Do rebuceteio ao divã: Notas sobre a escutabilidade em psicanálise

Do rebuceteio ao divã: Notas sobre a escutabilidade em psicanálise
Mulheres na Marcha do Orgulho Gay, Nova York, 1979 (Bettye Lane/Lesbian Herstory Archives/Dcmny)
  Deitada no divã, ela relata um convite embaraçoso. Um evento onde estará sua ex-namorada, acompanhada da atual que, por sua vez, é conhecida de outros carnavais. Ir ou não ir? Em outra cena, talvez uma paciente se debruce diante do medo quando sua família souber que a “amiga” com quem divide o apartamento não é, afinal, apenas amiga. É a mulher que toca o seu desejo, convoca o corpo e com quem tece um projeto de vida. São, na verdade, casadas. Ou, ainda, alguém chega ao consultório mobilizada pela angústia que emerge quando a família interroga por que sua namorada mora com a ex-namorada, atualmente amigas. Surge, então, a urgência de revisarmos as gramáticas parentais que escapam ao patriarcado. Caminhamos para outra cena: ela relata o dia em que sofreu um acidente. No hospital, sua namorada foi impedida de encontrá-la: visitas restritas a “familiares”. Essa lésbica habita divãs há muito tempo. Há muito tempo também a psicanálise produz discursos sobre as lesbianidades. Interessa-nos ouvi-los, retomá-los, dizê-los. Entre olhares e vozes que se encontram na afirmação de ser lésbica. Cabe-nos, tal como o gesto de Preciado frente a uma plateia de psicanalistas cis e héteros em Eu sou o monstro que vos fala, pensar nesse salto, nesse giro. Como sair do divã e ocupar o lugar de sujeito da enunciação na transmissão em psicanálise? O “rebuceteio” pinça algo do comum na cena lésbica e seus léxicos: sujeitos que, tendo se relacionado erótico-romanticamente, seguem compartilhando espaços de convivência, por vezes incluindo

Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »

TV Cult