésbica que não tenha passado por esse tipo de situação, ao menos uma vez na vida. O tom da pergunta surge em uma sonoridade amigável. “Posso te fazer uma pergunta íntima? Porque tenho muita curiosidade em saber: como vocês transam, o que vocês fazem?” Perguntas que dizem mais de Pedro do que de Paulo, no jargão psicanalítico. E essa pergunta aparece, sobretudo, na boca de outras mulheres, geralmente cis, heterossexuais, que abordam a amiga sapatão e esperam uma resposta.
Há vários rumos possíveis diante desse tipo de curiosidade. Destaca-se o caráter fetichista que o sexo lésbico pode obter no imaginário, a dimensão marginal de um sexo que foge à lógica heteronormativa, ou ainda algo mais radical: o que a heteronormatividade conta do seu aspecto sexual quando tem dificuldades de fantasiar um encontro erótico, sem a presença do falo imaginário? Ou ainda que convite erótico um sexo entre duas lésbicas pode suscitar em qualquer um: homens, mulheres, não binaries, travestis e por aí vai? As fantasias são inúmeras, e elas tendem a se encerrar numa solução binária: “Quem será a ativa, quem será a passiva? Quem come e quem recebe?”.
Fantasias que cabem apenas na imaginação heteropatriarcal moderna, disposta a separar a atividade da passividade, a natureza da cultura, o erótico das palavras: “A transa começou quando eu recebi aquele cartão, e nele ela falava dos nossos olhares e da minha voz. Ali eu já comecei a ficar molhada”. As palavras nos fazem molhar. Um chá no final do dia após
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