Internet trouxe rearranjo ao espaço público brasileiro, afirmam pensadores

Internet trouxe rearranjo ao espaço público brasileiro, afirmam pensadores
Eugênio Bucci, Carla Rodrigues, Christian Dunlker e a mediadora Áurea Vieira (Foto: Rachel Sciré)

 

É preciso repensar a formação política, o papel da imprensa e o cuidado com a palavra num momento em que o ambiente digital traz uma nova configuração sobre público e privado, sobre o que é opinião e participação política. A fala é do psicanalista Christian Dunker, que nesta quarta (15) debateu com Eugênio Bucci (USP) e Carla Rodrigues (UFRJ) a função da imprensa como formadora de consciência política e social  durante o seminário Jornalismo: As novas configurações do quarto poder, organizado pela CULT em parceria com o Sesc.

“De repente, 73% da população brasileira tem acesso a smartphones e são convidadas a emitir opiniões políticas, um acontecimento sem precedentes. São novos atores políticos que entram na conversa com um histórico de exclusão e ressentimento das autoridades e instituições”, disse Dunker. “Em meio a tantas opiniões, se eu não tiver uma, volto para a invisibilidade. Mas a opinião que eu consigo enunciar já foi enunciada por outras 15 pessoas antes de mim, fazendo com que minha voz se perdesse de novo – então eu levanto a minha voz, o outro atrás de mim levanta também e em três segundos está todo mundo gritando.”

Nesse processo, defendeu o psicanalista, discursos “viralizam” e assumem valor de acontecimento e de fato no espaço público. O consumo dessa “informação”, distribuída de acordo com algoritmos das redes sociais, serve apenas para confirmar e solidificar opiniões já pré-concebidas. “O Facebook sabe melhor do que você o que você está procurando”, afirmou a filósofa e professora da UFRJ Carla Rodrigues. “Parece um paradoxo que, no auge da ‘sociedade da informação’, a gente não saiba mais distinguir o que é informação verdadeira, o que é falsa. E por isso acho que o termo já caducou”, disse ela.

O que se tem, hoje, para a filósofa, é uma “sociedade algorítmica”, em que não se produz mais jornalismo, mas conteúdo. “E conteúdo pode ser qualquer coisa que se coloca pra preencher um espaço vazio. O que nos confundiu, a partir de um certo momento, é não termos mais como diferenciar os ‘conteúdos’, oferecidos por algoritmos e replicados por sistemas de inteligência artificial.” Na lógica das redes, “estamos aprendendo a fazer perguntas de modo que as respostas não sejam reflexivas, mas binárias”, daí a polarização.

Jornalista e professor titular da USP, Eugênio Bucci afirmou que o funcionamento das redes sociais, especialmente o Facebook, depende da exploração do tempo e do trabalho humano no ambiente digital. “As pessoas trabalham no Facebook gozando. E de graça. Executam um trabalho pelo qual elas não serão remuneradas, ao contrário, elas são a mercadoria. Isso é uma coisa espantosa de um capitalismo que se especializou na exploração do desejo.”

Ao mesmo tempo que acredita que as redes sociais, como tecnologia, têm um papel arejador na esfera pública – “dela surgiram movimentos que só se viabilizaram graças a essas possibilidades” – Bucci vê com cuidado a rede de Zuckerberg. “O Facebook é uma plataforma própria e proprietária. Trata-se de monopólio global, um espaço público tomado por uma relação de propriedade que não havia antes.”

Para o professor, “talvez o papel da imprensa não seja formar cidadão nenhum”, mas, na melhor das hipóteses, “ajudar a sociedade a manter contato com os fatos no curso do debate público e no curso do enfrentamento das opiniões”.  “Pensamos a imprensa como um vaso condutor de relatos confiáveis, o que traz um problema: quem vai dizer se aquilo é verdade ou mentira? Essa incompreensão da nossa cultura acarreta uma série de distorções que prejudicam o ambiente para que a imprensa possa cumprir seu papel”, criticou.

O seminário Jornalismo: As novas configurações do quarto poder, iniciativa da Revista CULT em parceria com o Sesc, vai até esta sexta (17), no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Entre convidados nacionais e internacionais, são cerca de cinquenta nomes debatendo as transformações da prática jornalística na atualidade.

Seminário Jornalismo: As Novas Configurações do Quarto Poder
Onde: Teatro de Sesc Vila Mariana, R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo – SP
Quando: Até 17 de agosto de 2018
Quanto: R$ 30 (comerciário), R$ 50 (meia entrada) ou R$ 100 (entrada inteira)

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