Ventriloquacidade

Ventriloquacidade

Ventriloquacidade foi publicado há algum tempo na Revista CULT. Gostaria de tê-lo escrito hoje, mas a reflexão vem de longe…

O esquecido fator político da voz define-se no estranho jogo de linguagem em que o falante não é ele mesmo

Se ventríloquo é o artista cuja performance consiste em não mexer os lábios, dando a impressão de que sua voz sai de um títere, ventriloquacidade é a capacidadade de falar por meio de outrem. Este outro é o títere sem o qual a vida do ventríloquo não tem sentido. Entre eles se estabelece a dialética reveladora de um fundamental jogo de linguagem do nosso tempo.

Diferente da máscara que permite ao mesmo sair de cena para dar lugar ao outro no teatro ou nas festas populares, operando aquilo que Roger Caillois chamou uma “vitória do fingimento”, o boneco permite que o ventríloquo mantenha sua presença, ainda que secundária, mostrando-se enquanto se esconde. Também aí vence o fingimento, mas com uma particularidade astuciosa. O ventríloquo que mantém sua participação sem desaparecer, tampouco se compromete com o fato da própria presença. Para quem o assiste, o boneco é o falante cuja ilusão só pode ser desfeita pelo reconhecimento do estranho jogo de linguagem entre manipulador e boneco: o jogo basculante entre dizer e não-dizer. Tal jogo depende de um aspecto guardado na etimologia da palavra ventríloquo, mas que o define apenas precariamente. Ventríloquo é aquele que fala com a barriga, o que não acontece sem que entre em jogo, ocultamente, a mão que opera o boneco.

Em nossa linguagem popular dizemos “empurrar com a barriga” para o trabalho indesejável e inevitável a fazer. Ventríloquo será aquele que, não desejando mostrar que fala, assumindo boca e rosto – ou a per-sona, a máscara através da qual soa a voz -, não faz outra coisa que falar, mas, ao falar com a barriga, mal fala, embora fale suficientemente para atingir seu fim, o logro do receptor quanto à origem da voz. A barriga é o rosto oculto do ventríloquo, rosto que não pode ser máscara, mas pode ser um duplo.

Pela inversão na brincadeira, o ventríloquo evita, no entanto, dar “a cara a bater”. Vitória do fingimento e do logro no teatro do discurso que só é possível pela manipulação do corpo do títere posto em cena por meio de uma voz postiça. Voz que vem do corpo de um outro. Com a categoria da ventriloquacidade, podemos reabilitar a ideia da “manipulação” no contexto em que discursos, vozes e corpos compõem um único jogo de linguagem.

Mas que voz, que corpo, está em cena na ação da ventriloquacidade? Três momentos da cultura contemporânea brasileira ilustram sua cena: os políticos, os intelectuais e as cantoras.

 

Dialética da Ventriloquacidade

A voz é corpo, continuidade e extensão um do outro a um só tempo. Ventriloquacidade é a categoria capaz de interpretar o fato da voz na cultura humana enquanto ela entra em um jogo de manipulação da voz pelo corpo, do corpo pela voz.

Se a alegoria da ventriloquacidade serve para interpretar a cultura, temos que uns falam por meio de outros. De um lado estão os que disfarçam a voz, de outro os bonecos, objetos artificialmente animados pela manipulação. Na performance do ventríloquo a graça é a ilusão, mas o absurdo da animação do inanimado sempre deixa um resquício: a cara de bobo do manipulador do boneco que se disfarça em esgares. Também o manipulador parece um boneco no esforço em disfarçar-se.

Não é fácil dizer quem é o manipulado e quem é o manipulador.

O ventríloquo é o emblema do cínico na estrutura do poder político. Sua mais perfeita representação são os políticos-vodus (bonecos maléficos) que capturam o espírito da ventriloquacidade no corpo de ventre protuberante dos monstrengos engravatados. Vodus: mensagens de um lugar ignoto e doentio que vem contaminar os corpos dos cidadãos. No solo fértil da política democrática a ventriloquacidade é a voz do povo que ressoa no sufrágio fazendo dos votantes os titeriteiros dos corpos impotentes/prepotentes dos políticos. O Estado que na filosofia de Hobbes foi representado pelos corpos dos cidadãos no composto do gigante Leviatã foi substituído por vermes parlamentares. Corpos feitos ventres prontos a devorar os corpos dos cidadãos. Sendo que os cidadãos lhes dão voz, participam da aterradora dialética da ventriloquacidade tornando-se aquilo que fomentam.

No campo do poder do conhecimento, a ventriloquacidade é exercida pelos intelectuais que evitam a todo custo a afirmação de um pensamento próprio, seja seu, seja de outrem. Afirmam a obediência a uma voz estrangeira ou nacional a ser sempre repetida. O hábito da repetição torna a academia comparável ao naturalmente ventríloquo senso comum que ela visa criticar. O controle da expressão se dá pela moldagem dos protocolos da voz a ser exposta por um corpo reduzido a meio que transmite mensagem. O automatismo do intelectual que repete o texto, a teoria e o jargão faz com que pareça um ator que se esqueceu que atua. O controle da expressão leva à morte da expressão. Desamparadas pelo Estado e pela sociedade como tal, universidades e escolas são campos destinados a formar zumbis.

Além do poder político e o poder do conhecimento dados no controle da voz e pela voz, no qual vence quem esconde melhor, há o território do poder como exceção da voz. No campo da fundamental expressão popular da canção é exemplar o culto atual da voz feminina. No Brasil a canção se tornou riquíssimo capital cultural, o que não nos deixa ver a desproporção presente no fato especial de que o Brasil seja um país de cantoras enquanto é, ao mesmo tempo, um país em que as mulheres não tem voz – em sentido tanto físico quanto simbólico – no campo do poder. Há pouco tempo as vozes femininas buscam tornar-se compositoras de suas próprias canções deixando a posição do fantoche vivo. O culto – moda, mercado, tendência – que permite soar a bela voz afinada das divas na contramão da voz política das mulheres é a contradição a ser exposta. Permissão e proibição. Há um estado de exceção da linguagem em que a expressão é tanto permitida quanto controlada, e, nos bastidores do espetáculo, recalcada. Enquanto os políticos decidem sobre o futuro dos corpos das mulheres tornadas autômatos em questões como a legalização do aborto, ouvimos o estimulado belo canto das feéricas sereias.

 

L’École des Ventriloques, da Compagnie Point Zero, da Bélgica, no Festival Internacional de Londrina (Filo), 2014

A partilha da voz

Poucas vezes lembramos que a voz é corpo e o mais fundamental dos fatos culturais. Da articulação da voz diz-se desde Aristóteles devém a política que se define em seu significado mais essencial como relação entre seres humanos capazes de articular a voz. Se toda relação é política, do mesmo modo toda política é relação. A ventriloquacidade é a intersubjetividade de nosso tempo antipolítico em que está em jogo a destruição das relações pela manipulação da expressão do outro. Sutil autoritarismo. Mas nossos são os tempos da perda cada vez mais séria das sutilezas.

A democracia não seria outra coisa do que a conquista da voz e sua partilha. Diálogo concreto. Conquista de um corpo-espírito na ausência do qual a miséria total não nos deixará escapar desta dialética em seu estágio perverso a que é preciso chamar pelo nome que mostra o quanto não somos senhores de nós mesmos.

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